Urologista
Daqui a um ano e meio vou ao urologista fazer o exame de toque, e isso já me preocupa por inteiro. Ir ao médico para fazer um check-up é algo meio assustador. Nunca sabemos o que pode vir. Sei lá... em vida, a gente se deixa mexer.
Quem se deixa mexer sangra o corpo. São partes, exames, todo um processo. Afinal, estamos vivos. Sentimos desconfortos, passamos pelas coisas próprias do viver. Somos um movimento vital, e tudo pode, de repente, mudar um dia, nos adoecer ou até nos levar embora.
Ir ao urologista será uma primeira vez. E as primeiras vezes costumam carregar um peso diferente. Depois dessa, haverá outras. É preciso continuar.
As mulheres, de certa forma, saem perdendo desde muito cedo, porque são examinadas quase a vida inteira. Precisam frequentar médicos e especialistas para cuidar de partes do corpo que exigem atenção constante. São cobranças, cuidados e responsabilidades que as acompanham ao longo da vida.
Muitas vezes penso que as mulheres acabam sendo uma espécie de escudo dos homens. Enquanto muitos homens seguem apoiados na força prática, elas costumam carregar muito mais do que se vê. Dão conta de tantas coisas ao mesmo tempo que, às vezes, parecem sustentar o mundo inteiro.
Um homem se diz cansado e, não raro, espera que uma mulher faça aquilo que ele mesmo não faria, preso às estruturas que aprendeu sobre ser o provedor, o forte, o que não demonstra fragilidade.
Pensar em ir ao urologista é também pensar em cuidar do próprio corpo para não passar pelos problemas que tantos homens enfrentam. Como será? Eu ainda não sei. Nunca precisei.
Existem muitas piadas sobre o exame de toque. Muitos homens morreram por ignorância, por vergonha ou por não permitirem que um médico os examinasse para prevenir ou diagnosticar um câncer de próstata.
Fico imaginando como será a consulta. O que vão perguntar? Meu histórico de vida? Minhas experiências íntimas? Nem casado eu sou e nunca vou me casar.
Só de pensar nesse dia, que parece tão próximo, já me sinto constrangido.
Isso, claro, se eu viver até lá.
Às vezes sinto como se estivesse chegando ao fim de alguma coisa. Ao mesmo tempo, sei que preciso viver como se fosse durar para sempre. É uma contradição estranha.
Quem devo ser daqui por diante, sem temer o homem mortal.
05/06/2026 /Madrugada.


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