As luzes do Candelabro

              Luzes do Candelabro

Era só ela e o candelabro naquela casa escura, à procura do passado que a atormentava.

Joyce vagava pelo quarto da mansão em que morava, em um sofisticado bairro da cidade do Porto, em Portugal.

A ideia de estar sendo perseguida por alguém a deixava em pânico, pois era a quinta vez que sentia, ao deixar a faculdade e seguir a pé até sua residência, que alguém acompanhava seus passos. Naquela noite, estava sozinha. A empregada, Isabel, estava de folga, e seus pais haviam feito uma viagem ao Brasil, terra natal deles.

Joyce não era portuguesa de nascimento. Nasceu no Brasil, na cidade de São Paulo. Foi morar em Portugal depois de seu sequestro, quando tinha dez anos. A família decidiu abandonar o país e recomeçar a vida em Portugal.

Dez anos depois, ali, espiando pelas cortinas da janela de seu quarto, sentia que alguém rondava a mansão. Quem seria aquela pessoa? Pensou em ligar para a polícia. Não. Devia ser apenas impressão sua.

Desde o episódio traumático no Brasil, achava que poderia ser seu sequestrador. As imagens dele surgiam constantemente em sua memória, deixando-a em estado de pânico.

Ouviu um som vindo de fora e espiou novamente. Um homem passou pela rua, rente ao portão, e seu coração quase saltou pela boca. Ele olhava em direção à janela de onde ela o observava. Parecia enxergá-la ali dentro.

Eram quatro olhos se encarando, mas apenas os de Joyce sabiam o que estavam vendo.

Afastou-se da janela e foi em direção à porta. A casa era grande, e isso a deixava ainda mais temerosa. Alguém poderia entrar sem que ela percebesse e esconder-se em algum lugar, mesmo com todo o sistema de segurança instalado por seu pai, um engenheiro renomado.

Sentia que alguém estava de olho nela, procurando uma forma de capturá-la novamente, como acontecera quando era criança e morava no Brasil.

A imagem do sequestrador não saía de sua cabeça.

Quando conseguiram resgatá-la, ele fora algemado e colocado no camburão da polícia. Joyce estava no colo do pai enquanto, ao fundo, o carro partia levando o criminoso, que a observava enquanto a imprensa se aglomerava ao redor.

O rosto de seu sequestrador permanecia vivo em sua memória.

Dez anos depois, talvez ele não tivesse mudado muito. Mas por que pensar em alguém que estava do outro lado do Atlântico e que provavelmente nem sabia mais dela?

Ou talvez soubesse.

Seu pai era muito conhecido no Brasil. Era claro que ele poderia ter procurado informações e descoberto que aquela menina agora era uma mulher de vinte anos.

No cativeiro, seu sequestrador alternava momentos de agressividade e aparente carinho. Ela conseguia compreender isso porque guardava cada detalhe daquela época. O homem a chamava de "menininha", como se tivesse por ela um afeto doentio e possessivo.

Além dele, havia mais duas pessoas: um homem e uma mulher.

Eram três.

Falavam muito em códigos, e pouco do que diziam fazia sentido para ela. Mas aquilo não importava mais.

Por que continuar pensando em algo que talvez fosse apenas paranoia?

O homem fora preso havia muitos anos e...

Joyce fechou os olhos.

Talvez estivesse enlouquecendo.

Sim, podia estar desenvolvendo uma mania de perseguição associada ao trauma do sequestro. Lia muitos romances policiais e sonhava em ser escritora. Inclusive, já havia escrito alguns contos do gênero.

Devia ser um delírio.

Passara o dia febril na faculdade. Seu namorado estava na Espanha e nem sequer ligara para ela. Seus pais estavam de férias no Brasil.

Deixou o quarto.

Apertou o primeiro interruptor do corredor.

A luz não acendeu.

O tempo lá fora havia mudado sem que ela percebesse. O vento soprava forte, muito forte.

Algum problema na rede elétrica desativara o fornecimento de energia, mergulhando a casa na escuridão.

Mas, em sua mente, aquilo só podia significar uma coisa.

Era ele.

Seu sequestrador.

A mãe sempre dizia que ela alimentava manias de perseguição por causa dos livros policiais que lia. Agora, na escuridão, sua imaginação transformava o vento em uma presença ameaçadora.

Era ele quem havia desligado a energia.

Pronto.

O perigo estava rondando a casa, e ela estava sozinha, sem empregados, sem os pais e sem ninguém para ajudá-la.

Seu gato, seu grande companheiro, morrera havia apenas dois dias. Também não havia mais cachorros na propriedade.

Andou desorientada, tateando as paredes.

Relâmpagos iluminavam as janelas com lampejos intensos.

Correu até a sala principal.

Sobre uma mesa repousava um belíssimo candelabro de prata.

Acendeu as velas e o segurou com a mão esquerda.

Era destra.

Começou então a caminhar pela casa e a gritar:

— Pode vir! Eu não tenho mais medo! Não tenho medo de você, seu sequestrador de criancinhas! Eu não tenho medo!

Continuou andando.

As chamas das velas tremulavam, quase se apagando.

Percorreu cada cômodo à procura daquele que acreditava persegui-la, iluminando os cantos escuros com a luz do candelabro de prata.

E seguiu pela casa.

Com o candelabro erguido.

Gritando o nome do sequestrador que permanecera escondido em seu passado remoto e que, durante tantos anos, ficara preso em seu subconsciente, apenas esperando o momento do medo para voltar à superfície.

Fim

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