O Jornal





                                                                      O Jornal 







      Foi um dia estafante. A redação de um jornal é um verdadeiro caos — e só quem escolheu esse ofício sabe exatamente do que estou falando. Chego bem cedo e vou direto falar com o pauteiro sobre a reportagem do dia. Tudo precisa sair depressa. A sala ainda está vazia, só eu e ele. Mal dá tempo de beber um café ou engolir qualquer coisa. Estou concentrado, especificamente, na matéria do dia. Faça sol ou chuva, as coisas dentro de um jornal têm que acontecer. É preciso deixar tudo nos conformes. Imaginem vocês, leitores, quanta paciência física e mental se exige para encarar essa rotina estafante e ainda entregar a vocês, pela manhã, informações frescas e confiáveis. Às vezes chego ao limite, quase em surtos psicóticos — mas foi o que escolhi, não é mesmo? Então, mãos à obra. Ou melhor: à reportagem. Meu motorista e o repórter ainda nem chegaram. Deixe-me olhar o relógio da parede… Daqui a uns quarenta minutos devem estar aqui. Ambos moram longe, do outro lado da cidade. Eu moro perto, mas mesmo assim preciso estar antes deles. Ser o primeiro a chegar — ossos do ofício. Quando todos chegam, a verdade aparece: não é nada glamouroso como muitos imaginam antes de entrar nesse meio. Jornalismo parece glamouroso à distância. Alguns pensam que a vida de um jornalista, especialmente o da imprensa escrita, tem algum brilho. Não tem. Vaidade só mesmo para quem aparece bonito na televisão. No jornal impresso, é o oposto. Às vezes cobrimos um velório de um político famoso, e logo em seguida precisamos correr para registrar o casamento glamouroso de uma socialite. A vida do jornalista é louca. Correr atrás de casos, de eventos, de fatos. Quando saio à rua depois de esquematizar o dia, é aí que o bicho pega. Pego o carro da empresa e levo comigo o fotógrafo. Ainda é cedo e o caos está só começando. Durante o percurso, explico a ele onde vamos, quais informações coletar. Quanto mais, melhor. E se no caminho encontramos algum evento inesperado, o fotógrafo é sempre o primeiro a saltar do carro e começar a clicar tudo de interessante. O repórter fica furioso comigo, porque o pressiono para cumprir nosso cronograma. Ele, por sua vez, pressiona o motorista, que muitas vezes nem sabe onde fica o endereço e precisa ser orientado por nós. Entramos, muitas vezes, em conflito. É preciso fazer um esforço para não transformar isso em agressão física. Cobrir um evento não é tarefa fácil. Chegamos ao local e encontramos outros órgãos de imprensa já a postos, competindo pela mesma história. Além disso, há vários desconfortos para se conseguir chegar à reportagem, quase sempre complicada. E o pior: a remuneração é deprimente. Um jornalista ganha mal pra caramba. É um salário vergonhoso, se compararmos ao quanto sofremos para alcançar nossos méritos. Hoje em dia, a produção jornalística é ágil demais. Imaginem no século XIX, quando a imprensa não tinha recursos para grandes tiragens. Era tudo restrito. Com o surgimento da máquina de composição linotipo, a situação começou a melhorar. A industrialização foi crucial. A Revolução Industrial deu enorme impulso ao jornal. A imprensa ganhou vivacidade e novos temas. Nos Estados Unidos, tomou proporções gigantescas. Depois veio o telégrafo, ampliando ainda mais a circulação das notícias pelo mundo. Mas voltemos ao tema: a vida do jornalista. É preciso ter senso. Profissionais dessa área encontram muitos empecilhos, mas não se desanimem por tudo que estou dizendo. O jornalista também tem suas glórias — e isso nos leva às alturas. Fazer o bem para uma sociedade carente, denunciar descasos, chamar governantes à responsabilidade… Isso nos dá satisfação. Mesmo não tendo poder aquisitivo, temos poder de voz. Nem sempre conseguimos grandes resultados, mas quando conseguimos, é um acontecimento. A imprensa exerce força real na sociedade. O jornalista é, de certa forma, um herói. Dedica sua vida inteira ao que escolheu. Vamos adjetivá-lo: Super-homem. Advogado das intolerâncias sociais. Corajoso diante dos perigos de uma sociedade malévola. Benevolente. Doador de tempo — dia e noite — sem lazer, sem pausa, sempre pronto a ser despertado de madrugada para cobrir uma reportagem urgente. Vale a pena? Às vezes, sim. Quando não nos damos por vencidos. Quando lembramos por que escolhemos isso. O jornalismo é uma profissão que precisa ser pensada por quem deseja entrar nesse mundo. Como disse: o profissional sofre, se exaure, vive um personagem que não consegue tirar a roupa de trabalho. Escolhi jornalismo por achá-lo o máximo — talvez sem saber direito o que esse mundo realmente era. Mas, de tudo isso, tiro o sentido da minha vida. Mesmo com salário muitas vezes desanimador, mesmo com estudos sacrificantes, mesmo com o desespero que sinto quando saio para fazer uma reportagem… fico pensando na origem de tudo isso. Sabiam que, antigamente, jornalista não precisava ser formado? Não havia curso. Até hoje vemos profissionais sem diploma. E o que dizer dos velhos jornalistas, homens capazes, que contribuíram denunciando injustiças de um país corrupto como o nosso? Bem, por aqui vou encerrando. Talvez eu tenha feito um trabalho perfeito. 
Ou talvez não. Mas não tenho mais o que dizer. 

Até a próxima. 



 03/2006

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