1997
1997
O ano era de 1997. Eu estava no segundo ano do ensino médio. E eu estava numa nova escola, porque na escola que eu estudava, no meu bairro que eu morava, não tinha o segundo grau, era só o ensino fundamental até então.
E eu e toda aquela turma que tinha encerrado o ensino fundamental foi para essa escola, uma escola que fica num bairro de classe média, de pessoas de situação de vida melhor, onde tem casas melhores, pessoas bonitas, melhores de situação financeira, porque quando essa muda, as pessoas são mais bonitas, atraentes, organizadas e inteligentes.
E eu venho de um mundo onde a pobreza, feiura, simplicidade, não que não sejamos bonitos, sim, mas não é aquela beleza, de uma mistura racial que quando a pessoa tem mais dinheiro, parece que os brancos se juntam, porque eles estão no mesmo barco, eles estão no mesmo social. Então não há aquela mistura racial. Então pude prestar atenção que quando as pessoas brancas estão no mesmo social, elas são descendentes de europeus e levemente elas têm alguma ascendência de alguma camada nativa. Eles são italianos, são alemães, são portugueses, japoneses. Difícil ter um japonês pobre, morando num bairro pobre, não é? Japoneses são gente bem financeiramente.
Enfim, isso é só pra descrever o que aconteceu. E eu fui fazendo o primeiro ano do ensino médio nessa outra escola, desse bairro no qual citei. Ah, eu lembro que a escola era de um andar, e eu era louco pra estudar no de cima. E aconteceu que não. Eu fui cair justo na última turma do primeiro colegial, que era a turma 1⁰ H.
Então a gente estava na sala de baixo, porque tinha um menino que estava na nossa turma e este tinha sofrido um acidente e estava com pinos na perna, um acidente de moto, ele estava andando com aquele andador. Não podia subir as escadas. Então a gente, como ele era da nossa turma, teve que ficar na sala de baixo. E eu louco para estudar na sala de cima e estudava a nossa sala, a única lá embaixo. Sempre devia ser o contrário, começar lá de baixo e ir subindo para cima. E subindo, né? Olha, eu estou falando pelo naso fala, né? Eu vou repetir, subir, subir, não precisa ser para cima, subir já é subir, já é em cima. E aí, ok, eu vinha de uma, na fase adolescente e tal, eu vinha de uma sensação de que todo adolescente passa da gente suspirar por alguém, se apaixonar, ver aquele clima de uma sensação de que você vai ser feliz, de que você vai encontrar alguém. A gente quando é muito jovem, a gente é muito sensível, a gente é muito... A gente se apaixona, a gente quer alguém. Eu acho que isso explica as paixões, não é? As paixões elas vêm de uma solidão, de uma coisa desprotegida. Eu acho que a gente mira em alguém, a gente deposita em algum ser toda a nossa segurança, toda a nossa estabilidade emocional, se é assim que se pode dizer, não é? Engraçado que hoje, eu vivo há três anos que eu vivo sozinho, eu nunca mais eu tive sensação por ninguém, nem quero. Não me apego a ninguém, não tenho mais aquela coisa de achar que eu preciso de alguém. Eu acho que eu me basto e curto a minha solitude. Nunca mais aconteceu de eu mirar em alguém, encostar e achar assim nossa, essa pessoa vai me salvar, vai estar comigo, eu vou estar acompanhado, eu vou estar com alguém que eu vou compartilhar as minhas coisas. Não, eu acho que a vida toda eu sempre... A pessoa que eu sempre procurei na vida eu acho que sou eu mesmo, eu me encontrei. Depois de anos eu acabei me encontrando, né? Eu encontrei quem a pessoa que eu procurava era eu mesmo e eu encontrei. Mas aí eu estou contando do início ali da final da adolescência ali e tal. Eu sei que no primeiro dia de aula e tal, aí a gente via aquele pessoal diferente, diferente do nosso, lá do nosso bairro. É claro que lá no nosso bairro tinha o pessoal bonitinho, os meninos. As meninas arrumadinhas e tudo, mas ali nessa outra escola era diferente. Era um pessoal mais claro, mais loiro, mais com as suas peles bem, como se diz, um pessoal limpo de verdade, não era um pessoal, um pessoal que parecia que andava em bolhas. Não era que nem a gente assim, queimado do sol, com a pele maltratada. Era aquela pele mimosa, né, aquelas meninas com cabelos lisos, sedosos, os rapazes, e eles iam de chinelo com aqueles pés branquinhos, limpinhos, aquelas roupas, bermudas, camisetas, aqueles meninas que você via que eram meninas de uma outra classe social. E eu lembro que a gente fica encantado assim, porque é novidade, né, e a gente é jovem e tudo. E ali há um frisson, porque você acha assim, alguma coisa vai ter que acontecer. E comigo aconteceu, eu lembro que que eu vi um rapaz, um jovem rapaz, louro, de estatura baixa, olhos azuis, na verdade, eu acho que eram verdes. Ele era meio fortinho. Ele estava com uma jaqueta, ele só andava com uma jaqueta, e naquela época era verão, era fevereiro, não é? E ele estava com uma moto, eu lembro até hoje a moto dele, uma moto Today, aquela marca Today que não existe mais. E eu tinha prestado atenção, eu vi aquele menino louro de jaqueta de couro, parecendo aquela jaqueta do do do Tom Cruise lá do filme Asas Indomadas, Asas Indomáveis, né? E aquilo me fascinou, olhei pra aquele rapaz assim, eu fiquei... Eu olhei pra ele assim, de repente deu um clique, sabe quando dá o clique? E eu ia de bicicleta pra escola. Eu lembro que na hora da saída, eu tava saindo pra pegar a minha bicicleta no bolsão e ele foi pegar a moto deles lá no na parte que estacionava as motos, do estacionamento das motos. E aquele pessoal todo...saindo pra ir embora e eu peguei e agachei para destrancar a minha bicicleta. Eu lembro até hoje que eu estava com uma bermuda, uma bermuda de uma marca VIP WIP, que eu comprei numa loja que o pessoal falava que era uma loja de marca boa e eram as marcas... Hoje em dia eu não vejo mais essas lojas bacanas que tinham naquela época, as marcas eram umas roupas reforçadas, umas costuras bem... com aquela marca legal e tudo. Era uma marca normal, assim, uma loja assim, mas que muita gente descolada assim, classe média, assim, comprava nessa loja e eu comprava de vez em quando. E eu estava com uma camiseta também da VIP WIP, VIP WIP, WIP, tá? É daqui da cidade, não existe em outros lugares. E eu era bem magrinho mesmo, aquele corpinho, menino magro, alto. Eu sou moreno, claro, né? E eu colocava a camiseta por dentro da bermuda, um tênis, aquele tênis, acho que o tênis era tênis Rainha, que eu estava usando. E eu todo mundo falava que eu tinha um andado elegante, assim, porque a gente quando é magro, dizia que eu não andava, que eu desfilava, que o meu andado era super elegante, né? Todo mundo falava pra mim, todo mundo, nossa, você tem um andado elegante. E eu estava saindo pra ir embora e eu agachei para destrancar a minha bicicleta. Então eu saí da bicicleta e quando eu olhei, eu vi como que o rapaz estava saindo de moto, eu olhei para trás, para olhar para ele. Porque eu olhei, ele me olhou também. Ele ficou me olhando assim, travou os olhos em frente de mim, com um olhar simpático e ficou me olhando também. Eu gelei na hora, fiquei com vergonha, aí peguei a minha bicicleta e fui saindo. E aquilo me balançou, sabe? Porque aquele menino bonito, louro, de olhos verdes, né? Eu olhar para ele, ele olhar de novo para mim, e olhar com um ar simpático de quem nos incomodou com aquele olhar, e claro que ele percebeu que eu olhei para ele, né? Que eu olhei para ele com o olhar... Claro que o cara sentiu, ele viu, aquele rapaz me olhou. E uma coisa que eu aprendi é que quando a pessoa é bonita e atraente, se você olha para ela e faz um ar meio assim, imediatamente ela já entende que você olhou para ela com alguma malícia, com alguma intenção. Ela entende disso, ela sabe que aquele olhar foi porque ela chama atenção. Aí eu peguei a minha bicicleta e saí. E parece que naquele momento eu me apaixonei pelo rapaz. E foi uma paixão mesmo, que no dia seguinte, quando eu vi ele novamente, meu coração começou a disparar, patia. Era só eu ver ele, meu coração começava a sair pela boca, e eu tentava disfarçar, eu suava, eu transpirava. Foi uma época que eu transpirava e debaixo dos meus sovacos pingavam suores. As minhas mãos... Meus dedos suavam, sabe? Eu tive uma fase da minha vida que eu suava, quando eu ficava nervoso, eu suava todo, eu ficava todo molhado de suor, não sei o que que isso explica. O que que você e a pode me explicar aí? Que eu, quando eu ia conversar com as pessoas, eu eu tremia muito e suava. Eu até falei num dos meus relatos que eu sou um cara muito falastrão, acho que eu queria, eu tinha essa timidez e eu precisava vencê-la. No começo eu estava, eu estava burlando todos esses sentidos e eu conseguia através dessa minha... Logo o rei que fala isso, essa forma de falar muito, né? Então, eu quando via o rapaz, o meu coração disparava e eu ficava nervoso e eu não conseguia me controlar, eu tremia. Eu ficava com medo das pessoas perceberem. Tinha gente que às vezes percebia. Olhava pra mim e falava, por que que você tá tremendo? Você tá tremendo? O seu... Eu começava a bater os queixos, começavam a bater, sabe? Porque eu ficava nervoso demais, eu tremia. Eu tive essa sensação, tive bastante. Depois de um tempo eu fui curando isso. Eu fui me autocurando com essas terapias de o que eu faço, de falar muito, de vencer o ser humano. Eu acho que o fato de eu conversar muito com as pessoas quando eu estou perto delas é que eu quero prendê-las, eu quero intimidá-las para que elas não invadam, não é? Meu espaço, então eu as afugento assim. Então eu me apaixonei por esse menino, esse rapaz, que é um pouco mais velho do que eu, não parecia, parecia da mesma idade, mas depois eu descobri que ele era uns três anos mais velho. Já era um rapaz, já tinha uns 21 anos e um rapaz bonito, atraente, misterioso. E todas as vezes que eu via ele, nossos olhares se cruzavam, meu coração disparava. Naquela época, estava tocando nas rádios, já fazia quase um ano a música da cantora Toni Braxton, Unbreak My Heart. Aquela música virou tema da minha paixão pelo rapaz. Unbreak My Heart, Say You Love Me Again. Essa é a música. Então eu viajava naquela canção e quando eu via o clipe, aquele clipe romântico ali, tudo que encantava. Eu tinha antena parabólica em casa e pegava aqueles canais da MTV, Multishow, que liberava os canais de clipes de músicas às 20 horas e eu assistia e lembrava dele. Aí depois veio a música dos Spice Girls, 2 to come one, acho que é isso, Spice Girls. E aquela música também entrou como trilha sonora da minha sensação. Então eu ouvia essas músicas e eu viajava, mas não só essas, como outras. Tinha uma música da Diana Ross também, tinha uma música de um cara aí que é uma música antiga, que eu ouvia nas rádios, e naquela época a gente ouvia música nas rádios, né? Eu ligava nas rádios para pedir essas músicas, e eram músicas que faziam parte da trilha sonora do meu sentimento por esse rapaz. E durante aquele ano de 97, e ele era turista na escola, ele não ia. Ele ia uma vez no mês, e eu ficava esperando ele aparecer, ele não aparecia. Ele nunca aparecia. Teve uma vez que ele apareceu e ele tinha amizade com um cara que estudava na minha sala. E ele entrou lá na minha sala, quando eu vi ele, eu quase... quase tive um troço, quase morri. Parecia que ele entrou na sala e me deu uma olhada assim, sabe? E eu apaixonado com aquele cara. Teve uma vez também que ele estava descendo as escadas e ele veio com o olhar, com os olhos em direção a mim. E eu olhando pra ele, ele me olhando também de longe. É claro que de alguma forma ele sentia que eu estava olhando pra ele. E aí eu fui descobrir o nome dele, por acaso, assim, como quem não quer nada, eu perguntei, aí eu fiquei sabendo o nome dele. Até hoje eu lembro o nome dele. Ele se chama Ricardo, se estiver vivo, né? Alexandre... E se ele estiver vivo hoje, ele tá velho e ele está... Será que ele vai estar bonito? Talvez não. Talvez tá calvo, eu não sei como que ele vai estar. Ele era baixinho, né? Então eu me apaixonei perdidamente. Me apaixonei a ponto de descobrir onde ele morava. Saber que ele morava numa casa tal, eu olhar na lista telefônica o sobrenome dele e ligar lá e perguntar e a mãe dele, não sei quem foi que atendeu, falar que sim, que ele morava ali. E eu a ponto de eu ir embora pra casa e pegar o caminho que eu passava em frente à casa dele, só pra passar em frente à casa dele.E eu viajei naquela sensação, eu sofria. Aí só sei que naquele mesmo ano surgiu uma música do cantor Djavan, Um dia triste, um bom lugar pra ler um livro, o pensamento lá em você. Eu sem você não vivo. E eu ficava pensando nele e ouvindo essa música. E eu sofria, sofria porque ele não ia na escola, não ia. Aí teve um dia que era a hora do intervalo.
Ele foi e eu estava conversando com um conhecido meu. E o pessoal todo mundo reunido no pátio lá e tudo. E eu lembro que ele estava conversando com um conhecido dele também. E eu peguei e ele estava próximo de mim assim. Eu e ele um de costa para o outro. Eu pensei, agora eu vou me arriscar. Eu vou olhar para ele. Eu tenho que tomar coragem, eu vou olhar para ele. Eu tenho que saber que eu gosto dele. E eu virei e no que eu virei ele virou também e começou a me olhar. Ele me olhou com um ar tão sedutor que me deu medo aquele olhar dele. Eu falei, gente, será? Será que se eu for até esse rapaz ele vai ceder? Ele vai me querer? Ele também curte, ele é gay também igual eu. Só sei que eu fiquei tão nervoso que eu peguei. Virei para a frente e saí. Eu fiquei com medo. Mas eu juro, até hoje, aquele olhar dele, aquele olhar dele sedutor me olhando. eu quase não tenho nada. Então eu fui embora chorando. Eu fui embora, eu não sabia, eu morava em casa com os pais, irmãos e eu não podia ficar sofrendo, ficar chorando perto de pessoas. Mas eu estava transtornado, eu não sabia o que eu queria, eu não tinha com quem falar. A minha vida sexual era uma vida que era só minha, ninguém sabia de nada. Era só eu mesmo. Até que eu conheci uma colega e ela, uma colega lésbica, que a gente acabou conversando sobre isso e um se abrindo com o outro. E foi aí que eu acabei falando com ela sobre essa paixão pelo menino. E então era, eu ia na casa dela e ficava lá conversando com ela. Ela falava das pessoas que ela gostava e eu falava das minhas. Então a gente falava a mesma língua, era uma lésbica e um gay conversando sobre sentimentos, porque a gente só tinha um ou outro, né? Como que a gente ia conversar sobre assunto com pessoas héteros. E eu estava sofrendo muito, eu sabia que aquilo era uma ilusão da minha cabeça. Eu era adolescente, eu era jovem, eu estava viajando numa coisa que que era coisa, podia ser coisa na minha cabeça também. O rapaz, ele era daquele jeito, talvez ele desconfiou, ele viu. Ele percebeu que algum rapazzinho gay estava olhando para ele e isso não tinha normal. Ele era como um menino bonito. Tantos gays de mim olhar pra ele e sentir alguma atração, eu não era o único, né? Ainda mais por ele ser um menino muito louro, um branco demais, sabe? Louro italiano mesmo. Aqueles... aquele tipo que você vê que não tem sangue negro ali, é louro puro mesmo. E eu sei que eu sofri pra caramba, eu sofri. Eu ia pra escola. E eu fui, eu ia todos os dias. Ele não ia. Ele ia uma vez no mês, mas eu ia todos os dias, porque eu sabia que num daqueles dias ele veio estar. E o ruim é que quando ele ia, ele ia embora na hora do intervalo. Aí eu pensei, se ele gostasse de mim, ele ia ficar também. Ele não ia embora. Ele ia ver eu estudar. Ou será que ele desconfiou que eu tava aprendendo e ele ficava com medo de eu estudar? Isso não seria possível, eu não sei por quê. Aliás, toda a minha vida eu não sei o que aconteceu comigo. Será que eu espanto as pessoas? Eu ficava pensando, mas quem era eu pra espantar alguém? A pessoa não sabia de nada, por que que... Ela não podia até desconfiar, mas era ter certeza. Ainda mais eu é um menino novo. Quem ia aqui que ia ter medo de um menino novo que... que não falava nada, nunca falou nada, nunca... Porque devia ser alguma... como se diz... uma falta de sorte da vida, né? Você gostar de alguém, essa pessoa não está ali. Mas isso não foi o primeiro caso, em outros casos também aconteceu a mesma coisa. Eu gostar de uma pessoa que estava próxima de mim e de repente aquela pessoa sair, até do emprego, saía. E eu pensar, só foi eu gostar da pessoa, a pessoa desapareceu, sumiu, foi embora. Então, assim, eu sofri ali com aquele rapaz ali, eu sonhava com ele. Aliás, eu não sonhava com ele, eu nunca sonhei, eu acho. Mas eu pensava num futuro, eu ficava pensando nós dois juntos, a gente casando, indo morar num apartamento, a gente chegando do trabalho, eu fazendo a comida dele, eu... a gente se amando e num apartamentinho aconchegante nosso. A gente, só nós dois juntos, vivendo pelo outro. A gente com um filho até. Eu viajava nessa sensação. Eu ficava só sonhando com isso. E chegou o ano de 98, eu fui pro segundo colegial e ele também. Só que ele de novo não ia. E eu passei aquele ano de novo, sofrendo, sofrendo, sofrendo. Eu precisava esquecer. Eu lembro de uma vez que eu estava indo e ele estava chegando de moto, ele estava com uma camiseta branca, ele não estava com a camisa da escola. Ele estava com uma camiseta branca, ele loirinho assim, branquinho, com o cabelinho louro, uma camiseta branca, ele estava tão lindo, tão lindo que eu fiquei, eu fiquei aquela imagem dele, com uma camiseta branca, lindo. Eu estava apaixonado, meu coração disparava, sabe? Era só vê-lo que meu coração disparava. Enfim, o final da história eu só sei que depois eu tive que colocar um ponto final nisso, porque aquilo não ia dar em nada e esse rapaz não ia pra escola e depois eu entrei em outra, mas eu continuei com ele na cabeça e aí ele foi, aquela sensação foi acabando e uma vez eu encontrei ele, mas ele tava de costas, ele tava com uma moça negra, uma criança loura no colo dessa moça negra. E eu pensei, é claro que é a mulher dele e o filho dele, né? Ele muito branco, loiro, e a moça negra e aí teve um filho com ele e o filho saiu branco, né? Aí eu pensei, ainda bem, eu até fiquei feliz porque assim ele gosta de gente morena, né? Eu não sou negro, eu sou moreno claro, brasileiro, sabe? Mas eu fiquei feliz por saber que de uma certa forma ele tinha uma certa atração por gente morena, até negra. E foi isso, essas lembranças, não vou ter tanta lembrança assim pra falar sobre esse rapaz que eu nunca nem conversei com ele. Foi uma paixão platônica de adolescente e acontece, né? São coisas da vida. Não tenho muito o que dizer, eu não tive uma história com esse cara. Eu nunca nem falei com ele, nunca nem ouvi a voz dele. Era apenas o olhar dele. E ele ali naquela noite, naquelas noites, eu lembro que uma vez estava chovendo muito e eu fui debaixo de chuva para a escola, porque eu queria ver ele. Cheguei na escola molhado, todo molhado, mas eu fui porque eu pensei, ele vai estar lá. Ele não foi, claro que não, né? Eu lembro que uma vez eu caí na cama desabei chorando muito, porque a minha vida só tinha sentido com aquele cara. E foi assim


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