O Guarda-Chuva Escarlate

              O Guarda-Chuva Escarlate

Ben saiu da confeitaria naquela tarde chuvosa de inverno em São Paulo. 
Frio, vento e chuva. Vestia um sobretudo marrom, daqueles usados pelos antigos detetives londrinos. Ao olhar para a noite molhada, sentiu uma estranha sensação de conforto. O cheiro da poluição misturado ao da gasolina dos veículos parecia, de alguma forma, agradável.
Aos trinta e sete anos, tudo o que desejava naquele clima era um amor.
Trazia consigo uma fatia de pudim que pretendia comer dentro do táxi, assim que ele chegasse à calçada onde aguardava. A chuva caía em pingos pesados, o vento soprava gelado e as pessoas passavam apressadas pela avenida.
Foi então que ele viu.
Um guarda-chuva escarlate avançava pela calçada na direção contrária. Sob ele havia uma figura delgada, também vestida com um sobretudo. O som dos saltos ecoava no chão molhado em passos rápidos e nervosos.
Ben olhou para o relógio: eram seis e pouco da tarde.
O táxi demorava.
Sem entender exatamente o motivo, ficou hipnotizado pela presença daquele guarda-chuva vermelho cortando a monotonia cinzenta da cidade. Então começou a segui-lo.
A pessoa sob o guarda-chuva pareceu perceber que estava sendo acompanhada e acelerou os passos. Atravessou a avenida com pressa. Ben foi atrás, mas parou abruptamente ao perceber que o táxi que havia chamado estacionava ali perto.
Virou-se. Hesitou.
Por alguns segundos ficou dividido entre entrar no carro ou continuar seguindo aquela desconhecida envolta em vermelho.
No fim, voltou para o táxi e, antes mesmo de sentar no banco traseiro, pediu ao motorista:
— Siga aquele guarda-chuva escarlate.
O taxista apenas meneou a cabeça e arrancou com o veículo.
Pela janela, Ben viu a mulher entrar em um edifício. O carro seguiu adiante enquanto ele ainda olhava para trás, tentando entender por que aquela figura mexera tanto com ele.
Minutos depois, ao parar diante de um sinal fechado, algo aconteceu.
Ben viu o guarda-chuva escarlate voando pela calçada.
Em seguida, ouviu o som seco de um corpo caindo no chão molhado.
Seu rosto se contraiu em desespero. Seus olhos perderam o brilho. Nada podia ser feito.
Infelizmente, não houve tempo para salvar a pessoa sob o guarda-chuva escarlate.
Fim
Soube viver e morrer.
Um exemplo de que estar doente não significa estar morto.
Viveu até quando Deus quis.
E ela apenas disse:
— Amém.

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