Hotel Califórnia


     Hotel Califórnia

Katy W. vai se apresentar no show e vai cantar a música Hotel California num ritmo sertanejo. Ela tem esta música no seu novo disco e a voz impressiona. Em entrevista ao apresentador Gê Souza Jr., disse que foi até os Eagles e teve todo o elenco se emocionando com a nova roupagem da canção. Katy, cujo nome é Maria Catarina Wohgitim Muniz, natural da cidade natal dos quatro amigos.
— Eu mato aquela cretina que estragou a música Hotel California.
Kika era fascinada pela música. Estava nos idos de 2009 e, de repente, se indignara com uma cantora brasileira que cantara Hotel California num desses programas de talk show, comandado pelo apresentador Gê Souza Júnior.
— Até outro dia essa cretina cantava música sertaneja e agora vem querer assassinar um clássico do rock internacional?
Sua amiga a censurou por isso.
— Ela não é a única a regravar Hotel California. Quantos não regravaram essa música? Você tem que aceitar — afinal, ela é uma artista brasileira e, pelo que vi, foi elogiadíssima pelo intérprete original. Com essa coisa da internet, tudo que se faz aqui é visto do outro lado do mundo. Um peido se ouve a milhas de distância.
— Ela não vai sair de queridinha por ter regravado Hotel California — disse Kika baixinho.
— Ih, se eu for além nas minhas suposições, vou dizer que há algo aí. Eu não sei direito, mas que tem alguma treta, ah, tem — disse sua amiga Vick, que morava com ela depois que ficara viúva e seus dois filhos foram estudar fora.
— Que paranoia, Vick! — Kika estava nervosa. Acendeu um cigarro e olhou a cidade pela sacada da janela.
E assim Kika relembrava essa época que parecia tão próxima, tão ali, ao alcance da mão.
Há trinta anos fizemos uma viagem pelas estradas. Era eu, Tom, Ben e Katy. Os quatro. Ninguém ali era ainda um casal — só amigos. E numa parte escura e sinistra da estrada, quando o nosso Landau vinho conversível de quatro portas — quero dizer, o do Tom — quase caiu no despenhadeiro, nos agarramos achando que iríamos morrer. Descemos e, com o carro quase dependurado na beira do abismo, conseguimos empurrá-lo para cima. Caímos exaustos no mato. O céu estava estrelado. Eu sentia um carinho pelo Tom, que sentia pela Katy, que sentia pelo Ben, que sentia por mim. Um amava o outro, sofrendo pelo outro. No fim, preferimos a amizade colorida mesmo.
Seguimos as estradas. De repente, começou a tocar "Hotel California". Eu, Tom e Katy começamos a viajar na sensação. Estávamos no ano de 1989. Tínhamos 23 anos completos — eu e Katy fazíamos aniversário em maio, Ben em junho, e Tom completaria vinte e quatro anos em dezembro. Ele nascera no final de 1965 e então faria 24 anos no final daquele ano. Era mês de julho. Frio. Éramos felizes e sabíamos que sim, que estávamos na trilha certa.
Desde a faculdade, nos intervalos daquele colégio entediante, sonhávamos viajar a bordo de um Landau vinho conversível que o nosso amigo Tom havia ganhado de presente de um tio muito rico.
A música "Hotel California" veio naquela madrugada quando o carro quase caiu no precipício. Era doido... coisa de doido mesmo.
O que houve foi o seguinte: resolvemos viajar pela América do Sul por um ano. Lembro do dia em que largamos a cidade a bordo do Landau. Lembra aquele filme, Priscilla, a Rainha do Deserto? Foi uma cena parecida. O povo festejou a nossa saída, uns amigos jogaram confetes e bebidas, e o carro saiu como se carregasse recém-casados para a lua de mel. Ganhamos a estrada. Era início do inverno.
Na primeira noite, fomos assaltados e quase perdemos o Landau, mas a polícia rodoviária o encontrou e nos devolveu. O carro era do Tom. Que sonho. Descíamos a capota e saíamos na estrada, curtindo o vento gelado. Éramos quatro amigos: dois homens e duas mulheres.
O dia clareou. Ben nos fotografou com a sua Polaroid. A foto saiu magnífica. Seguimos, e novamente Hotel California. Ben queria muito me namorar. Naquela época ainda não existia a gíria "ficar". Eu amava Tom, que amava Katy, que queria o amor de Ben, que me queria. Um amava o outro e ninguém ali, de nós quatro, estava sendo correspondido.
Até que, em certa parada, quando entramos num restaurante, ficamos conversando. Tom saiu dizendo que iria ao banheiro, o mesmo fez Katy. Fiquei tranquila porque jurava que ela amava Ben, que me amava. Ficou só eu e ele ali, à mesa. Pagamos a conta dos dois e, ao chegarmos ao carro, vi Tom e Katy se beijando ao som de Hotel California. Eles ficaram sem jeito, mas se mantiveram diante de nós — de mim e de Ben. Esse sorriu e exclamou:
— Enfim nasce um casal! — e apanhou a Polaroid. — Acho que tenho que registrar esse momento!
Katy riu.
— Não, Ben!! Eu...
— O quê? — Ben tirou a foto.
Tom pulou para fora do carro. Olhou para os três e disse:
— Essa será a nossa última semana, e acho que devemos vivê-la intensamente... realizar os nossos desejos reprimidos.
— Por que a nossa última semana? — indagou Kika.
— Porque eu tenho que deixar as estradas e voltar para casa. Eu decidi deixar esse negócio de andar por aí. Agora somos novelos, temos idade, e depois... eu penso muito no futuro.
— Pô, camarada! — Ben depositou a Polaroid sobre o capô do carro. — Você vai nos deixar? A gente jurou viver assim durante um ano. Não está bom. Eu amo isso aqui, essa aventura ao som de "Hotel California". Era tudo que queríamos, que precisávamos para sair daquele marasmo pós-faculdade.
— Agora, Ben. — Tom enlaçou o amigo. — Agora tudo é mágico. Nós só temos vinte e três anos. Eu sou o mais velho dos quatro — pela diferença de meses, seis meses. Nasci no final de 65, e vocês três no ano seguinte...
— O combinado seria de um ano de viagem. Não deu dois meses. E o lance de morarmos no Uruguai... Eu sou louca para morar em Montevidéu — esbravejou Kika, que ficou emburrada. Não pela decisão de Tom de interromper a viagem, mas por tê-lo visto beijando Katy.
À noite, num ponto da rodovia, perto de Minas Gerais, Ben chegou perto de Kika.
— E aí, o que acha dessa decisão do Tom?
Kika olhou para o lado e viu Tom conversando animadamente com Katy.
— Vem cá. A Katy te esqueceu? Ela não te ama mais?
— Por que você está me perguntando isso?
— Ela e o Tom... Eles estão...
— E você, por gostar dele, está com ciúmes? Deixa eles dois para lá. Se eles estão se acertando, acho que nós também... — Ben foi para beijá-la, mas ela se afastou.
— Eu quero ouvir "Hotel California". Cadê a fita que você comprou para mim, mas está na sua posse?
— Ah, a fita é sua, boneca. Comprei para você, mas a guardei.
Ben pegou a fita no porta-luvas do carro e a colocou no toca-fitas. A música começou a tocar. Tom e Katy se olharam e, em seguida, se abraçaram. Kika sentou no banco do carona com a porta escancarada e Ben do lado do motorista.
Tom e Katy estavam sentados no capô do carro. Kika não gostou do que viu e ficou muito incomodada com a cena. Estava sofrendo muito. Abaixou o rosto, com uma vontade imensa de chorar. Sentiu o carro balançar. Se ergueu e olhou para o casal.
— Tira essa música! — meio que gritou.
— Por quê? Não quer mais ouvir?
— Não... Estou com enxaqueca!
— Tudo bem! — Ben desligou o aparelho.
Tom bateu no capô.
— Pô! Que negócio é esse? Coloca a música para tocar.
— Estou com dor de cabeça. Não quero barulho.
Tom foi até o carro e ligou o toca-fitas.
— Se está com dor de cabeça — olhou de soslaio para Kika —, então vai dar uma volta com o Ben, porque eu e a Katy queremos curtir a música, tá legal? — e tornou a ligar o aparelho.
A música voltou a tocar. Ele voltou para perto de Katy. Os dois se abraçaram e começaram a se beijar.
Kika se ergueu do banco e saiu correndo dali, seguida por Ben, que em dado momento quis pegá-la pelos braços e convencê-la a gostar dele.
— Ei, Kika... Não fica assim! Olha, que tal se nós...
— Por favor, Ben. Me deixa! Eu quero ficar sozinha!
— Você tem que aceitar.
— Eu não entendo como foi isso. Até esses dias atrás ela dizia te amar e agora está com ele. E você, ah?
— Eu disse a ela que gosto de você! A Katy entendeu.
— Eu amo o Tom e você sabe disso.
— Como a Katy disse me amar e agora está com o Tom... Se ela passou a amá-lo porque ele a ama, acho que posso fazer você me amar. Olha: eu me acho mais bonito que o Tom. Sou loiro, tenho olhos verdes. Não entendo por que não consigo atrair vocês, mulheres, que preferem o Tom.
— A Katy era fascinada por você. Primeiro te amou e agora está com o Tom.
Kika estava nervosa. Olhava de soslaio para o lado do carro e sentia ciúmes ao ver Tom e Katy.
— Ah, Ben, eu não estou bem.
— Sem senso de humor, então.
— Não há nenhum senso de humor numa situação dessas. Eu acho melhor encerrarmos essa aventura. Agora, quem quer voltar para casa sou eu. Chega disso! Era felicidade demais para continuar. Em dado momento, isso não poderia dar certo mesmo. É sempre assim. Nem sei por que fui aceitar cair nessa besteira de sairmos pelas estradas em busca de sermos felizes pós-faculdade. Isso era uma tremenda besteira e jamais daria certo. Eu tinha esperança de voltar casada com o Tom, mas pelo visto... — começou a chorar.
Deixou-se abraçar por Ben. Ele a amava, e se Tom e Katy estavam juntos, tinham se entendido — os dois também tinham que se encontrar.
Ao som de Hotel California, os quatro contemplaram aquela noite. Lá pelas tantas, Kika tomou uma cerveja e estava mais animada. Olhava para o amigo Ben, que tinha olhos de paixão fitos nela. Acendeu um cigarro.
— Hotel California... lembra?
— O louco do Tom quase nos jogou pelo precipício e "Hotel California" nos deu uma outra dimensão de como seguir em frente.
— Ah, somos quatro loucos. — Kika deu mais uma tragada no cigarro. — Quatro recém-formados saem pela estrada a bordo de um Landau conversível pelas rodovias da vida... Sabe, Ben, eu vou te confessar uma coisa.
— Diga! — Ben era só atenção para a amada. — Conte os seus sonhos.
— Não era sonho... Naquele último ano da faculdade, eu estava decidida a me matar.
— Como?
— Isso mesmo! Eu estava tão entediada com a vida, com um futuro incerto, que estava decidida a dar um fim na minha vida. Mas a ideia de sair pelas estradas da América do Sul fez com que eu decidisse ficar e lutar.
— Então você estava disposta a cometer suicídio?
— Quem não estaria, quando a vida parece não ter mais saída?
E, antes que encerrassem a aventura, Kika chegou até Tom.
— Eu e Ben vamos continuar. Decidimos ficar na estrada e daqui seguir para Montevidéu.
Foi assim. Despediram-se. Katy e Tom seguiram no Landau, e Kika e Ben ficaram num hotel. Dali, ela decidiria se queria mesmo ir para o Uruguai.
— Decidida? — indagou Ben com aquele ar terno. — Se estiver mesmo afim, a gente embarca amanhã de manhã para Montevidéu.
Kika havia mudado de ideia. Olhou para Ben.
— Não! Eu acho melhor voltarmos para casa e nos casar.
Ben exultou na hora. Faria Kika feliz.
E eles voltaram para casa. Encontraram Tom e Katy um ano depois — e estes estavam casados.
— Katy quer ser cantora! — disse Tom. — Estamos correndo atrás.
— Qual o estilo de música? — perguntou Kika.
— Sertaneja! — sorriu Katy. — Têm essas moças aí que estão fazendo sucesso. Eu tenho voz e já comecei a escrever as letras.
Kika ainda amava Tom, mas pôde ver que este amava tanto Katy e estava se dedicando para torná-la uma cantora.
O tempo foi passando. Kika e Ben nunca se casaram. Ela ia adiando, e ele a respeitando. Certo dia, ela resolveu pegar a máquina de escrever e datilografar seu romance. Seria escritora — esse era o seu sonho. Ben havia se formado em Farmácia e trabalharia com o pai, dono de uma farmácia. Seguiriam assim depois da aventura frustrada.
Tempos depois.
Kika se arrumou e foi atrás de Katy. Ela não deixaria a cantora estragar Hotel California naquele show na cidade. Havia ido longe demais. Pegou o carro e seguiu para lá. Chegou no início do show. Conseguiu entrar. Dois policiais correram para impedi-la de entrar no camarim da cantora Katy W. Ela driblou os seguranças. A multidão aguardava a grande cantora sertaneja. Entrou com tudo no camarim. Como conseguiu, só Sigmund Freud poderia explicar essas reações humanas. Vinte anos tinham se passado.
— Você não vai cantar "Hotel California"! Eu não vou deixar!
— O que é isso?! Kika?! Meu Deus... É você?
— Não importa quem eu seja agora. Eu não vou deixá-la cantar "Hotel California".
— Você se tornou a minha escritora favorita. Leio todos os seus livros e amei aquele em que se inspirou em nós quatro. Amiga! Quanto tempo que a gente não se vê!
A reação de Katy era de pura emoção ao ver a amiga após dezoito anos, desde que esta havia partido e ido morar longe. Kika ainda guardava mágoa de Katy, pois sempre achou que ela havia roubado o amor da sua vida.
Os policiais entraram abruptamente no camarim, seguidos de Vick. Ela havia seguido a amiga com medo de que esta cometesse um desatino, depois de encontrar um texto revelando o que Kika planejava — sair da cidade para impedir uma antiga conhecida de cantar Hotel California.
Katy disse aos policiais que estava tudo bem, que a deixassem, pois não se tratava de nenhuma maluca — era uma amiga do passado que viera vê-la. Vick entrou com tudo, acompanhada do agente de Katy, que estava apavorado achando que a sua cantora seria assassinada.
Katy pegou Kika pelas mãos e as duas se sentaram no sofá.
— Amiga...
— Nós não somos mais amigas há vinte anos, desde que vocês nos deixaram para voltar para casa.
Tantas coisas aconteceram depois que você saiu da cidade. Ben ficou muito sentido, pois te amava muito, e não se casou. Eu não me separei do Tom quando ele decidiu assumir a fazenda do avô lá pelas bandas de Corumbá. Ele casou, teve filhos e hoje está muito velho, gordo, careca e criador de gado. Até fumo de mascar usa. E o Ben... ele ficou muito doente.
O celular tocou. Katy atendeu. Fez um ar de lamento. Ela não poderia cancelar o show — era preciso se apresentar. Mas saindo dali recebeu a notícia.
— O Ben morreu! — disse, indo para os braços de Kika.
— O quê... Eu nem sabia que ele estava doente.
— Foi há um ano. Acho que ele entrou em paranoia. Enlouqueceu. Eu ajudei os pais a interná-lo numa clínica psiquiátrica.
Kika nunca soube, e Katy explicou que a família havia preferido assim — que a saúde do filho fosse mantida em privacidade e que ninguém soubesse. Ele morreu no sanatório.
Katy se apresentou no show e, antes de começar, fez um minuto de silêncio. Fitou o público e falou:
— Acabei de receber a notícia da morte de um amigo muito querido, irmão de alma. Vou iniciar com "Hotel California", conforme combinado, em homenagem a ele.
Kika ficou de um lado do palco enquanto Katy se apresentava, cantando de início a música Hotel California, enquanto as lembranças do passado vinham. Eles quatro pelas estradas a bordo do Landau. Agora Ben era morto.
O show se encerrou. O agente de Katy apareceu.
— Você vai daqui mesmo para a cidade...
— Sim. — Katy olhou para Kika. — Você vem comigo. Vamos no meu avião.
Vick disse que ficaria.
— Vai você, amiga. Eu fico e cuido da sua gatinha.
Kika e Katy seguiram. O corpo de Ben estava sendo velado na capela da cidade. Elas cumprimentaram os familiares. Kika viu Tom. Ele estava tão acabado — afinal, cuidando da fazenda que o tio lhe deixara de herança. Estava divorciado e tinha um casal de filhos adolescentes. O Landau vinho ainda existia, com tantos quilômetros rodados. O corpo de Ben foi sepultado na manhã seguinte, no cemitério da cidade natal onde os quatro haviam nascido.
— Ele faria 43 anos amanhã — disse Katy. — A gente ia dar uma festinha, mas infelizmente...
— Ele me deu a fita dos Eagles assim que paramos na loja de discos. Comprou para mim por ver que "Hotel California" era a minha música preferida.
— Nossa, Kika! Nós quatro amamos "Hotel California".
— Eu sempre a ouço — disse Tom, que percebia que Kika não o olhava mais como o olhara vinte anos atrás. Era um estranho para ela.
— Você não mudou nada, Kika... está igualzinha.
— Eu só fiquei mais loura — falou Katy, soltando um risinho. — E engordei um pouco. Mas a Kika... menina... igual. Mesmo corpo, os cabelos negros curtos e encaracolados. Só ela paralisou no tempo. Ah, o Ben, coitado. Engordou e ficou calvo bem cedo — ele que amava aqueles lindos cabelos louros compridos. Dizia que lavava com xampu de camomila e por isso conseguia aquela cor tão singular.
— Ele tinha cabelos lindos, e o seu caráter era mais lindo ainda. Eu até podia ser mais galanteador — apesar de não ser louro, sou quase um mouro — mas não tinha o caráter do meu amigo. Ele sim merecia ser feliz.
— A culpa foi minha. Eu o deixei... eu o ilude e depois fui embora da vida de todos para...
— Para me esquecer, Kika? — Tom a olhou profundamente. — Eu nunca pude retribuir o sentimento que você tinha por mim, pois eu...
— Me amava e eu me forcei a amar você, né, Tom? — Katy o olhava com ternura. — Homem bonito de pele morena, tão raro no nosso meio, com esses expressivos olhos azuis. Quando eu amava o Ben, me perguntava por que não você. O Ben amava a Kika... engraçado. Eu, loura, amava um louro que amava uma morena que amava um moreno que amava uma loura — eu. Há! Se pudéssemos voltar no tempo...
— E por que acha que deveríamos voltar no tempo? — perguntou Kika.
— Para acertar as pendências. Acho que, se pudéssemos voltar, resolveríamos muitas coisas...
Os três ficaram em silêncio, e dentro de cada um deles havia a consciência de que um e outro fizera a escolha errada — e por isso a história se fez completamente diferente do que esperavam. O quarteto deveria ter sido feliz e, lá adiante, olhar para trás e ver que dera certo... que o plano de ser feliz se concretizara. Mas não.
Uma semana depois.
Katy ligou para Kika dizendo que Tom queria falar com as duas e que precisariam rumar para a cidade natal deles. Kika pediu que Vick cuidasse da gatinha Surya e seguiu para a cidade. O encontro foi no coreto da praça central.
— Por que nos chamou até aqui? Disse que era tão urgente, caso de vida ou morte, que vim correndo — disse Kika.
— Ainda bem que estou sem show, porque se tivesse não poderia vir, Tom.
— Meninas, eu sei que vão ficar estarrecidas pelo que vou dizer, mas tenho uma missão. Com a ajuda de vocês, vou precisar que...
— Que? — Kika o acompanhava no mistério.
— Desenterrar o Ben — disparou Tom. — Tive um sonho com o nosso amigo. Vou contar o sonho...
Eu estava olhando o gado quando ouvi ao longe a música "Hotel California". Olhei e vi uma silhueta confusa vindo junto da boiada. Ouvi o chamado do Ben, que em seguida estava do meu lado, pedindo que o tirasse da prisão e o libertasse. Ele estava muito triste e pedia para viver. Disse que tudo acontecera por não termos feito a viagem de um ano.
— Isso é loucura. Você enlouqueceu! Nem na ficção eu conseguiria escrever tamanho absurdo... se bem que... — Kika parou para pensar.
Katy olhou para ela.
— O que foi, Kika? Você vai embarcar nisso?
— Você vai? — indagou Kika, mirando os olhos em Tom.
— Por que não? Lembrem-se de que fizemos um pacto: assim que terminássemos nossos cursos entediantes, faríamos uma viagem de um ano — e não chegou a três meses. Voltamos para casa.
— Mas, se não tivéssemos voltado para casa, você, Katy, seria uma cantora sertaneja?
— Não sei, mas era um desejo meu... Acho que seria, sim.
— E você, Tom — Kika olhou em seus olhos. — O que você seria, diferente do que é hoje?
— E por que não seria o mesmo? Certamente herdaria a fazenda do meu tio, que já tinha esses planos já que não tinha herdeiros. Acho que seríamos o que somos mesmo com a viagem. Mas o negócio é que interrompemos uma missão e devemos cumpri-la.
— Desta vez sem o Ben. Ele morreu e não pode mais voltar.
— A gente não tentou trazê-lo de volta. Eu vou tirá-lo da sepultura hoje à meia-noite. Se as duas estiverem de acordo, é só vir comigo.
Katy concordou. Kika pensou e pensou, e decidiu que embarcaria naquele absurdo.
Faltando uma hora para a meia-noite, Tom foi buscá-las a bordo do Landau — o mesmo de vinte anos atrás.
— Impressionante — falou Kika, olhando para o carro. — Está novo, igual.
— Venho cuidando dele desde sempre — falou Tom com olhos nostálgicos. — O meu Landau tem a mesma cara. Já eu mudei muito, mas quem sabe quando tomarmos a estrada não voltamos a ser os mesmos, com a aparência de 23 anos.
Kika e Katy se entreolharam. Ambas entraram no carro e seguiram com Tom para o cemitério, que ficava afastado do centro da cidade. Ao chegarem em frente ao portão, um vigia — um homem negro e corpulento — saiu e ficou olhando para o carro parado. Os três saltaram.
— Ei, amizade! — gritou o vigia. — Vocês querem alguma coisa aqui?
— Queremos uma informação.
— Pode falar! — disse o homem à distância. — Se tentar uma gracinha, eu meto bala. Estou armado e tenho permissão para atirar.
— Por favor, meu rapaz, acha que nós somos bandidos ou... almas de outro mundo?
— Quem sabe não estamos voltando para casa e precisamos que abra o portão do condomínio para entrarmos — brincou Katy.
O homem olhou bem para ela e a reconheceu.
— Você me parece aquela cantora...
— Qual delas? — indagou Tom.
— A Katy W.
— Sou eu mesma!
— Não! Uma cantora famosa, a esta hora, na porta de um cemitério...
— Quer que eu cante para você? Vou cantar.
— Fiquem onde estão, porque vocês estão querendo violar túmulos para comer os cadáveres. Isso anda acontecendo por aí pelo mundo e pode estar chegando aqui também.
— Viemos buscar um amigo que foi enterrado vivo. Se o senhor colaborar e nos ajudar a tirá-lo da sepultura, o recompensaremos.
— Eu vou chamar a polícia!
Os três entraram e se aproximaram do vigia, que achou que eram almas de outro mundo. Saiu gritando.
— Vamos rápido, que ele saiu! — apressou Tom, que abriu o porta-malas do carro e apanhou uma picareta.
— Ele vai chamar a polícia.
— Vai ser rápido. Vamos!
Tom entrou no cemitério e procurou o túmulo onde Ben havia sido sepultado. Logo o encontrou. Parou diante dele, viu a foto e o nome do amigo. Pegou a picareta e bateu na laje de mármore. Abriu. O caixão estava intacto. Tom abriu a tampa e lá estava Ben, que abriu os olhos assim que viu o rosto do amigo.
— Vem! — e o puxou pela mão.
— Tom... O que aconteceu comigo?
— Depois eu explico. Temos que correr.
Ben saiu do caixão ainda atordoado e recebeu um rápido abraço de Tom. Olhou para os pés — cadê os sapatos? Quando morresse, dizia sempre que queria ser calçado com um par de sapatos de couro. Alguém havia achado por bem colocá-lo no caixão sem calçado algum. Estava só de meia. Saiu andando, quase correndo, pela rua de paralelepípedo.
Na saída do cemitério, a viatura da polícia parou em frente.
— Parados!! — gritou o policial ao saltar do veículo, empunhando a arma junto do seu parceiro.
O vigia que havia chamado a polícia ficou em estado de choque quando viu Tom saindo do cemitério com alguém que podia jurar ser um morto enterrado havia poucos dias. Não sabia ao certo, mas tinha aspecto de defunto — estava de terno e descalço, a pele parecia cera. Era sim um morto, e esses foram resgatá-lo.
Katy W. soltou a voz e começou a cantar. Os policiais olharam para a sua direção e não entenderam nada. Como uma cantora famosa estaria ali, àquela hora, na porta de um cemitério de uma pequena cidade nos confins do país? Tom e Ben correram para o carro. Kika se emocionou ao ver o amigo e o conduziu para o banco de trás. O vigia viu que os policiais estavam sendo distraídos enquanto eles resgatavam o outro e fugiam.
— Eles estão fugindo com o... o morto!
— Como é que é?? — indagou o policial.
— Aquele que estava de terno é um... um morto que eles tiraram da tumba!
Katy entrou no carro assim que viu o vigia falando com o policial e pediu para Tom botar o pé na embreagem.
— Corre que dá tempo, Tom!!
Entraram no carro, que saiu em disparada. Os policiais entraram na viatura e seguiram o Landau, que saiu cantando pneu, quase atropelando um bêbado que cruzou o caminho dos dois carros e caiu na rua com a garrafa de pinga. A viatura estava quase alcançando o Landau.
— Eles não vão desistir! — disse Katy. — Ah, meu Deus... e agora?
Kika cuidava de Ben, que estava meio deitado no banco de trás, se recompondo.
— Eu... eu estava dentro de um caixão, sepultado vivo.
— Você havia morrido, ou morreu — não sei. — disse Kika. — Mas nós te resgatamos. Nós vamos retornar àquela aventura de vinte anos atrás que foi interrompida.
— Vamos dar um outro rumo a essa história! — disse Katy.
A viatura tentou alcançar o Landau e não teve sucesso. Nisso, um trem vinha passando. O Landau conseguiu cruzar antes que a cancela baixasse. Os funcionários do local ficaram abismados ao ver aquele carro saltar sobre a cancela e desaparecer. A viatura parou com tudo. O apito do trem cargueiro ecoou pela madrugada.
— Eles sumiram no ar! — disse o policial, olhando para os vagões que passavam. — Se eu contar, ninguém vai acreditar.
O Landau ganhou a estrada e seguiu. Ben havia voltado à sua forma normal, e, em certo ponto da viagem, a música Hotel California começou a tocar. Os quatro voltaram igualzinhos como antes, no passado, no ano de 1989. Agora Katy era de Ben e Kika era de Tom.
No final, os quatro se casaram. Tom com Kika, Ben com Katy.
Kika se transformou numa grande escritora, e o casal Katy e Ben tornou-se uma famosa dupla sertaneja, fazendo sucesso pelo mundo — e regravaram, juntos, a canção Hotel California.

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