Memórias de um Tempo Sem Saudades


     Memórias de um Tempo Sem Saudades

Eu já era um adulto de 21 anos e não sabia o que seria da minha vida. Mas eu escrevia. Já escrevia. ​Tinha escrito um romance chamado Fingindo odiá-lo. Escrevia tudo à mão, com caneta Bic de tinta azul, naqueles cadernos escolares de espiral. Eu escrevia, errava, rabiscava, reescrevia ou simplesmente deixava do jeito que estava. Lembro que o primeiro caderno foi o que teve mais folhas; depois, passei para um segundo, e o terceiro e o quarto foram cadernos mais finos. Era uma história muito inspirada nas novelas que eu assistia na época. Se eu fosse refazer esse romance hoje, ele sairia completamente diferente. Naquela época, eu não sabia nada de nada; só escrevia.
​Depois dele, escrevi outro romance. Escrevia por escrever. Eram muitas coisas, muitos ensaios. Se eu estivesse com esse material comigo hoje, estaria ajustando e arrumando esses textos aqui com o auxílio da Inteligência Artificial. Mas eu dei fim em tudo; queimei e destruí tudo. Era uma escrita malfeita, mas era a minha escrita. Hoje, eu teria um tesouro nas mãos.
​A Escola de Informática e os Anos 99/2000
​Antes de chegar ao ano 2000, fiz Informática em uma escola de computação. Na época, diziam que quem dominava a informática conseguia um bom emprego. Meu genitor pagava o curso enviando o dinheiro, e eu repassava à escola, que era um lugar legalzinho, em um sobrado. Eu estava desempregado e acreditava que aquela qualificação mudaria a minha situação. Sentia-me atrasado na vida: 21 anos e sem trabalho. Era bem diferente de muitos rapazes de hoje que vejo com 18 anos, já trabalhando, ganhando seu próprio salário e comprando sua moto ou seu carro. Eu não era ninguém com aquela idade; era um homem perdido, sem emprego e sem perspectiva.
​Meu genitor pagou o curso acreditando nesse retorno, mas, na ignorância dele, a verdadeira intenção era outra: ele queria que eu arrumasse um emprego para bancar as contas e sustentar a casa, para que ele pudesse "tirar o time de campo" e ficar tranquilo. Ele não estava pensando no meu futuro, mas sim no conforto dele. Não sei se isso me prejudicou, mas eu estava perdido.
​Lembro que eu ia para aquela escola com um único objetivo real: aprender a mexer no computador para digitar os meus romances. Eu viajava nessa ideia. Quando comecei o curso e me vi diante daquela máquina, em 1999, conhecendo os programas como o Word e toda aquela tecnologia, recebemos um material, uns livros e uma bolsinha da escola. Eu frequentava as aulas duas vezes por semana, às segundas e quartas-feiras. Na sexta-feira, o espaço era liberado para usarmos a internet.
​Era aquela internet discada do começo: horrível. Para acessar qualquer coisa, demorava uma eternidade; era quase uma hora para carregar um site de notícias. Que coisa horrorosa, tenho saudade zero daquele tempo.
​Mesmo sem dinheiro, eu ia todo arrumadinho, com as minhas roupas simples que eu achava que estavam arrasando: camisetinha por dentro da calça e cinto. Eu era um rapaz jovem e de boa aparência. Chegava com a minha bolsinha, sentava diante do computador e usava os disquetes — aquela mídia fininha e frágil que inseríamos no CPU para gravar os arquivos. Ali, eu começava a digitar os meus textos.
​Um dia, um rapaz da escola me viu digitando e ficou admirado. Começamos a conversar sobre literatura e sobre a história do meu livro. Ele gostou muito. Há pessoas que realmente apreciam a arte e a literatura, e conversar com elas é um deleite. Elas nos admiram por isso, e eu me sentia envaidecido. Em uma dessas ocasiões, já tinha passado do meu horário e continuamos conversando na sala. Quando a namorada dele chegou para buscá-lo, ele a chamou com um sorriso no rosto e disse que eu era escritor. Eu me senti muito vaidoso por estar sendo visto daquela forma. São lembranças de um tempo do qual não sinto falta, mas que aconteceram.
​As sextas-feiras na internet, porém, eram dias chatos e depressivos. Eu ia de bicicleta, morando muito longe da escola — que ficava no centro da cidade, perto de onde moro hoje, mas na época a minha realidade era outra. Eu chegava lá por volta de uma hora da tarde e saía quase às seis da noite. Era um tédio profundo. Eu ia mais para ocupar o tempo na internet, assim como os outros meninos da minha idade ou um pouco mais jovens, que tinham entre 17 e 18 anos. Eu, com 22, já me sentia um homem de certa idade, embora ainda fosse apenas um menino.
​Lembro de um garoto magrinho e moreno que os outros apelidaram de "Vírus". Tinha outro que ficava totalmente focado, criando um joguinho no computador. Nós conversávamos um pouco, mas cada um preferia ficar isolado na sua máquina. Às vezes, tentávamos ver alguma "sacanagem", coisas proibidas na época. Hoje em dia, basta abrir o celular para ver o que quiser, mas naquele tempo havia o mistério do proibido. E existia o medo de o histórico ficar registrado, pois nós não sabíamos como apagar ou deletar os rastros das visitas aos sites.
​O Peso de 1999 e a Crise em 2000
​Em 1999, eu era um zumbi. Um rapaz de 21 anos tentando buscar algo, mas completamente desacreditado, sentindo-me perdido. No entanto, eu alimentava a esperança mágica de que um dia me tornaria um escritor conhecido e admirado, e que aquele jovem simples e pobre que andava pelas ruas seria reconhecido. Eu frequentava as bibliotecas, pegava livros emprestados — adorava ler Agatha Christie — e saía com a cabeça cheia de ideias.
​Andava de bicicleta carregando uma mochila pesada com cadernos e livros. Quando surgia uma inspiração no meio do caminho, eu parava na guia da calçada, pegava o caderninho e escrevia ali mesmo. O bom da bicicleta era essa simplicidade. Depois descobri que eu não era o único escritor a fazer isso.
​Minha vida era movida a música; eu funcionava através dela. Usava Walkman, Discman e, mais tarde, MP3 e MP4, até que os celulares integraram tudo. Lembro que na época existia o Minidisc, um aparelho muito sofisticado e caro que o pessoal trazia do Japão; eu achava lindo, mas jamais teria condições de comprar.
​Aquele ano de 1999 foi horrível, não gosto nem de lembrar. Nada de bom aconteceu. Eu era um rapaz bonito e atraente, despertava o interesse das pessoas e chegava a ser abordado por carros na rua ou convidado para sair. Eu tinha uma boa aparência e sabia disso quando me olhava no espelho, mas precisava ser lapidado. Eu estava inerte, absorto no meu próprio mundo, deixando a vida passar por medo. Não namorava, não fazia nada; só tinha o desejo de ser escritor.
​Até que chegou o ano de 2000. O mundo não acabou, e a vida seguiu. Em junho daquele ano — faz exatamente 26 anos agora —, durante o inverno, fui tomado pela síndrome do pânico. Acredito que o acúmulo de tudo o que me faltava, o fato de não ter vivido a adolescência e de estar travado na fase adulta, culminou naquilo. De repente, fui atropelado por crises de taquicardia, suores frios e uma sensação terrível de morte. Só quem passa por isso conhece esse nível de desespero. O pânico tomou conta de mim de tal forma que cheguei a pensar que era melhor morrer do que viver com tanto medo de tudo: medo de sair, de desmaiar, de cair na rua.
​Por puro medo de morrer e querendo garantir que, se partisse, estaria batizado, acabei me convertendo a uma religião. Eu não tinha dinheiro para psicólogos ou psiquiatras e nem sabia que eles existiam. Minha única certeza sobre o diagnóstico vinha das minhas leituras e pesquisas. Naquela época, os membros da Igreja Universal passavam todos os domingos entregando o jornal da instituição nas casas. Eu tinha um preconceito enorme contra essa igreja por conta das histórias de corrupção envolvendo o Edir Macedo e a exploração financeira dos fiéis — um preconceito que muitos mantêm até hoje.
​Contudo, as edições daquele jornal sempre traziam matérias detalhadas sobre depressão, ansiedade e síndrome do pânico. Tudo o que eu lia ali batia exatamente com os meus sintomas. Percebi que não era uma doença biológica, mas uma dor da alma, fruto de todo o vazio que eu carregava. Aquelas leituras de domingo, de certa forma, me acalmavam. Nunca passei a frequentar aquela igreja — jamais faria isso, não combina comigo —, mas o jornal me ajudou naquele momento.
​A Busca pela Cura e o Fogo nos Manuscritos
​Aos poucos, fui melhorando porque decidi buscar uma cura alternativa por conta própria. Eu me forçava a voltar aos lugares que me causavam gatilhos e pânico porque queria encarar o medo de frente. Recusei-me a procurar postos de saúde para tomar remédios. Eu já entendia, mesmo aos 22 anos, o funcionamento da indústria farmacêutica, que lucra fortunas criando dependentes químicos. Observava pessoas do meu convívio com depressão que iam a esses postos, recebiam medicamentos e ficavam dopadas, mudadas, sem brilho. Eu dizia para mim mesmo: "Eu não vou ficar assim. Eu tenho a minha cura, tenho Deus e tenho a escrita. Deus me deu a escrita para superar isso". E continuei no meu mundo, escrevendo.
​No entanto, por ter me tornado cristão e frequentar outra denominação evangélica, eu vivia angustiado. Certo dia, pedi orientação a uma "irmã" da igreja. Contei a ela sobre as minhas angústias, os meus livros e os meus textos. Ela me disse: "Irmão, eu já sentia de falar isso para você. Você precisa se desfazer dessas coisas. Pega esses livros, esses CDs de música e joga fora ou doa, porque Deus não se agrada disso. Você precisa se livrar disso para ter paz e se curar".
​Tomado por aquele fanatismo e pelo desespero de ser salvo, em uma manhã, juntei todos os meus livros novos e os doei para conhecidos e para bibliotecas de escolas. Também me desfiz dos meus inúmeros CDs de música. Quanto aos meus escritos, como eu tinha pudor e não queria que ninguém os lesse caso eu morresse, decidi destruí-los.
​Havia um terreno baldio na frente da minha casa. Levei todas as minhas histórias para lá e fiz uma fogueira. Fui arrancando as folhas dos cadernos de espiral, juntando os cadernos de brochura e as folhas soltas de papel almaço. Joguei tudo em uma pilha, joguei álcool por cima, risquei um fósforo e assisti a toda a minha produção literária ser incinerada. Enquanto o fogo consumia os papéis, pensei: "Agora estou salvo. Se eu morrer, ninguém vai saber de mim ou do que escrevi". Eram textos ingênuos, mas, repito, se estivessem comigo hoje, seriam verdadeiros tesouros que eu revisaria com orgulho.
​A partir dali, uma nova angústia começou. Eu me vi sozinho em um ambiente onde tentava me moldar para ser um homem evangélico tradicional. Eu queria casar, ter filhos, arrumar um emprego simples e viver a vida pacata que os membros daquela igreja viviam. Eu olhava para os irmãos em suas casas humildes, com seus filhos pequenos, e achava aquilo bonito. Planejava isso para mim.
​Porém, logo percebi a realidade daquele ambiente. Era um cotidiano chato e deprimente. Nas reuniões, os assuntos giravam apenas em torno de doenças, mortes e provações. As orações pareciam cobranças eternas por pecados inexistentes. Lembro de uma vez em que fomos orar na casa de um irmão e ele começou a gritar, a bater os pés no chão com violência; um cenário assustador e anormal. Outros jovens da igreja diziam frases como "vamos ficar doidão, irmão" ou "vamos rasgar o verbo". Era uma demonstração de ignorância e fanatismo que me dava profundo tédio e repulsa.
​Eu visitava aquelas casas humildes e via um povo que parecia viver em um hospital espiritual miserável: todos doentes, reclamando, implorando por bênçãos que nunca alcançavam. Olhei para aquilo e pensei: "Onde é que eu estou? Isso não é para mim, não quero essa vida e não quero ficar perto dessa gente estranha". Embora eles falassem de Deus, o ambiente era tóxico. Continuei frequentando por mais um tempo, mas logo me afastei definitivamente.
​O Trabalho Voluntário na Biblioteca
​Ainda naquele ano, precisei de uns livros e fui à biblioteca do bairro, que funcionava dentro de uma escola onde eu já havia estudado. Uma conhecida me falou sobre a responsável pelo espaço, uma senhora da mesma igreja, que estava prestes a se aposentar e tinha sido remanejada para lá por problemas de saúde. Fui até lá, apresentei-me com a saudação da igreja — "A paz de Deus, irmã" — e ela me acolheu muito bem. Era uma senhora clarinha, de olhos azuis. Passamos a ter uma convivência muito boa, quase uma relação de avó e neto.
​A biblioteca estava completamente desorganizada e cheia de problemas. Eu me ofereci para ajudá-la a catalogar e arrumar os livros. Na verdade, o meu interesse real eram os próprios livros; eu queria estar perto deles, ler e poder levá-los para casa. Tornei-me um voluntário informal daquela biblioteca. Ia para lá todos os dias.
​Apesar de ter conhecido muitas pessoas e alunos bacanas, o cotidiano ali também tinha a sua dose de tédio. Eu me sentia sozinho e perdido, vendo a juventude passar enquanto trabalhava de graça. Meu único ganho era o acesso à leitura e o fato de ter um lugar para ir, simulando uma rotina de trabalho para fugir da ociosidade da minha casa humilde. Não sinto saudade nenhuma desse período. De zero a dez, a saudade é zero.
​O Presente e a Solitude
​Se eu pudesse voltar no tempo, talvez escolhesse ter a forma física daquela época, mas jamais aceitaria ter novamente os 22 anos com a mentalidade e a situação que eu vivia — a menos que eu fosse uma pessoa completamente diferente. O que eu fui e o que eu vivi bastam no passado.
​Hoje, tenho uma vida boa. Moro no meu próprio apartamento que, embora simples, é moderninho, bem arrumado e acolhedor. Estou aqui sossegado, sozinho. E faço questão de ressaltar: isso não é solidão, é solitude. É o prazer genuíno de desfrutar da própria companhia. Sinto-me muito bem no meu condomínio.
​Não nego que, às vezes, assusto-me ao ver os cabelos caindo e a possibilidade da calvície chegar. Mas está tudo bem; é preciso aceitar a idade. Vejo tantos rapazes jovens por aí, muito mais novos do que eu, já calvos ou carecas, vivendo suas vidas normalmente. Se acontecer comigo, quem me vir saberá que está tudo certo. Ninguém morre por isso.
​São apenas lembranças de uma fase difícil, resgatadas nesta madrugada de 31 de maio de 2026. Eu fui aquele jovem perdido, mas hoje sou o homem que aprendeu a gostar do próprio teto e do próprio silêncio.

Comentários

Postagens mais visitadas