A chave do Armário
Bom, vamos lá.
É mais uma lembrança do passado.
Estou assistindo agora ao programa Sem Censura, da TV Brasil, pelo YouTube, e tem a participação do ator Daniel Filho, que foi um dos grandes produtores da Rede Globo nos anos 60 e 70. De repente, a gente começa a ouvir as histórias desse pessoal antigo, dessas pessoas que viveram tanta coisa, e eu estou aqui assistindo ao programa, que tem quase duas horas. Faltam só dez minutos para terminar.
O mais curioso é que eu nem senti o tempo passar. O programa é muito bom, as histórias são ótimas, os entrevistados são interessantes, e é tão raro encontrar conteúdos assim hoje em dia. Quando a gente encontra, principalmente depois de um dia cansativo de trabalho, chega a ser um prazer assistir. É aquele tipo de coisa que você começa a ver e não quer parar.
Mas não é exatamente sobre isso que eu quero falar. Estou só fazendo uma introdução para chegar onde realmente quero. Às vezes começo falando de uma coisa e, de repente, já estou em outra. Nunca consigo focar em apenas um assunto.
Hoje, no trabalho, era para eu ficar em uma linha, mas acabei ficando em outra porque um funcionário faltou e precisei substituí-lo. No começo foi meio complicado, porque eu não estava entendendo direito aquela função, mas depois fui pegando o jeito.
O que realmente me preocupou aconteceu na hora da janta. Depois de comer, fui escovar os dentes. Peguei meu porta-escova no armário — aquele estojo onde guardo escova, fio dental e pasta de dente. O armário é daqueles de vestiário, com umas frestas perigosas nas portas. A gente sempre precisa tomar cuidado para não deixar cair nada ali dentro.
Quando fui guardar as coisas novamente, estava com o celular na mão e tentando colocar tudo na bolsa ao mesmo tempo. O armário é trancado com cadeado. Na hora de trancar, deixei a chave no cadeado e, sem perceber, ela escapou da minha mão e caiu no vão do armário de baixo.
Ainda bem que só caiu a chave, porque o cadeado já estava fechado e deu para deixar o armário trancado e voltar ao trabalho. Pensei que depois resolveria isso indo até a sala dos EPIs pedir ao líder a chave do armário de baixo.
Mesmo assim, fiquei preocupado. Afinal, seria necessário abrir o armário de outra pessoa, e isso sempre causa um desconforto. Mas pensei: “Tudo bem, haverá testemunha, e é apenas para pegar meu molho de chaves.”
Voltei para a produção, mas fiquei o tempo todo com aquilo na cabeça.
Quando saí para ir embora, às 23h06, passei a digital e sentei em um banco do lado de fora esperando o líder aparecer, porque não havia ninguém na sala dos EPIs. Fiquei esperando muito tempo.
Enquanto isso, observei as pessoas passando. Tinha uns cubanos conversando perto de mim — lá na empresa trabalham muitos cubanos —, outras pessoas saindo da produção mais tarde, gente indo embora, conversando, atravessando o corredor, e eu ali, esperando.
O líder não aparecia.
Peguei um pedaço de papel que estava dentro da bolsa e comecei a escrever qualquer coisa. Eu sempre ando com folhas de sulfite na bolsa justamente porque gosto de escrever, mas naquele dia não tinha quase nada. Já tinha usado duas folhas durante o expediente.
Ali, sentado, sem ter mais papel para escrever, fiquei só observando o movimento. Estava vestido com o uniforme da empresa, com minha garrafinha de água e a bolsa dos EPIs, esperando alguém aparecer para resolver aquela situação simples, mas que acabou virando quase uma hora de espera.
Depois que o movimento diminuiu e quase todo mundo foi embora, o líder finalmente apareceu acompanhado de outro funcionário. Ele pegou as chaves na portaria, abriu a sala dos EPIs e me entregou as chaves dos armários.
Eu ainda disse que talvez nem tivesse certeza se o molho de chaves realmente tinha caído no armário de baixo, porque ouvi um barulho e poderia ter sido o cadeado. Também existia a possibilidade de a chave ter caído dentro da minha bolsa aberta.
Mas fomos conferir.
Meu armário era o 800 e o de baixo, o 801. Quando abri o armário inferior, o molho de chaves estava lá.
Na hora senti um alívio enorme.
O armário estava vazio, sem ninguém usando. As duas chaves estavam no mesmo chaveiro porque aquele armário já não pertencia a nenhum funcionário.
Peguei meu molho de chaves, tranquei tudo de novo e devolvi rapidamente as chaves ao líder. Depois fui ao vestiário, troquei de roupa e finalmente vim embora.
Cheguei em casa querendo resolver minhas coisas: limpar o apartamento, lavar roupa, organizar tudo. Liguei a TV e estava passando justamente essa entrevista com o Daniel Filho. Aquilo me deu uma sensação boa.
Enquanto assistia, fui lavando as camisetas do trabalho, fiz um chá — porque eu amo chá — e organizei algumas coisas pela casa.
E senti vontade de falar por aqui também.
Eu gosto muito de escrever à mão para depois transformar aquilo em áudio ou em texto, mas às vezes também quero simplesmente falar. Eu amo conversar. Amo falar sobre as coisas. Às vezes sinto até que exagero, porque é muita coisa saindo ao mesmo tempo.
Mesmo com toda essa facilidade tecnológica de hoje, eu não abro mão de escrever à mão. É diferente. A escrita tem outro ritmo. A gente fala de um jeito e escreve de outro.
Muitos textos que já compartilhei aqui nem passaram pelo ChatGPT. Eu mesmo corrigi. Porque conheço meu texto, sei o que quis dizer, sei onde quero chegar.
Claro que o ChatGPT ajuda bastante a organizar, corrigir pontuação e deixar a leitura mais fluida. Mas tudo o que escrevo vem de mim. As ideias, os pensamentos, as memórias, tudo é meu.
Eu não gosto da ideia de simplesmente pedir para a inteligência artificial criar uma história inteira e depois chamar aquilo de autoria própria. Para mim, isso perde o sentido. O que vale é justamente o esforço de pensar, sentir e construir.
Hoje mesmo eu estava vendo uma entrevista com uma escritora que disse ter usado o ChatGPT na criação de um livro, e isso gerou muita discussão. Porque existe uma diferença entre usar a ferramenta como apoio e deixar a ferramenta criar no seu lugar.
No meu caso, eu escrevo tudo. Às vezes peço ajuda apenas para organizar melhor o texto. Mas as histórias, os ensaios, os pensamentos e as reflexões saem da minha cabeça.
E durante muito tempo achei que eu escrevia errado.
Achava que era estranho escrever coisas desconexas, pensamentos aleatórios, frases sem forma. Até perceber que muitos escritores trabalham exatamente assim: primeiro deixam as palavras saírem, depois organizam tudo.
O próprio Stephen King já falou sobre isso. Primeiro ele escreve livremente. Depois volta lapidando, corrigindo e dando sentido à história.
Escrever é um trabalho manual também. É construção. É carpintaria.
As pessoas imaginam que um escritor simplesmente senta e cria algo perfeito de primeira, mas não funciona assim. O texto nasce bruto, desorganizado, cheio de excessos. Depois ele vai sendo trabalhado até ganhar forma.
E eu percebi que faço isso também.
Escrever me dá uma sensação de vida. Mesmo quando penso que talvez tudo isso seja perda de tempo, percebo que não é. Porque escrever me ajuda a existir melhor, a entender o mundo, a suportar as coisas e a continuar encontrando esperança.
Às vezes penso: “E se um dia alguém encontrar tudo isso que escrevi?”
Mas tudo bem.
Se encontrarem, encontrarão apenas alguém tentando sobreviver através das palavras.
Porque escrever, para mim, também é uma forma de permanecer vivo.
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