Indago do dia a dia
Eu perguntei para um colega de trabalho enquanto ele estava executando o seu trabalho ali. Ele estava com o celular, a tela no modo escuro. Estava ele e mais um outro rapaz, um menino mais jovem. Num tom de brincadeira, eu falei: "Por que todo homem hétero tem o modo do celular escuro?" E eles meio que riram. Eu falei: "Todo cara hétero tem isso. Eles usam o celular no modo escuro". E eu completei: "Eu já não, eu gosto do claro". Aí ele falou assim: "Ah, por causa das vistas, porque senão força muito". Eu respondi: "Ah, meu, eu não gosto de olhar coisa escura assim, ficar olhando o celular tudo escuro. Eu não gosto". E todos eles falam a mesma coisa, que é por causa da claridade e que o modo escuro não vai prejudicar tanto as vistas. Mas isso foi apenas um comentário, uma pergunta, sabe? Eu gosto de fazer esse tipo de provocação, de fazer perguntas aleatórias.
E tudo começou porque esse rapaz é um colega de trabalho e... Ele e a esposa trabalham ali na empresa, e eles vão ser pais. E há um tempo atrás, eu falei que achava que ia ser uma menina, porque eles tinham cara de um casal que vai ter uma filha, que o primeiro filho seria menina. E tem um outro casal lá também que vai ser pai, e eu falei que eles tinham cara de que teriam um filho homem. Falei para a moça lá, uma colega: "Ó, o seu filho vai ser uma menina, enquanto o do outro casal vai ser um menino". Eu errei. Talvez esse meu erro tenha sido para que eles acertassem, porque na verdade eles queriam o que eu achava que não seria. O casal para o qual eu falei que seria menino queria uma menina. E o casal para o qual eu falei que seria menina queria um menino. Então, o meu erro foi o acerto deles. Eu quero pensar que foi isso.
Aí hoje, aliás, ontem, no caso, né? Eu conversei com esse rapaz que eu brinquei sobre o modo escuro do celular dele. Eu peguei e perguntei para ele: "E o nome do bebê?". Eu até tinha dado os parabéns a ele no dia anterior, quando eu soube que ele ia ter um filho homem, né? Aí quando foi hoje de novo, eu perguntei do nome do bebê. Aí ele brincou e falou assim: "Vai ser Luiz Inácio Lula da Silva". Aí eu respondi: "Que tal Jair Messias Bolsonaro?". E a gente começou meio que a conversar, né? Porque eu gosto de instigar esses tipos de coisas.
E eu gosto de pensar, hoje em dia, que eu sou o dono da situação, porque eu vejo as pessoas ficarem assim... umas dentro das outras, conversando, umas esperando a outra para entrar num lugar, combinando coisas, tendo aquele diálogo, tendo aquela coisa de ficarem grudadas umas nas outras. E eu não tenho isso comigo. Ninguém gruda em mim, e eu também não grudo em ninguém, então acho que é bom assim, porque uma coisa que me faria sentir preso é saber que tem pessoas que iam grudar em mim. Apesar de que tem alguns, não vou dizer que nunca teve. Já tiveram muitos, e hoje em dia eu acho que tem menos, talvez porque a gente vai chegando a uma certa idade e a gente não é tão interessante quanto era.
E, na verdade, eu nunca fui aquele cara que quisesse ser interessante. Houve uma época em que eu até pensava que, talvez, eu fosse uma pessoa interessante, que as pessoas gostassem de falar comigo, que elas gostassem de estar perto de mim, que eu fosse alguma salvação em momentos difíceis, mas eu não tinha nada a oferecer a elas, sabe? Eu acho que tem aquela frase que diz "é dando que se recebe". Eu nunca dei nada para ninguém, como que eu vou receber? E, hoje em dia, por mais que eu pense em me doar para alguém, eu falo: "Não, eu não quero problemas para o meu lado, eu não quero caçar amizade ou insistir numa relação de amizade com pessoas e depois isso dar ruim", sabe? Porque dá ruim, sim.
Hoje em dia, procurar pessoas para ser feliz... a gente não precisa mais disso. Eu não preciso. Eu preciso só do meu apartamento, que eu amo morar no meu apartamento; eu preciso das minhas coisas, eu preciso da minha smart TV, eu preciso do meu celular, eu preciso do meu mundo, das coisas que eu construí, e isso para mim já é tudo. Então, eu não tenho essa necessidade de ter amizade com os outros.
É que teve uma época lá atrás, no começo da minha vida, talvez eu ache que naquela época era difícil também a gente ter as coisas, né? Que eu procurava as pessoas, eu queria ter amigos, eu queria me agarrar em alguém. Isso era quando eu era jovem, sabe? E mesmo assim, eu não me esforçava para isso. Hoje em dia eu penso nisso e falo assim: "Nossa, naquela época eu queria ter tantas amizades, mas ao mesmo tempo eu queria o quê? Que eles viessem até mim, não que eu tivesse que investir nisso". Então, são coisas que a gente tem que parar para pensar: se você quer alguém próximo de você, você tem que saber investir nisso. É um investimento, não é? Isso vai do seu querer.
E, na verdade, eu não queria isso. Eu queria apenas conversar com alguém, ou, em momentos difíceis, eu ia à casa de alguém que eu gostava de ir. Quer dizer, era uma carência, não é? A gente fica carente das coisas.
Tem aquela época difícil da vida em que você vai na casa de alguém e, às vezes, você chega lá e tem gente na casa da pessoa, e quem está lá não vai gostar de ver alguém chegando, principalmente se essa pessoa for estranha, conhecida só de um. Muitos nessa vida já passaram por situações assim, de você estar na sua casa, tranquilo, vivendo sua vida, e daqui a pouco aparece um estranho do nada, chegando porque alguém da casa tem amizade com essa pessoa e levou para lá. Eu também não gosto disso. Já aconteceu comigo várias vezes de eu estar em casa, tranquilo, vivendo a minha paz ali, com os meus pais, porque todo mundo era da casa, não é? E de repente aparece uma pessoa estranha que a gente nunca viu e se infiltra ali dentro de casa. A gente não gosta, não gostava, e até hoje eu sou meio assim. E eu já fiz muito isso, de ir na casa de alguém e chegar lá e ver o constrangimento, a reação de algumas pessoas que demonstravam não gostar, sabe?
Então a gente tem que... no caso, eu estava falando uma coisa agora, mas tem tudo a ver: que eu gosto de ficar na minha, sabe? Eu não gosto de ficar procurando os outros para isso e aquilo. Ainda tem pessoas que sabem se agarrar a outras, né? O casal mesmo que eu falei, os dois casais lá do trabalho que estão grávidos, não é? Eles estão muito enturmados. Eu vejo, às vezes eu estou indo embora e vejo que eles ficam lá, um esperando o outro; na hora de ir embora eles vão juntos. Eles estão muito entrosados, porque são dois casais... eram três, acho que são três. Uma outra moça também estava grávida lá, mas perdeu o bebê. Elas ficaram grávidas no mesmo tempo, ao mesmo tempo.
E eles são todos ligados. Eu falei com uma das moças lá também, a que ficou grávida e perdeu o bebê. Então eles são unidos ali, os três casais. A gente vê isso, não sei se é por causa da idade, que eles ainda são muito jovens, sabe? Mas eles ficam lá, esperando para ir embora, conversando. E são jovens. O pessoal fala muito de celular, mas a gente ainda vê muita gente que gosta de conversar sem ficar no celular. Sabe? Tem muito disso, né?
Mas a vida é isso. Eu gosto de conversar e eu escrevo. Eu acho que tudo o que eu faço na vida... é porque eu não sou aquele cara que fala e fica só observando. Eu não fico observando, eu tenho que perguntar para saber. Observar o quê? Quando você observa, você está sabendo de alguma coisa. O ideal é você perguntar, saber pela pessoa. Não ficar aí, "eu só estou observando" ou esperar que alguém chegue em você para ficar contando as coisas. Se você não tiver uma ligação com essa pessoa, não perguntar e não fizer com que ela fale, você não vai conseguir extrair coisas dela.
Igual pessoas... a gente encontra seres humanos de tudo quanto é jeito. E eu estou trabalhando com um rapaz que, no primeiro dia que eu conversei com ele, ele já perguntou para mim se eu tinha carro. "Só tem moto?", eu falei que não. Aí, como ele viu que eu tinha moto, perguntou se eu não levaria ele até a cidade de Marília, que é aqui perto de Araçatuba. Porque ele disse que ia na casa da namorada dele, não sei o quê, e se eu podia levar ele até lá. Aí eu falei para ele que não dava, porque eu não tinha como, que uma que eu não ia levar, né? Porque eu não saio da cidade, eu não pego rodovia, eu não sei fazer isso. E ele disse que são duas horas de viagem, não sei o quê, e perguntou por que eu não via um outro meio. O cara nem me conhece e já vem falando isso. Eu, hein... um moleque novo, 20 anos.
Aí, num determinado momento, eu perguntei para ele quanto custava a passagem de ônibus para ir até a cidade. Aí ele falou que são 80 reais. E antes disso ele tinha falado para mim que poderia pagar até 200 reais para eu levar ele até a cidade. Eu falei assim: "Ué, se for assim, vai de ônibus, né? Você economiza, você paga 80 reais na passagem, você vai e volta. E até mais fácil, você vai dentro do ônibus, com ar-condicionado, né, com todo o conforto. E você pode mexer no celular, tudo". Aí eu expliquei para ele que no ano passado eu fui comprar uma máquina de escrever numa cidade aqui próxima, Lins, e eu podia ter ido de moto, mas como eu não pego rodovia, eu peguei e fui de ônibus, tudo tranquilo. Aí falei isso para ele, e ele meio que concordou.
Eu não sei se ele é daquele tipo de pessoa — parece, né? — que quer, de uma certa forma, passar a perna em alguém, ou não sei o quê, ou ver até onde vai dar. Tipo, se eu fizesse o que ele pediu, eu poderia entrar numa enrascada ali. Já reparei que ele é um sujeito meio, né, que não passa confiança, sabe? Vive com aquele ar de sorridente dele e tem uma mania de ficar cutucando um outro colega lá que trabalha com a gente o tempo todo, fazendo gracinha. É uma coisa que constrange até a gente que está ali. E ontem mesmo eu quase me estressei, porque teve um outro cara que também meio que se estressou. Eu acho que não aguentou ver tanta brincadeira sem graça desse menino, que fica o tempo todo com gracinha com o outro cara. Parece que até gosta, sabe? Quem vê isso já começa a pensar que está tendo um clima entre ele e o outro. E ele quer fazer brincadeira boba, sem graça. Ah, tem uma moça que trabalha com a gente também que fica na dela. Ela fica sem graça também vendo aquilo. E não é legal isso, é uma falta de respeito, né?
E ele já veio com aquele jeito dele, não querendo ajudar muito. Já fiquei sabendo que ele foi ficar em tal lugar, não deu certo, mandaram para outro. É um tipo de funcionário, moleque novo, né? Sem nenhuma responsabilidade. Não vou dizer que são todos, porque tem rapazes jovens que são responsáveis e trabalham direito. Mas também tem uns tipinhos que só querem fazer o que lhes cabe. Tem aqueles folgados que sabem que estão folgando. E parece que está tudo bem ali, porque eles estão folgando o tempo todo. Agora, tem aqueles outros que estão fazendo a parte deles, e é só a parte deles mesmo, nem eles querem fazer mais do que aquilo. E se eles perceberem que você pode estar querendo jogar alguma coisa para o lado deles, a gente já percebe a fúria no olhar deles.
E já ouvi muitos caras falando: "Ah, eu não vou trabalhar mais para não sei quem, porque eu acho que o fulano não está trabalhando suficientemente, né? Só eu tô trabalhando". É claro que tem aqueles que não estão trabalhando mesmo, que a gente vê que ficam andando. E tem aqueles que ficam andando e, quando veem você — que trabalha o tempo todo e faz um monte de coisa — andar um pouquinho e relaxar um pouquinho, já começam a encher o saco, já começam a jogar indireta.
Semana passada mesmo teve um caso desse. Eu estava lá fazendo o meu trabalho e tive que ir ao banheiro atender minhas necessidades fisiológicas. Só porque eu demorei, quando eu voltei, um dos colegas veio com brincadeira, sendo que eles não têm moral nenhuma para fazer brincadeira. Perguntar porque eu demorei, não sei o quê... uma pergunta besta. Isso não se pergunta aos outros. Não tem que ficar fazendo perguntas idiotas.
Ontem mesmo eu também estava conversando com outro colega sobre trabalho, sobre isso, sobre aquilo. A gente tocou no assunto de colegas folgados e tudo. Aí eu lembrei e falei para ele assim: "Ah, tem uma pessoa que trabalha aqui também que quase quis me queimar aqui dentro". Aí esse colega respondeu assim: "E queima, viu?". Aí eu olhei para ele e falei assim: "Claro que não, queima só se você for mau-caráter. Se você é um mau-caráter e não faz nada, e o líder está vendo, vai queimar. Agora, se você não é, como que vai queimar? Como que alguém pode queimar você se você está fazendo o seu serviço certinho?". Eu falei para ele assim: "O líder me conhece já há 12 anos. Ele me conhece, sabe de mim. Não tem como chegar alguém e falar alguma merda lá porque está insatisfeito com alguma coisa, ou porque não vai com a nossa cara e quer ficar fazendo fofoca. Quero ver quem é que tem o poder de queimar a gente, sabendo que a gente faz por onde. Tem como? Não tem". A não ser que a pessoa seja muito ruim ou os líderes não vão com a sua cara mesmo, mas eu não tenho problema nenhum com os líderes. Eu estou fazendo o meu trabalho.
E todo mundo, em algum momento, vai fazer alguma coisa que pode ser que não passe uma boa impressão para o outro. Numa hora que eu for ao banheiro e demorar, alguém vai pensar que eu estou fazendo alguma coisa errada, mas eu estou fazendo o meu trabalho. A gente não vai agradar todo mundo, e eu nem quero agradar todo mundo. Eu quero fazer a minha parte e ter a consciência do que eu estou fazendo. E às vezes você faz além disso, porque você tem que fazer a sua parte e ainda fazer o serviço dos outros, né? Ainda ter que aturar gente folgada, gente que não vai se estressar com você para nada. Por quê? Porque eles já estão folgando mesmo. E quando a gente começa a se estressar, eles ficam quietos, porque eles entendem isso: que o seu estresse é uma reação, é você reclamando daquela injustiça.
29/05/2026
Madrugada


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