Outono, Barulho de Avenida e Pensamentos
Outono, Barulho de Avenida e
Pensamentos.
Boa noite. Hoje é dia 23 de maio de 2026.
Eu ia escrever à mão, mas lembrei que estou sem caneta. Estou com um papel aqui na bolsa. Sempre ando com papéis, folhas de sulfite, guardanapos… coisas de alguém que escreve e usa dessas técnicas estranhas para criar. Acho que isso acaba virando mania. Talvez alguns escritores sejam assim também. Eu, pelo menos, só funciono de verdade quando escrevo numa folha jogada, amassada, quase perdida no chão. Parece que aquilo desperta alguma coisa em mim.
Eu estava vindo do trabalho pensando justamente nisso. Pensei em parar em algum lugar e começar a escrever. Foi então que lembrei: estou sem caneta.
Tive que fazer uma pausa agora porque estou aqui na avenida, ouvindo o barulho dos carros indo e vindo, pessoas passando pela calçada. Sou daquele tipo de pessoa tímida, que não consegue falar das próprias coisas perto dos outros. Agora mesmo passou uma moça correndo. Quando alguém passa perto, eu diminuo a voz. Não gosto que escutem minhas intimidades.
Alguém poderia perguntar:
— Por que você não fala isso dentro do apartamento?
E eu falo, sim. Sempre falo. Mas existem momentos em que a gente quer estar ao ar livre. Sentir o vento, olhar o movimento da cidade, ouvir os carros passando. É a terceira vez que faço isso: paro aqui, começo a conversar comigo mesmo, e depois transformo tudo em texto.
A moça passou correndo outra vez. Um jeito meio apressado, meio caminhada, meio corrida. Não sei se eu conseguiria viver assim. Sou tímido até para correr em público. Mas talvez tudo seja exercício. Tem gente que passa o dia inteiro sentada, parada numa cadeira, e depois precisa caminhar, fazer academia, correr atrás da saúde.
No meu trabalho não consigo ficar parado. Estou sempre andando de um lado para o outro, fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Talvez isso seja uma forma de manter o corpo vivo também. Nunca gostei de ficar num canto só.
Talvez seja por isso que nunca tive problemas graves de coluna. Já vi colegas se afastarem do serviço por dores horríveis, problemas nas costas, lesões, travamentos. E eu sempre tive medo disso acontecer comigo.
Quando comecei a trabalhar pesado, eu pedia a Deus para nunca deixar aquilo acontecer comigo. Não queria viver sofrendo de dores constantes, tomando remédios, injeções, dependendo dos outros.
Lembro de um rapaz que morava perto da minha casa quando eu era adolescente. Ele devia ter uns dezessete ou dezoito anos. Parecia forte, quieto, desses homens que a sociedade acha que nunca demonstram fraqueza. Um dia fomos até a casa dele e o encontramos na cama, se contorcendo de dor. Gemendo, chorando. Aquilo me assustou profundamente.
Eu nunca fui de fazer escândalo por dor.
Quando tinha uns onze anos, tive uma dor de dente terrível. Minha mãe tentava remédios caseiros, mas nada resolvia. Minha boca já estava inchada e eu chorava quieto, escondido. Fomos até a casa da minha avó, numa cidade vizinha, e eu lembro de ficar agachado no fundo do quintal, sofrendo calado.
Minha avó era uma mulher guerreira. Vendia produtos da Avon pela cidade inteira. Caminhava muito, trabalhava muito, e ainda tinha gente que dava calote nela. Mesmo assim, ela foi até a farmácia e comprou um remédio para mim.
Quando tomei aquele comprimido e a dor começou a passar, foi como uma bênção. Nunca esqueci disso.
A vida inteira fui assim: sofrendo quieto. Não porque eu ache errado demonstrar dor, mas porque sempre tive essa tendência de guardar tudo dentro de mim.
Às vezes penso que já vivi tantas coisas que tenho a sensação estranha de já ter morrido e não estar sabendo.
E olha eu falando essas coisas outra vez.
Ontem quase não dormi. Cheguei do trabalho depois da meia-noite, mas em vez de dormir fui assistir coisas, mexer no celular, escrever, pensar. Dormi perto das duas da manhã e acordei pouco depois, sem conseguir descansar direito.
Mesmo assim, fui ao supermercado cedo. Achei que estaria acabado, mas curiosamente estava bem. Como aqueles aparelhos modernos que carregam rápido: uma hora e meia pareceu suficiente para me deixar funcionando novamente.
Comprei algumas coisas — muitas bobagens, na verdade. Bolachas, coisas para comer de madrugada. Eu deveria cozinhar mais, cuidar melhor disso.
Quando voltei para o condomínio, vi as mensagens no grupo falando sobre as coberturas das garagens, empresas, votações, reclamações de preços. O síndico pediu para quem não tinha participado da assembleia passar na portaria.
Desci.
Ele me explicou tudo com paciência. Um rapaz educado, simpático, inteligente. Dá para perceber quando alguém é gentil de verdade e não apenas por obrigação. Conversamos sobre os projetos do condomínio, sobre o mercadinho interno, sobre a maquininha, pagamentos, essas coisas.
Depois conversei com o rapaz que estava arrumando o jardim. Colocaram pedras onde a grama havia morrido, plantaram árvores pequenas, organizaram tudo. Ficou bonito. E eu elogiei o trabalho dele. Ele ficou feliz.
Foi uma manhã simples, mas muito boa.
Mesmo sem dormir direito, eu estava feliz.
Às vezes a felicidade vem assim: discreta, silenciosa, sem grandes acontecimentos.
O sábado inteiro teve essa sensação boa. Trabalhei tranquilo, conversei com colegas, fiz minhas tarefas sem peso. O clima estava perfeito.
Eu amo o outono.
O outono é equilíbrio. Não é o calor sufocante nem o frio cruel. O outono é vida. Tem gente que diz amar frio intenso, mas acho que muitas pessoas nunca viveram frio de verdade. O outono, para mim, é a medida certa das coisas.
Quando saí do trabalho já estava escuro. Peguei a avenida, parei num banco perto do acostamento e fiquei ali olhando o movimento. Carros passando, motos, gente caminhando, crianças, pessoas vivendo.
E eu falando sozinho com o celular na mão.
Vi uma colega do trabalho atravessando a rua. Acho que era ela. Reconheci pela garrafinha de água que sempre carrega. Pensei em chamar, mas achei melhor não. Noite, avenida vazia, ela uma senhora, eu ali sozinho… as pessoas sempre pensam alguma coisa.
Deixei quieto.
Depois passaram os cubanos que trabalharam comigo na empresa. O casal e a criança. Falavam espanhol enquanto passavam de bicicleta motorizada. Fiquei olhando aquilo tudo e pensando como a vida vai cruzando pessoas diante da gente.
Continuei ali conversando comigo mesmo.
Até que uma viatura da polícia passou numa rua próxima. E imediatamente comecei a pensar coisas. Pensei que poderiam me abordar, pedir documentos, mexer no celular, desconfiar de mim apenas por eu estar parado ali sozinho falando com o telefone.
Peguei minhas coisas calmamente, coloquei o capacete e fui embora.
Hoje, domingo, já é dia 24 de maio. Agora são 21h57.
Passei o dia pensando em mudanças. Em organizar minha vida outra vez. Limpar o apartamento, comprar coisas para a casa, escrever mais, viver melhor.
Olhei para o condomínio sendo arrumado e pensei que talvez eu fique aqui por muitos anos.
Porque a vida também é isso: cuidar das coisas antes que elas desmoronem. Arrumar o que está quebrado. Não desistir só porque algo ficou feio ou bagunçado.
A vida é manutenção.
É seguir cuidando.
Fiquei no apartamento assistindo coisas sem prestar atenção direito, pensando nas folhas que pego no trabalho, sonhando em escrever um grande livro.
Porque escrever é viver para mim.
E agora estou aqui organizando tudo isso. Corrigindo textos, colocando fotos no blog, mexendo nas coisas que gosto de fazer.
E estou feliz.
Mesmo com pensamentos ruins aparecendo às vezes, estou feliz.
Acho que até o homem mais rico do mundo sente vazios. Deve olhar para tudo o que possui e ainda perceber alguma ausência.
A vida talvez seja isso mesmo.
E eu sigo feliz dentro da minha própria vida simples.
Feliz com minha idade. Feliz com meu cabelo. Feliz pelas pequenas mudanças. Feliz por ainda acreditar que muita coisa boa pode acontecer.
Porque eu ainda sou jovem dentro de mim.
E enquanto estivermos aqui, vivendo, existe possibilidade.
Até mais.
23/05/26
Noite


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