Hoje, 15 de maio de 2026, estou aqui nesta madrugada novamente. Quando começo a falar sobre as coisas, é desse jeito mesmo: uma lembrança puxa outra, um pensamento leva a outro pensamento, e vou seguindo.

Estou olhando para a minha geladeira. Em cima dela há dois vasinhos de violetas, daqueles pequenos. Comprei as flores na semana passada, no supermercado. Uma é roxa, a outra é vermelha, de um vermelho escarlate muito bonito.

Engraçado como, às vezes, a gente fala uma palavra e o transcritor entende outra completamente diferente. Mas tudo bem.

Na semana passada eu estava muito mal por causa de alguns problemas no trabalho, envolvendo uma pessoa daquelas que parecem surgir apenas para trazer desgaste. De vez em quando somos obrigados a confrontar certos "demônios" da vida. Algumas pessoas parecem escolher cuidadosamente quem vão provocar, afrontar ou infernizar. Fazem isso sem medo das consequências. Mas acredito que existe um retorno para tudo. Se não acontece no mesmo lugar onde o mal foi praticado, acaba acontecendo em outro momento da vida. Pessoas que vivem atormentando os outros acabam repetindo esse comportamento com todos à sua volta, porque isso faz parte do caráter delas.

Não desejo mal a ninguém. Sei que, quando estamos magoados, às vezes pensamos coisas que não correspondem ao que realmente existe em nosso coração. São apenas pensamentos de um momento de dor.

No Dia das Mães fui à casa da minha mãe. Eu estava havia quatro meses sem voltar lá. A última vez tinha sido no começo de janeiro. Nem mesmo a virada do ano passei com eles.

Na época eu saí de lá dizendo que não voltaria tão cedo. Estava revoltado com certas situações que nunca mudam. A casa continua desorganizada, cheia de coisas quebradas e acumuladas. Há pessoas que poderiam melhorar suas condições de vida, mas simplesmente não fazem esforço algum.

O quarto onde eu dormia virou uma bagunça. Quando eu morava lá, tudo era organizado.

Mesmo sem visitar a casa, eu ligava para minha mãe aos domingos. Conversávamos bastante. Eu gostava disso.

Quando eu costumava ir para lá, saía bem cedo. Muitas vezes eu nem tinha dormido direito. Trabalhava a semana inteira, chegava exausto, mas ainda assim acordava cedo, tomava banho e ia para a casa dos meus pais.

Chegando lá, levava a cachorra para passear. Ela já ficava esperando. Depois varria o quintal enorme, limpava a frente da casa, organizava algumas coisas. Fazia tudo isso justamente no único dia que eu deveria estar descansando.

A verdade é que eu não conseguia ver tudo sujo e desorganizado sem fazer alguma coisa.

A cachorra que eu levava para passear naquela época ainda conseguia caminhar bem. Hoje ela já está idosa e quase não aguenta mais. No ano passado, se eu não tivesse levado ao veterinário e comprado os remédios, ela provavelmente teria morrido.

Isso me faz lembrar de outros animais que tivemos.

Quando eu era menino, ganhei um cachorro da minha tia-avó. Eu acreditava que cuidar de um cachorro era simplesmente dar a mesma comida que nós comíamos, deixar água disponível e mantê-lo no quintal.

Em janeiro de 1992 viajei para a fazenda dos meus tios. Enquanto eu estava lá, o cachorro desapareceu e depois voltou para casa machucado.

Quando regressei, em fevereiro, encontrei aquele animal magrinho, debilitado, com uma das patas feridas. Minha mãe dizia que talvez tivesse sido mordido por uma cobra ou sofrido algum outro acidente.

Lembro de vê-lo dentro da casinha, fraco, cambaleando e sem conseguir comer. Eu tinha apenas quatorze anos. Fui para os fundos da casa e chorei desesperado.

Nossa situação financeira era muito difícil. Meu pai estava desempregado. Minha irmã mais velha trabalhava numa granja e levava para casa cartelas de ovos trincados para complementar a alimentação da família.

Hoje penso que talvez aquele cachorro pudesse ter sido salvo por um veterinário. Uma consulta, uma medicação adequada, talvez uma simples injeção. Mas nós não sabíamos dessas coisas.

No ano seguinte ganhei outra cachorra, também dada pela minha tia-avó. Ela viveu por mais tempo, mas acabou adoecendo porque aplicávamos injeções anticoncepcionais para evitar crias. Naquela época não sabíamos dos riscos. Mais tarde descobri que isso pode provocar tumores e outras doenças graves.

Também tivemos uma gata que morreu de câncer pelo mesmo motivo.

Foram muitos erros cometidos por ignorância.

Quando eu era criança, também maltratava sapos. Achava que aquilo era normal. Ninguém me ensinou que aquilo era crueldade. Hoje me arrependo profundamente dessas atitudes.

Mas voltando ao Dia das Mães.

Quando cheguei à casa da minha mãe, tive uma sensação estranha. Parecia que eu tinha saído de lá no domingo anterior e voltado apenas uma semana depois. Tudo continuava igual.

As cachorras me receberam normalmente. Minha mãe também.

E, curiosamente, foi isso que eu gostei de perceber: a normalidade.

A casa continua sendo a mesma casa.

Às vezes penso que nunca saí de lá de verdade. Posso passar anos sem voltar, mas quando entro naquele lugar parece que uma parte de mim continua morando ali.

Minha mãe está idosa, mas continua cheia de energia. Comprou vasos novos para plantar flores. Pintou algumas coisas da casa. Continua vivendo a vida dela.

Minha irmã mais velha chegou com os filhos. Uma das filhas está grávida e terá um bebê em junho. Meu sobrinho já é um rapaz de vinte e um anos e contou sobre uma viagem recente para Campos do Jordão.

Minha irmã mais nova também apareceu com os filhos.

A casa ficou cheia de gente, conversas, risadas e lembranças.

Houve churrasco, bolo e aquelas pequenas situações familiares que se repetem há décadas.

Em alguns momentos eu me senti deslocado, observando tudo de longe.

Talvez porque o tempo tenha passado.

Talvez porque eu também tenha envelhecido.

Talvez porque, no fundo, todos nós mudamos, mas continuamos representando os mesmos papéis de sempre quando voltamos para certos lugares.

Quando finalmente voltei para o meu apartamento, senti alívio.

Gosto daqui.

Gosto dos meus finais de semana silenciosos.

Gosto de ligar para minha mãe à noite e conversar com ela.

Também gosto das lembranças daqueles domingos antigos, quando eu saía cedo, enfrentava o frio da manhã e observava a cidade acordando.

Naquela época eu imaginava que, em algum daqueles domingos, encontraria alguém especial para conversar, alguém que mudaria a minha vida.

Nunca aconteceu.

Era apenas uma fantasia.

Hoje estou em outra fase.

Recentemente coloquei redes de proteção nas janelas do apartamento. No começo senti tristeza. Eu gostava de abrir a janela e observar o condomínio inteiro, colocar a cabeça para fora e ficar olhando o movimento da rua.

Agora a visão está diferente.

Mas aos poucos fui entendendo que aquilo também faz parte das mudanças da vida.

Tudo muda.

Os lugares mudam.

As pessoas mudam.

As paixões mudam.

As fotografias deixam de ser importantes.

As nostalgias perdem força.

E nós seguimos vivendo.

A vida é isso. É seguir observando o tempo passar enquanto continuamos caminhando dentro dele.


14 de maio de 2026 — Tarde

Hoje estou me preparando para o que preciso fazer daqui a pouco.

O tempo está abafado, mesmo sendo outono.

Anteontem o clima estava fresco, quase gelado. Cheguei até a reclamar do inverno que ainda nem começou, porque aquele frio trouxe lembranças antigas. Lembrei de uma época da minha vida em que vivi momentos difíceis, sentimentos que mais tarde se transformaram em síndrome do pânico.

Até hoje o frio desperta certas sensações em mim.

Lembro dos dias cinzentos da infância, quando morava em São Paulo. Lembro das notícias de violência, das mortes, da tristeza que parecia pairar sobre a cidade.

Quando o sol aparecia, tudo parecia melhorar.

O sol trazia esperança.

Às vezes penso no sol como um símbolo de Deus: a luz, o calor, a vida.

E penso no frio como uma representação da escuridão da alma.

É curioso, porque existe um paradoxo nisso. Dizem que o inferno é quente, cheio de fogo. Ainda assim, para mim, os dias frios sempre carregaram uma sensação de tristeza.

Nesta tarde cinzenta de quinta-feira, fico refletindo sobre o passado.

O tempo passa.

Nós envelhecemos.

Nosso corpo muda.

Mas o tempo continua sendo o mesmo.

Dizem que o homem está destruindo o planeta. Talvez, na verdade, esteja destruindo apenas a si mesmo. O planeta continuará existindo de alguma forma. A natureza encontra caminhos para se recuperar. Nós é que somos passageiros.

Nascemos.

Vivemos.

Colhemos o que plantamos.

E morremos.

Essa é a grande condição humana.

Enquanto isso, sigo escrevendo.

Cada texto é uma tentativa de compreender o meu tempo.

Cada observação é uma forma de organizar a vida dentro de mim.

Dias atrás me senti ameaçado e humilhado por alguém insignificante. Naquele momento, voltei a ser o menino inseguro do passado, aquele que tinha medo da aprovação dos adultos e medo de ser julgado.

Talvez por isso eu evite encarar certas pessoas.

Alguns olhares parecem carregar reprovação.

Algumas pessoas têm o dom de nos deixar desconfortáveis apenas pela forma como observam.

Mas também aprendi que quem vive tentando tirar a paz dos outros geralmente não está em paz consigo mesmo.

O melhor que podemos fazer é viver a nossa vida.

Cada pessoa carrega seus próprios conflitos.

Cada um sabe de si.

E eu sei muito bem de mim.

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