Andar, Voar

                       ANDAR, VOAR

Por que ando? Ando porque existo. Não só ando com as minhas duas pernas físicas, ando porque estou vivo e mesmo que não andasse fisicamente, ando e vou andar enquanto vida aqui brotar. 
Estou ficando enraizado mais do que tudo, feito o finado pé de tamarindo que tinha lá na minha outra casa. Ah, como o pé de tamarindo enraizou, numa força tremenda, crescendo, envelhecendo. 
A árvore teve morte por eutanásia, já que ainda vivo estava apodrecido, morrendo, caindo e mesmo assim ele floria, frondoso,  folhas verdes, queria continuar firme dentro da terra, correndo em raízes, se prendendo àquele lugar onde nasceu. 
Quando eu era criança, leve, subia no pé de tamarindo e lá ficava. Depois de adulto, tentei subir e não conseguia, e depois fui sentir, entender que, se conseguia subir na árvore, era porque eu era todo maleável, pequeno, corpo frágil, com todo um jeito. 
O adulto está pesado, com uma estrutura óssea pesada, por isso não tem o mesmo pique de uma criança toda maleável para subir em alturas, numa rapidez, a não ser que a criança for obesa e não conseguir. 
Eu fui aquela criança que subia em tudo quanto é lugar, árvores, e caía, me machucava. 
Uma vez quase quebrei o pescoço, tive que colocar um colar de gesso, no pronto-socorro. A minha mãe falou que eu ia morrer e fiquei apavorado. 
Outra vez foi a perna direita que foi engessada. Eu queria brincar, correr e não podia. Antes do prazo, faltando um dia para arrancar o gesso, eu o arranquei e saí correndo, livre, feliz, pela rua Estrela Solitária, onde eu morava, lá em São Paulo. Por pouco que não alcei voou,  no correr, feliz por poder andar sem aquele gesso que me  impossibilitou por tantos dias da minha vida. Andar fisicamente, andar por tudo, ser livre. 
Se um dia, já velho, eu não conseguir andar mais, não sei. Dentro de mim estará o homem, a criança que anda, que mesmo sem andar vai inventar o seu voar. 

31/05/2026
Manhã.

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