Estórinhas

                      Estórinhas 


Há muitos anos, eu e uma de minhas irmãs tínhamos o hábito de inventar histórias engraçadas. Pegávamos pessoas reais do nosso convívio e as transformávamos em personagens. Mantínhamos os mesmos nomes, algumas características e situações de vida, mas colocávamos tudo em contextos absurdos e divertidos. Eram histórias que nos faziam rir até chorar.

Uma das personagens mais famosas era uma senhora chamada Ana. Eu era amigo de um de seus filhos e frequentava bastante a casa deles. Ela era uma mãe muito rígida. Pedia que os filhos fizessem alguma tarefa, eles respondiam que já haviam feito, mas ela insistia que não. Teimava de um jeito que me chamava a atenção.

Quando eu voltava para casa, contava essas situações para minha irmã mais velha. Aos poucos, criamos uma versão fictícia dela, que passou a ser conhecida como "Naninha Teimosa". O nome era uma brincadeira com "Aninha Teimosa". Inventávamos diálogos, discussões com vizinhos, situações domésticas e todo tipo de confusão imaginária. Durante muito tempo, aquela personagem foi uma fonte inesgotável de diversão para nós.

Outra história surgiu por causa de nossa irmã caçula. Na época, nosso genitor havia voltado a estudar depois dos quarenta anos. Ele frequentava a escola do bairro e tinha um colega de classe que sempre passava em nossa casa para irem juntos às aulas.

Esse rapaz era alto, magro e andava tão rápido que parecia estar correndo o tempo todo. Havia algo de diferente em seu jeito, e nós, adolescentes como éramos, acabávamos zombando dele. Para provocar nossa irmã mais nova, dizíamos que ela iria namorar aquele rapaz. Ela ficava furiosa, e isso só nos incentivava ainda mais.

Foi então que eu e minha irmã mais velha criamos uma história inteira sobre os dois. Na nossa imaginação, eles se casavam e iam morar numa pequena chácara. Tinham muitos cachorros e tratavam os animais como se fossem uma grande criação de gado. Chamavam os cachorros de suas vaquinhas e de seu rebanho.

Inventávamos festas, visitas, conversas e acontecimentos absurdos naquele sítio imaginário. Ríamos tanto dessas histórias que chegávamos às lágrimas.

Hoje, quando me lembro dessas invenções, penso que preciso registrá-las. Na época eu já sonhava em escrever, mas não sabia como transformar aquelas ideias em texto. Agora, com os recursos que existem, posso recuperar essas lembranças, organizá-las e transformá-las em livros, memórias ilustradas ou qualquer outra forma de narrativa.

Mas a personagem mais importante de todas foi uma prima nossa chamada Cássia.

Não sei exatamente por que escolhemos a Cássia para protagonizar nossas histórias. Ela morava numa fazenda e era uma moça comum, da nossa idade. Não tinha nenhuma característica extraordinária, mas possuía uma presença marcante, um jeito próprio que acabou despertando nossa imaginação.

No início, a Cássia das histórias era atrapalhada e dizia coisas sem sentido. Porém, com o tempo, ela evoluiu. Tornou-se uma personagem inteligente, esperta e cheia de personalidade. Continuava engraçada, mas não era uma caricatura de alguém bobo. Pelo contrário: era uma protagonista forte, capaz de conduzir qualquer situação.

A verdade é que a Cássia real não tinha praticamente nada a ver com a Cássia que criamos. Nossa personagem ganhou vida própria.

Ao longo dos anos, outros personagens foram entrando em suas aventuras. Personagens vindos de outras histórias passaram a fazer parte de seu universo, e a Cássia se tornou a protagonista absoluta das nossas invenções.

Olhando para trás, percebo que talvez eu tivesse algum talento natural para o humor. Não sou exatamente o tipo de pessoa que vive contando piadas, mas sempre gostei de imaginar situações engraçadas e observar os aspectos cômicos da vida. Talvez por isso aquelas histórias tenham durado tanto tempo.

Lembro-me de um episódio especial. Já estávamos há alguns anos contando as aventuras da Cássia quando surgiu a oportunidade de visitá-la na fazenda.

Minha irmã estava noiva naquela época. Seu noivo era um rapaz trabalhador, ainda jovem, mas já bastante estabelecido para os padrões do início dos anos 1990. Ele havia comprado um carro de quatro portas, que para nós parecia um verdadeiro carrão.

Quando soubemos que iríamos à fazenda, eu e minha irmã ficamos empolgadíssimos. Afinal, iríamos reencontrar a pessoa que inspirara a nossa grande personagem.

Era como se estivéssemos indo conhecer uma artista famosa.

A sensação era semelhante à de encontrar uma estrela internacional depois de anos acompanhando suas aventuras — ainda que todas aquelas aventuras existissem apenas dentro da nossa imaginação.

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