Inquieto


Agora, inquieto com o momento, mas sem aquela pressa desordenada de sair por aí em cima da hora, busco proteger o meu modo de ser. Permaneço aqui, atento, ouvindo o cair de algo ao longe — algo que caiu — seguido pelo latido de um cachorro.

O cachorro late. Talvez seja o mesmo de anos atrás, talvez outro. O latido é bravo. Muitos cachorros têm latidos parecidos, dependendo da raça. Quando a minha primeira cachorra morreu, eu ouvia latidos distantes e logo me lembrava dela. Era como se ainda estivesse entre nós.

O cachorro que late agora pode ser um filhote, ou talvez daquela raça mais nervosa. Eu tive um assim. E, se for — se for mesmo — pode até ser o mesmo de uns dois anos atrás. Lembro que uma condômina chegou a reclamar dele no grupo do WhatsApp. Depois disso, passado algum tempo, o cachorro não latiu mais. Pode ser que já não esteja mais aqui, e que esse latido de agora pertença a outro, apenas semelhante — socialmente parecido, sonoramente familiar.

Há dias em que me pego refletindo sobre o que passou, sobre erros que cometi. Tento 

entrar com firmeza nesse meu novo eu, resistindo às pressões externas que insistem em me moldar, como se eu ainda precisasse ser melhor — sendo que, dentro de mim, já me sinto melhor.

O difícil, às vezes, é lidar com certos constrangimentos. Engolir pessoas difíceis, duras, que parecem existir apenas para testar a nossa paciência ou nos manter em movimento.

Hoje nem me lembro com o que sonhei. Dormi direto, sem interrupções. Arrumei a cama, abri a janela para deixar o sol de outono aquecer o quarto. Vi um carro amarelo estacionado em frente ao bar, do outro lado do condomínio. Parecia um Camaro — aquele mesmo, amarelo, que até já virou música.

Coloquei pequenos vasos coloridos no peitoril das janelas dos quartos. Vou plantar algumas flores — são simples, mas bonitas. Na copa, penso em colocar a bandeira do Brasil.

É Brasil. Campeão.

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