Falar, escrever — a gente faz um rascunho de um pensamento, e então vai digitando, acrescentando, mudando. É uma prática viva.
Estou aqui pensando em tudo. E existe uma coisa que acontece quando a gente para para pensar na vida: quando você olha para algo e se desaprova, porque percebe que não é aquilo, não está naquele lugar.
Há pouco eu estava vendo um vídeo. Era um rapaz jovem sendo abordado por um daqueles influencers que saem pelas ruas perguntando às pessoas sobre a profissão, quanto ganham, no que trabalham. O menino, à primeira vista, parecia ter dezoito, dezenove anos. Mas tinha dezesseis. Branco, cabelos lisos, corpo definido, aparência de quem tem dinheiro, de quem é cuidado. Bem articulado. Uma pessoa que nasceu cercada de privilégios — de beleza, de raça, de estrutura, de tudo. Alguém que provavelmente é muito feliz. E talvez seja mesmo.
E eu, nesta altura da minha vida, lembrei de quando tinha quinze, dezesseis anos. Eu não tinha repertório. Não era descolado. Não era nada disso. Porque, às vezes, um rapaz da mesma idade, mesmo sem todos os privilégios de alguém que nasceu em condições melhores, acaba se moldando pela convivência com os outros. Vai adquirindo postura, presença, um jeito de parecer interessante. Eu via isso quando era moleque: havia garotos da minha idade que já tinham uma firmeza que eu não tinha.
E até hoje não tenho.
Essa postura de quem sabe se impor. De alguém que naturalmente ocupa espaço, que se apresenta ao mundo como uma pessoa interessante. Vendo aquele rapaz, pensei comigo: sou apenas um cara bobo, desinteressante. Um homem que ainda carrega o ar do menino ingênuo que foi.
O meu corpo está envelhecendo. Mas o meu jeito, o meu olhar, a minha alma… continuam infantis. Continuam jovens demais, como se ainda não soubessem de nada. Minha essência parece ter parado em algum lugar entre os sete e os dez anos. Sei lá. Às vezes penso que nunca vou conseguir ser um adulto de verdade.
Ainda sou aquele cara que precisa falar para não deixar o silêncio pesado, estranho, austero. Os adultos parecem não se importar com isso. Falam quando querem, respondem quando querem. E muitas vezes respondem como se estivessem falando com uma criança — ou com alguém muito velho, que já passou a ser visto como alguém sem importância, sem desejos, sem peso. Como alguém que tanto faz.
E eu sinto que sou visto assim também. Como alguém cuja ausência não mudaria nada. Se ninguém falar comigo, tudo bem. Se eu ficar quieto, ninguém percebe. Porque, no fundo, parece que eu não sou ninguém. E eles não se importariam mesmo.
É isso.

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