2012 FOI UM ANO ÓTIMO

              2012 FOI UM ANO ÓTIMO 

O ano era 2011 e eu estava recém-desempregado. 

Tinha saído de um trabalho que era bem inferior: trabalhava em uma distribuidora, fazendo um serviço terceirizado de limpeza. De início, é claro que a gente não quer passar por isso — e eu não queria. Mas naquele momento... Aliás, três anos antes, em 2008, tive a preocupação de não arrumar outro emprego, pois era uma época difícil para mim. Lembro que quando cheguei para trabalhar nessa distribuidora, fui bem recebido, o pessoal era legal e fui elogiado. Achei que ali eu iria me fazer; que, entrando como faxineiro, teria alguma oportunidade e que o dono me arrumaria outro cargo. Mas não foi o que aconteceu. Fiquei lá de 2008 até o comecinho de janeiro de 2011.

​Antes de sair de lá, já estava meio envolvido em uma relação de trabalho com o filho do dono. Ele era um rapaz que havia tentado de tudo, até administrar os negócios do pai, mas parecia não ter tino para a coisa. Então, estava tentando outros negócios. De repente, viu um jeito de ganhar dinheiro vendendo livros. Inventou uma história pela cidade de que iria montar uma biblioteca comunitária e espalhou anúncios, placas e faixas pedindo doações. Acho que esse tipo de povo já vem orientado, seguro do que está fazendo para aplicar certos golpes e ganhar dinheiro.

​Ele começou a mentir que os livros doados seriam para essa biblioteca comunitária, voltada a pessoas carentes e interessadas em leitura. Com isso, passou a receber livros e mais livros. As pessoas ligavam na distribuidora e ele ia buscar nas casas. Também comprava: às vezes as pessoas tinham coleções que valiam milhares de reais, mas ele desdenhava — afinal, quem desdenha quer comprar, é o negócio dele. Comprava por uns 100 reais uma coletânea inteira e, depois, vendia cada livro por 30 ou 40 reais. Foi assim que ele entrou para o mercado de livros. Cadastrou-se em um site chamado Estante Virtual e montou uma loja virtual. As pessoas entravam no site — acho que ainda existe isso —, compravam, faziam o pagamento e o livro chegava em casa.

​Na época em que eu ainda estava na distribuidora, ele chegava no carro dele com caixas e mais caixas de livros e pedia para eu ajudá-lo. Como eu estava lá fazendo o meu serviço e o pai dele permitia, eu largava o que estava fazendo. Isso gerava um certo descontentamento nas minhas colegas de trabalho, pois as senhoras da limpeza não iam fazer o meu serviço; se eu largava a minha função, o prejudicado era o setor, e não o filho do dono. Mas ele queria que eu o ajudasse, então eu não tinha escolha; obedientemente, eu ia. Sabendo que eu gostava de ler, que eu escrevia e que queria ser escritor, ele tirou proveito disso e passou a me pegar para ajudá-lo a catalogar.

​Aos sábados, eu saía às 11 horas da distribuidora e ele pedia para eu ir até uma lojinha física que o pai dele havia cedido. O pai dele tinha vários prédios e lojas de aluguel na cidade e cedeu esse espaço em uma rua determinada para ele montar a tal biblioteca. Ele me pedia para ir, me deixava lá sozinho e ia embora. Às vezes eu não tinha comido nada, ficava morrendo de fome, organizando aqueles livros naquela solidão, naquela tristeza. Acho que ele ia para o rancho com a namorada, e eu ficava ali. Comecei a levar o meu notebook da época — que era muito lento, com uma internet tão devagar que eu mal conseguia acessar algo. Ficava ali talvez para não voltar para a casa onde eu morava na época, que era um lugar deprimente. Porém, o sebo conseguia ser pior, porque era triste, solitário e eu não tinha companhia nenhuma.

​Ali, um homem de 32 anos na época, sujeitando-se a essa humilhação. Mas tudo bem, eu estava vivendo aquele carma, uma vida que não gosto nem de lembrar. Quando dava umas oito horas da noite, ele chegava e me dava uns 15 reais, o que já não era nada naquela época. Como eu não tinha veículo, voltava para casa a pé na tristeza daquela noite de sábado, sentindo-me um sujeito ordinário, sem nenhuma valia, desmerecendo-me totalmente. Foram semanas assim. Era um sebo que funcionava como biblioteca física, mas cujos livros eram vendidos na internet.

​Depois, ele foi ampliando o negócio e contratou quatro meninos: três menores de idade e um de 18 anos que estava no Tiro de Guerra. Esses jovens começaram a trabalhar no sebo. O mais velho catalogava. Tinha outro, um menino moreno, meio negro, que era super arrogante, metido a saber tudo, um moleque ruim que queria se impor por estudar em escola particular e se achar inteligente. Os outros dois eram mais jovens, tinham aparência de meninos de classe média, mas eram pobres também e estavam ali porque precisavam de trabalho para ganhar um dinheiro.

​No começo de 2011, quando saí da distribuidora, comecei a receber o seguro-desemprego. Esse cara me ligou perguntando o que eu estava fazendo e eu expliquei a situação. Ele então me convidou: "Você não quer vir trabalhar para mim?". Fiquei indeciso. Não queria ir devido aos problemas anteriores, de ele me pagar só 15 reais e me deixar o sábado todo sozinho. Mas acabei topando. Pensei que, como estava desempregado e recebendo o seguro, lá conseguiria um dinheiro extra, já que ficaria todos os dias e ele teria que me pagar algo equivalente a um salário.

​Quando cheguei, os quatro rapazes já estavam lá. Eu, um homem de 32 anos de bicicleta, no meio de jovens cujo mais velho tinha 18 anos. Aquilo me causava um desconforto total. Passei a ser humilhado ali dentro. Eles me xingavam, diziam que eu não tinha nada, que estava ali por ser pobre e eu tinha que engolir aquilo. Só que o meu espírito jovem da época — e até hoje sou meio assim — queria se integrar a eles. Eu queria conversar de igual para igual, fazer parte do grupo. Mas eles não davam abertura, até pela enorme diferença de idade; eu tinha idade para ser pai dos dois mais jovens. Além disso, eu fazia um trabalho inferior ao deles: enquanto eles catalogavam e ganhavam para isso, o dono me pedia para limpar e organizar o espaço. Isso gerou uma humilhação profunda. Os meninos pisavam em mim e me colocavam para baixo. Quando a gente não tem nada na vida, é desrespeitado. Ninguém leva em consideração quem está abaixo; as pessoas pisam porque você passa a ser visto como um nada. Era assim que eu me sentia. Para eles, aquilo era pura diversão, pimenta nos olhos dos outros é refresco. Zoavam e pisavam em quem já estava sofrendo com as humilhações da vida.

​Tinha dias que eu chorava e voltava para casa em uma tristeza imensa, pensando que nunca seria ninguém na vida. No primeiro mês, o dono do sebo pagou os meninos, mas não me pagou. Fiquei pensando o motivo. Provavelmente ele achou que, por eu estar recebendo o seguro-desemprego, poderia ir lá ajudar de graça. Mas eu estava trabalhando, limpando e organizando. Ele começou a me humilhar também na questão financeira.

​Uma vez, pediu para eu ir com ele até um local de reciclagem perto da biblioteca. Era um lugar feio, cheio de lixo. Descemos do carro e ele disse que eu tinha que procurar uns livros bons que ele havia colocado em uma caixa e mandado para lá sem querer. Entrei naquele lugar cheio de lixo para caçar os livros. Foi a maior humilhação estar ali dentro, procurando caixas no meio de sacos de lixo, ao lado das pessoas humildes que trabalhavam na reciclagem. Eu estava sem graça, sabendo que aquilo era uma forma de me humilhar, porque para ele eu não significava nada. Peguei os livros que encontrei e voltei para o sebo com uma sensação terrível de inferioridade, de ser um ser humano perdido e desmerecido.

​Isso foi em 2011, o pior ano da minha vida. Tem certos anos que são piores; esse foi o pior, não teve outro (a não ser 1999, que também foi horrível). Voltei para lá e continuei fazendo aquele serviço sem receber. No meio de tantos livros, acabei pegando raiva deles. Uma coisa é você amar a literatura, gostar de ler e querer comprar livros; outra é estar no meio de tanta coisa velha e pensar quanta besteira e quanta porcaria há ali. Havia enciclopédias e livros antigos que ele considerava relíquias ou raridades — primeiras edições de autores que eu tinha que tocar com cuidado para o papel não esfarelar. Eu limpava tudo aquilo. Alguns eram interessantes e, como estavam plastificados, eu abria para ler. Às vezes não queria ler nada, era apenas um tédio e uma sensação horrível de que a minha vida não era nada.

​Eu ficava ali porque a minha casa também era um lugar horrível. Meu pai não trabalhava, não queria saber de nada e ficava me medindo de baixo para cima, como sempre. A casa tinha muitos problemas e, para não ficar ali desempregado sofrendo aquela pressão, eu pegava a minha bicicleta e pedalava até o sebo, que era longe, sujeitando-me àquelas humilhações. Tinha dias que eu ia para lá naquelas manhãs cinzas e frias, olhava para o tempo e pensava: "Meu Deus, o que vai ser de mim? Como está horrível viver assim". Via as pessoas passando de carro, rapazes com quem já tinha tido contato na vida que estavam bem, progredindo, indo para algum lugar. E eu não tinha nada. Chegava o fim de semana e eu não ia a lugar nenhum, ficava em casa. Minha vida estava péssima e eu achava que nada iria adiantar.

​Mas o tempo foi passando e eu tive que tomar uma atitude para mudar aquela situação. Isso precisa partir da gente. Certo dia, no mês de junho, eu estava ouvindo rádio e passou uma propaganda dizendo que uma determinada empresa iria contratar para um serviço temporário — no caso, a safra, que é onde trabalho hoje. Os interessados deveriam mandar o currículo para uma agência de empregos. Fiquei com aquilo na cabeça. Eu já havia tentado entrar nessa empresa anos antes; tinha sido selecionado, mas ligaram na minha casa quando eu não estava e perdi a oportunidade, pois na época era muito concorrido. Com o passar dos anos, a empresa reduziu os critérios de contratação e foi aí que consegui.

​Fui até a agência em uma manhã fria de junho e deixei o meu currículo. A atendente foi muito simpática, o que já me deixou feliz. Depois, chamaram-me para fazer uma provinha na agência e, em seguida, encaminharam-me para a entrevista na fábrica. Lembro que eu estava voltando da entrevista subindo a rua — que é o mesmo trajeto que faço hoje para o trabalho, só que no sentido oposto — e vi um outdoor. Naquela época estavam surgindo os primeiros tablets e iPads. O outdoor trazia a apresentadora Mônica Iozzi fazendo propaganda de uma faculdade online. Ela segurava um tablet. Olhei para aquilo e pensei: "Minha vida vai mudar. Eu vou fazer um curso, vou fazer uma faculdade e vou sair dessa vida miserável". Olhar para aquele outdoor me tranquilizou, como se dissesse que eu iria sair daquilo e entrar em tempos bons. Naquela manhã eu estava me sentindo bem, vestia uma roupa legal — uma camiseta de manga comprida com capuz, calça boa e tênis —, estava bem arrumadinho.

​Cheguei ao sebo e não comentei nada com ninguém. Fiquei aguardando ansioso com o celular na mão, preocupado se me chamariam. Até que, em uma tarde, o telefone tocou: era a moça da empresa me chamando para fazer os exames médicos admissionais. Transbordei de felicidade. Eu nunca tinha feito exames admissionais antes; tinha trabalhado em lugares que não pediam isso. Fiquei inseguro, com medo de que algo desse errado no exame de sangue ou de fezes e eles não me contratassem. No laboratório, por falta de experiência e pelo medo de perder a vaga, acabei cometendo alguns erros bobos na entrega dos materiais, mas era o temor de não ser aceito. Eu queria facilitar e agilizar tudo o quanto antes.

​Fiz os exames e fomos para a empresa passar pelo médico do trabalho — um doutor brincalhão que está lá até hoje. Na entrevista de seleção, a psicóloga do RH havia dito que gostou muito de mim, comentando que eu era muito simpático. Por ser psicóloga, ela analisa o comportamento da gente, e acho que confiou em mim. Claro que para trabalhar lá eles precisam de mão de obra, e não de seres humanos extraordinários, mas talvez ela tenha visto algo em mim. Ela me deu as guias e tudo deu certo.

​Voltei ao sebo e continuei sem falar nada. Quando os exames ficaram prontos e a contratação foi confirmada, avisei o dono de que iria sair para trabalhar na safra. Ele ficou meio assim, porque queria que eu continuasse lá como empregado deles. Despedi-me dos meninos, embora não tenha sido uma grande despedida, pois fui tão humilhado e magoado ali que só queria me livrar daquele lugar horrível. Lembro que o menino loiro, com quem eu tinha um pouco mais de contato, olhou para mim com uma cara meio triste — afinal, ele também tinha me sacaneado e me humilhado. Ele me chamou pelo nome, Eduardo, despediu-se de mim e fez um gesto meio tristonho. O dono do sebo apenas me ligou desejando boa sorte e nunca mais falou comigo. E, claro, não me pagou pelo tempo que trabalhei lá.

​Comecei na empresa no turno da madrugada. Era uma nova vida, trabalhando com pessoas de todas as partes da cidade. As coisas começaram a melhorar. Eu disse que 2011 tinha sido péssimo, mas não foi totalmente ruim; foi péssimo no começo, mas de julho em diante melhorou muito. Eu estava em um ambiente novo, com medo de tudo, mas trabalhando e contando a minha história. Eu nunca tinha trabalhado em fábrica. Naquela época, a empresa contratava muita gente (hoje em dia reduziu bastante, cerca de 70% em relação ao que era). No primeiro dia da safra, como os tomates ainda não tinham chegado, fomos enviados para uma área de descarte para organizar um monte de tambores. Pensei: "Nossa, é isso que vou fazer aqui?". Mas era trabalho, eu iria ganhar o meu salário e sair daquela vida horrível. Foi uma época boa.

​Quando a safra terminou, o líder (que na época chamávamos de encarregado) perguntou se eu tinha interesse em uma vaga de efetivação. Eu disse que sim, pois tinha trabalhado todos os dias, emendando domingos e fazendo muitas horas extras — a ponto de perder a noção de quais dias da semana eram. No fim, a vaga não deu certo para mim porque havia um rapaz que fazia faculdade e precisava muito do emprego, e o líder acabou preferindo ele.

​Antes mesmo de sair de lá, outra empresa — uma fábrica de móveis hospitalares — já havia me chamado. Fui para lá, mas também foi uma experiência horrível e triste. A fábrica ficava bem afastada da cidade e o pessoal era estranho e sem educação. Fiquei lá por cinco meses. A vantagem é que eu estava ganhando o mesmo salário da safra e consegui juntar dinheiro e comprar as minhas coisas. Lembro que comprei o meu primeiro iPad em janeiro de 2012. Quando saí de lá, tinha uma reserva que me permitia ficar em casa por uns dois meses. Pedi as contas após um desentendimento com um sujeito lá: fui jantar em casa, não voltei e, no dia seguinte, fui ao RH pedir a demissão. Vi-me livre de outro lugar horrível.

​Logo em seguida, encontrei um conhecido do meu bairro que me avisou que a safra da empresa de tomates iria começar novamente. Ele se ofereceu para levar o meu currículo ao RH, já que eu tinha trabalhado lá e as portas estavam abertas. Eu achava que ficaria dois meses em casa cuidando das minhas coisas — estava até fazendo um jardim em casa —, mas o RH me chamou imediatamente. Fiz a entrevista e voltei a trabalhar lá.

​O ano de 2012 acabou sendo o melhor ano da minha vida. Voltei para a empresa já com a promessa de ser efetivado. Conheci pessoas maravilhosas. Foi a época em que entrei para as redes sociais e criei o meu Facebook. Lembro que conheci um rapaz na safra que era muito fã da Clarice Lispector; nós conversávamos muito sobre literatura e livros. Naquele mesmo ano, tirei a minha carteira de habilitação e a rua da minha casa foi totalmente asfaltada. Eu estava feliz. Foi o ano em que dei a volta por cima. Muitas coisas difíceis aconteceram depois, mas ali fui tomando consciência das coisas, aprendendo a ter uma vida financeira organizada e a me cuidar. O processo foi demorado, mas fui aprendendo a planejar uma vida digna.

​Tudo foi melhorando em 2012. Eu me sentia bem, parecia que o ano inteirinho tinha um clima outonal. Para mim, o outono é a melhor estação: não faz nem frio e nem calor, as coisas fluem e a gente se sente fluindo junto. Sentia isso quando pedi as contas na fábrica de móveis para cuidar do meu jardim e quando fui chamado de volta para a safra. Fui ao banco abrir a minha conta corrente, comprei um smartphone, comprei roupas novas e um notebook novo. Estava gastando bastante — talvez devesse ter poupado mais —, mas estava adquirindo coisas que me faziam bem naquele momento. Eu estava ativo nas redes sociais, escrevia contos e crônicas e publicava no Facebook, conhecendo pessoas novas e viajando no tempo.

​Houve também uma paixão muito aguda por aquele rapaz da safra que gostava de literatura. Foi ele quem se aproximou de mim. Ele me emprestou um livro de um autor chamado John Fante — do título, 1933 Foi Um Ano Ruim, que contava a história de um garoto que tem o sonho de ser jogador de baseboll. 

Eu estava escrevendo muitos contos na época e publiquei um que traduzia um pouco do que eu sentia por ele. Nos últimos dias da safra, fui até o setor onde ele estava na fábrica, subimos em uma plataforma e conversamos. Parecia que eu iria viver um grande amor naquele momento; era o que faltava para fechar aquele ano. No final, a safra acabou, ele não foi efetivado e saiu, mas eu fui efetivado e continuei.

​Com o meu trabalho, entrei em um consórcio, paguei mais da metade do valor e fui contemplado. Comprei a minha moto, uma Bros 150, que estava saindo muito na época e todo mundo queria. Lembro que a concessionária me ligou para buscar a moto. Eu já tinha feito as aulas na autoescola e estava com a habilitação, mas, na hora de sair de lá com a moto nova, acabei caindo e batizando o veículo bem na frente da concessionária. Levei um tombo. Tinha que ser assim, né? Se não fosse desse jeito, não seria eu.

​Mas foi isso. Essa é a história que eu queria contar. Eu tinha a intenção de relatar apenas um detalhe, mas acabei me lembrando de tudo e chegando até aqui. Foi isso...

É isso!


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