O Menino do Facebook

O Menino do Facebook

Era uma brincadeira em homenagem ao Dia das Crianças.

As pessoas mudaram suas fotos de perfil no Facebook e passaram a usar imagens da infância. Alguns colocaram fotos de quando tinham sete, oito, dez anos. Outros foram ainda mais longe e usaram fotos de quando eram bebês.

Tudo parecia divertido.

Você entrava na página de um amigo e encontrava aquela foto antiga, acompanhada de comentários nostálgicos, risadas e lembranças. Outros preferiram trocar suas fotos por personagens de desenhos animados ou heróis que marcaram suas infâncias.

O dia 12 chegou.

Cada um comemorou à sua maneira. Alguns viajaram, outros foram para festas, beberam demais, brigaram, bateram o carro, fizeram loucuras. Enquanto isso, muita gente ainda mantinha as fotos de criança nos perfis.

Naquela noite, uma jovem entrou no Facebook antes de dormir.

Havia recebido uma solicitação de amizade.

Curiosa, abriu o perfil.

Era a foto de um menino moreno muito bonito, sorrindo para a câmera. A imagem parecia antiga, desgastada pelo tempo. O perfil quase não tinha informações, apenas o ano de nascimento: 1922.

— Estranho… — murmurou.

Entrou na página. Não havia postagens, fotos ou amigos. Apenas aquela fotografia antiga.

Ela aceitou a solicitação.

Logo depois, recebeu uma mensagem.

“Obrigado por me aceitar. Preciso de um favor.”

A moça estranhou.

Um favor? De um desconhecido?

Ignorou a mensagem e continuou conversando com seus amigos, que ainda mantinham as fotos infantis nos perfis.

Pouco depois, o tal homem mandou outra mensagem.

Ela perdeu a paciência.

Pensou que devia ser algum velho estranho querendo atenção. Então o excluiu do Facebook.

— Pronto, vovô. Agora pare de me mandar mensagens idiotas.

Voltou para a página inicial.

Mas algo gelou seu corpo.

A foto do menino ainda aparecia em sua timeline.

Mesmo depois de excluí-lo.

Naquele instante, o celular tocou.

Era uma amiga.

— Aconteceu uma coisa horrível comigo!

— O quê?

— Eu virei criança!

A moça riu nervosamente.

— Para de brincadeira.

— Não é brincadeira! Meu corpo mudou! Estou igual à foto do meu perfil!

Tremendo, a amiga ligou a câmera.

E lá estava ela.

Uma criança de nove anos.

Assustada, chorando diante da webcam.

Depois daquela ligação, outras começaram a chegar.

Todos os amigos que ainda mantinham fotos infantis haviam se transformado em crianças reais.

A jovem ficou desesperada.

Tentou ajudá-los de todas as formas. Mandou trocarem as fotos de perfil, mudarem configurações, desligarem o computador.

Nada funcionava.

Foi então que se lembrou do menino que havia excluído.

Um arrepio percorreu sua espinha.

Ela voltou a procurar o perfil.

Dessa vez, encontrou algo diferente.

A página estava cheia de textos, fotos antigas e mensagens sobre infância, abandono e solidão.

Descendo a barra de rolagem, encontrou uma reportagem.

Uma fábrica de fogos de artifício havia explodido décadas atrás.

Uma criança desaparecera naquele acidente.

O nome da criança era o mesmo do menino do perfil.

Ela começou a chorar.

A foto da matéria era exatamente a do menino.

Então surgiu uma nova mensagem:

“Se você me ajudar a sair daquele lugar, seus amigos voltarão ao normal.”

A moça ficou imóvel diante da tela.

“Eles nunca me tiraram de lá”, escreveu o menino. “Esconderam meu corpo para não pagar indenização à minha família.”

Ele contou que fora jogado em um poço abandonado dentro da fábrica. Desde então, sua mãe o esperava havia mais de setenta anos.

A jovem não conseguiu ignorá-lo novamente.

Reuniu os sete amigos transformados em crianças e juntos partiram até o local da antiga tragédia.

Hoje, ali existia uma enorme indústria alimentícia.

Tudo havia mudado.

Tudo… menos uma pequena casa humilde no meio das mansões modernas.

Na varanda daquela casa, uma senhora centenária esperava pelo filho desaparecido.

Os sete amigos conseguiram entrar escondidos na fábrica.

Seguiram até o ponto indicado pelo menino.

Ali, perto de uma antiga torre, surgiu a figura dele.

Pequeno.

Coberto de terra.

Triste.

As crianças choraram emocionadas. Pegaram em suas mãos e o conduziram para fora.

A moça o esperava do lado de fora, também em lágrimas.

O menino correu até a casa humilde.

A velha senhora o reconheceu imediatamente.

Abriu os braços e chorou como se o tempo jamais tivesse passado.

Ele correu para abraçá-la.

Naquele instante, o menino se transformou em um velho homem.

E a mãe morreu feliz, segurando o filho nos braços.

Os sete amigos voltaram à forma adulta.

Dias depois, a moça denunciou publicamente o caso da antiga fábrica.

As autoridades investigaram o terreno e encontraram restos mortais humanos exatamente onde o menino havia indicado.

O caso veio à tona.

A família dos antigos donos da fábrica foi obrigada a pagar uma enorme indenização.

Antes de desaparecer definitivamente, o menino apareceu mais uma vez no Facebook.

Seu último pedido foi simples:

“Doe o dinheiro para um orfanato.”

Ela atendeu ao pedido.

No Dia das Crianças do ano seguinte, ela e os sete amigos entregaram o cheque ao orfanato diante das câmeras de televisão.

Ao longe, viram o menino ao lado da mãe.

Agora ela parecia jovem outra vez.

Ele sorria como uma criança feliz.

Os dois acenaram.

E desapareceram juntos.

Mais tarde, já em casa, os amigos conversavam no Facebook sobre tudo o que havia acontecido.

— Ele fez aquilo para chamar nossa atenção — digitou a moça.

— Menino esperto — respondeu um dos amigos. — Transformou a gente em criança como chantagem!

Outro comentou:

— Mas valeu a pena.

Uma amiga escreveu:

— Eu gostei de voltar a ser criança por algumas horas… ainda mais para ajudar outra criança.

A moça sorriu diante da tela.

Depois digitou:

— Nunca mais vou ignorar uma criança pedindo ajuda.

E, pela primeira vez em muitos anos, o Facebook pareceu servir para algo realmente importante.

Fim

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