O Menino que Desenhava Maquetes e Sonhava em Ser Escritor
O Menino que Desenhava Maquetes e Sonhava em Ser Escritor
Aqui eu vou contar uma história que aconteceu em 1993.
Eu era um garoto de 15 anos, sonhador, claro, adolescente. Tinha essa idade, mas com uma mentalidade de um menino de 11 anos ou menos, sei lá, que sonhava muito. Aos 14 anos, eu comecei a escrever as minhas coisas, sonhando que um dia eu seria um escritor, que iria trabalhar na televisão, que iria escrever novelas e que eu seria o cara.
Certa vez, eu fui na casa de uma conhecida, uma mulher já da idade da minha mãe, quase. Os filhos dela estudavam na mesma classe que eu, e soube por uma delas, a menina, que a mãe também escrevia. Eu cheguei nessa casa e vi uma realidade muito humilde, bem simples mesmo, um povo pobre. O marido dela trabalhava com reciclagem; naquela época, a gente falava ferro velho. Num terreno ao lado, ele tinha um monte de coisas acumuladas: garrafas, papelões, jornais, ferro e cobres que as pessoas descascavam para vender por quilo. Esse homem sobrevivia disso. Ele não era alguém que trabalhava de CLT, não queria saber, eu não sei qual era a dele, mas a vida dele era essa. Enquanto isso, a mulher era uma dona de casa que ficava em casa — acho que ela devia fazer faxina ou limpar alguma casa ali por perto para ganhar uns trocados —, e o hobby dela era escrever.
Eu lembro que cheguei na casa dela, uma casa muito pobre, e, quando começamos a conversar sobre livros, ela pegou uma caixa média de papelão. Tinha um monte de cadernos dentro: cadernos pequenos, de brochura, cadernos grandes e aqueles cadernos de arame, espiral que fala. Eu fui olhando aquilo e fiquei admirado, vendo aquela mulher como se aquele ali fosse o meu mundo. Pensei: "Nossa, eu vou me inserir nesse mundo e é assim que começa". Anos depois, quando conheci a história da escritora Carolina Maria de Jesus, eu meio que associei essa mulher a ela. Ambas negras, vivendo na simplicidade.
Ela foi tirando aqueles cadernos das histórias que escrevia, mas, quando eu abri para ler, não entendia nada. Era uma letra ilegível. Acho que ela não tinha muito estudo e escrevia do jeito dela. Eu fui sincero e falei para ela: "Não estou entendendo a sua letra". Perguntei como ela escrevia, de que forma criava, e ela me explicou que lia, assistia à TV e se inspirava nisso. Às vezes, quando as pessoas levavam jornais e revistas velhas para vender como reciclagem, ou quando o marido encontrava em outros lugares, ela pegava revistas antigas, como a Manchete, e lia tudo. Alguém sempre dava para ele. Ela tirava dali as inspirações para criar.
Ela também lia muito aqueles livrinhos de banca de revista, que o pessoal falava que era literatura "água com açúcar", de entretenimento. Anos depois eu fui saber que muitos escritores brasileiros, até anônimos, copiavam livros estrangeiros, faziam uma adaptação e colocavam nas bancas usando pseudônimos estrangeiros para vender mais. Sacanagem, mas era o Brasil daquela época. Até na música tinha esse negócio de cantores brasileiros usarem nomes americanos para vender. Havia todo esse tipo de mercado. Então, essa mulher pegava aquelas revistinhas, tipo Júlia e Sabrina, que as mulheres liam muito — acho que até hoje existe isso —, e se inspirava nessas histórias para escrever os romances dela. Só que eu nunca cheguei a ler nenhum deles, porque eu não entendia a letra.
Tudo bem, eu saí, fui embora. Lembro que na ocasião levei alguma coisa que eu tinha escrito em um caderno para mostrar para ela. Eu também não sabia escrever, não sabia estruturar um romance, não tinha noção de como fazia. Depois disso, encontrei a filha dela na escola. A menina estava meio chateada com alguma coisa, porque eles viviam uma situação muito difícil em casa, com brigas e problemas financeiros naquela pobreza toda; as crianças não eram felizes, eram meio revoltadas. Uma vez, eu estava conversando com ela na sala de aula sobre os meus escritos, e a filha dela olhou para mim, brava, e jogou bem na minha cara: "A minha mãe falou que você não sabe escrever". Falou do nada, de graça, uma ofensa cheia de revolta.
Eu fiquei chateado com aquilo e chorei naquele momento. Engoli seco, fiquei quieto pensando e concluí: "É verdade, eu estou começando e ainda tenho muitos anos pela frente". Eu tinha muito que aprender e a vida estava apenas começando para mim. Apesar de ter 14 anos, eu tinha muito para entender sobre o mundo. O tempo foi passando e eu continuei escrevendo as minhas coisas, me inspirando nas novelas mexicanas que passavam no SBT. Acho que eu me inspirava mais nelas porque tinham uma dinâmica forte. Não sei se era porque essas novelas eram meio editadas e viravam ação o tempo todo, cheias de cortes rápidos. O Silvio Santos devia pedir para cortar as partes menos interessantes, então as novelas tinham um impacto maior. Eu queria fazer tipo um trailer de uma novela chamada Ambição, que passava na época e tinha uma vilã medonha que usava um tapa-olho, a Catarina Creel. Aquele tipo de história, aquele suspense, tudo aquilo era um prato cheio para a gente que escrevia. Eu ficava empolgado com aquilo.
Eu também comecei a ler os livrinhos que pegava da minha irmã, e ela pegava emprestado de uma vizinha. Eram aqueles romances Júlia e Sabrina. Uma vez, peguei um emprestado com a vizinha mesmo e copiei uma cena do livro. Peguei e dei para a própria vizinha ler. Ela leu e me desmascarou: "Isso aqui você copiou do livro, porque você não sabe escrever assim". Ela sabia que eu não teria capacidade de escrever aquela cena, aquela passagem, daquele jeito.
Mesmo assim, eu continuei. Comecei a escrever em folhas de papel almaço que eu comprava no mercadinho perto de casa. Escrevia à mão mesmo, a lápis, para poder apagar se errasse. Mas eu não sabia escrever direito, fazia tudo malfeito e não tinha uma caligrafia boa. Eu estava aprendendo. Apesar dos 14 anos, eu era tipo um TDAH sem diagnóstico na época, não conseguia aprender nada na escola, mas queria ser escritor. Mal sabia o português, não sabia mesmo, mas estava ali inventando as minhas coisas, achando que seria o escritor que estava na minha cabeça. Eu escrevia uns contos, desenhava umas capas malfeitas e pintava para ilustrar a história. Mandava para a vizinha ler, e ela lia por consideração, por pena de mim mesmo. Lembro que uma vez a filha dela, que era uma criança pequena, olhou o desenho e falou que a boca da mulher estava torta. Pensando hoje, eu devia ter guardado tudo aquilo. Se eu tivesse guardado, hoje teria um tesouro de todos aqueles erros para poder consertar. Mas hoje em dia vou relembrando e contando essas passagens da minha vida, e isso é legal.
Eu escrevia, dava para a vizinha ler, ela dizia que estava legal e se divertia. Acho que ela achava engraçado, era um entretenimento. Talvez isso seja equivalente ao que a gente faz hoje nas redes sociais, perdendo tempo no TikTok olhando vídeos caseiros. Nós já estávamos produzindo de forma artesanal, nas nossas brincadeiras e hobbies, o tipo de entretenimento que hoje está na internet. Não existia celular, mas existia essa vontade de criar.
Depois, eu coloquei na cabeça que queria fazer maquetes. Eu via aquelas casas cenográficas na televisão e ficava encantado. Uma vez, assisti a uma novela e fiquei fascinado por um casarão antigo. Decidi fazer um usando caixinhas de fósforo. Tinha uma senhora que morava abaixo da rua da minha casa, bem no fundão. Ela tinha uma horta e uma casinha humilde, mas era um lugar tão acolhedor e gostoso que a gente amava ir lá. Essa senhora se chamava Dona Lola, uma italiana, eu acho. Ela era branca, de olhos azuis, tinha o cabelo meio frisado, uma galegona alta. O pessoal a chamava de Lola. Ela era brava, mas ao mesmo tempo era simpática. Eu e minha irmã gostávamos de ir lá para fazer companhia. Ela tinha os animais dela, os cachorros e os gatos ficavam todos dentro de casa, os gatos em cima da cama. Ela tinha brinquedos e bonecas antigas. Quando a gente chegava, ela estava fazendo comida e subia aquele cheiro gostoso; às vezes ela nos dava comida. Acho que ela ficava satisfeita porque aquelas crianças gostavam de estar ali, ela nunca nos expulsou.
Uma vez, foi um menino conhecido meu lá comigo. Quando ele chegou no quintal da Dona Lola — que tinha um monte de plantas, frutas, pé de jabuticaba e goiaba —, ele ficou tão maravilhado que falou: "Ah, eu queria morar aqui!". E ele era um menino todo arrumadinho, metidinho, que morava numa casa bonita. Mas ali, na casa da Dona Lola, ele se sentiu tão confortável que quis morar lá. São histórias daquela época.
Voltando às maquetes, a Dona Lola juntava um monte de caixinhas de fósforo para mim. Ela fumava muito aquele cigarro de mineirão, que vinha com o fumo para a gente abrir o papel e enrolar. Por causa disso, ela comprava muito fósforo. Quando tinha bastante caixinha vazia, ela falava: "Ó, menino! Tem um monte de caixinha de fósforo em casa, já tem uma sacolinha. Vai lá buscar". Eu ia, pegava aquele monte de caixinhas, chegava em casa, comprava cola Tenaz e ficava montando o meu casarão. Fiz um sobrado, um casarão de andar. Usei palitos de sorvete que eu achava na rua ou de picolés que a gente comprava para fazer o portãozinho e a sacada. Ficou muito bonitinho. Ficou meio torto, porque eu não sabia medir, não tinha essa coisa de usar medidor, mas eu fiz. Até a minha irmã gostou. Eu expunha a casa ali e a gente ficava olhando aquele casarão antigo. Isso foi na virada de 1992 para 1993.
Aquele ano de 1992 passou, veio 1993, e eu comecei a trabalhar como office boy na fábrica da Coca-Cola. No final do ano de 1993, teve uma exposição na escola em comemoração ao aniversário da cidade, que é dia 2 de dezembro. A escola promoveu o evento para que todos os alunos fizessem um trabalho relacionado à cidade: sua história, estrutura, prédios e empresas. Eu peguei o meu casarão de fósforo e fiz também uma igrejinha, usando pedaços de papelão que recortei em plaquinhas, fiz a frente, os lados e coloquei uma cruzinha em cima, imitando aquelas igrejas antigas. Levei o meu trabalho e deixei exposto lá, embora não tivesse uma ligação direta com a história real da cidade.
Fiquei vendo o trabalho dos outros alunos e vi muita coisa bonita feita com isopor, o pessoal caprichou mesmo. Era um bairro de classe baixa, mas a escola tinha alunos muito inteligentes e capacitados. Por isso a gente nunca pode subestimar o pessoal pobre. Conheço muitas pessoas que estudaram lá comigo que hoje estão muito bem de situação, mudaram de bairro e têm um padrão de vida excelente.
Como a exposição era em um sábado e eu precisava trabalhar, deixei a maquete lá e falei para a minha irmã: "Vou deixar aqui e você me representa". E ela ficou. Uma professora se aproximou, olhou para o casarão e comentou com ela: "Ah, mas a nossa cidade não tinha esse tipo de arquitetura na época". O casarão era inspirado em uma cenografia de novela que parecia do século 18, realmente não combinava com a cidade, mas tudo bem. Minha irmã continuou lá e eu fui trabalhar.
Quando eu voltei, ela me deu uma notícia: "Sabe o jornal A Comarca? O pessoal do jornal esteve aqui tirando fotos e tiraram mais fotos do seu casarão do que dos outros trabalhos. Tiraram foto minha perto do casarão também". Eu já fiquei animado com aquilo. Na segunda-feira à noite, quando cheguei para estudar, olhei no mural da escola e vi que a diretora ou alguém da secretaria tinha recortado a matéria do jornal e colado lá. O destaque visual da matéria sobre o evento da escola eram o meu casarão de caixas de fósforo e a minha igrejinha de papelão.
Quando vi aquilo, quase pulei de felicidade. Não conseguia acreditar que o meu trabalho tinha sido escolhido para ilustrar a matéria sobre o aniversário da cidade. Aquilo foi gratificante demais, foi tudo para mim. Era meu, eu que tinha feito com as minhas mãos, e colocaram ali porque gostaram e acharam apresentável. No dia seguinte, fui correndo à banca, comprei o jornal e cheguei no trabalho mostrando para todo mundo: "Olha só o meu trabalho, saiu no jornal!". Eu estava feliz demais, e o pessoal me dava os parabéns. Quando a gente vê algo assim acontecer com os outros, acha normal, mas quando é um feito nosso, o reconhecimento dá uma felicidade gigante.
Eu guardei o jornal inteiro em casa. Infelizmente, eu não recortei apenas a matéria para plastificar e proteger; guardei o jornal todo e não sei o que a minha mãe fez com ele. Acho que um dia foram pintar a casa, usaram o jornal e eu não vi. Quando saí procurando, nunca mais encontrei.
A maquete ainda serviu para outra exposição depois, em um evento de outra escola. Também teve destaque, não saiu no jornal, mas foi muito bem aceita. Até que um dia, o meu genitor — sobre quem fiz comentários recentemente, que está doente, diabético, com as pernas travadas e com problemas lá em casa —, demonstrando a maldade dele, pegou a minha maquete e a destruiu. Ele jogou em um terreno baldio, tacou cimento em cima e acabou com ela. Era um feito meu, destruído por pura maldade. Ele sempre me subestimou, ria e debochava dos meus sonhos do passado. Escrevi alguns textos ontem lembrando dessas coisas ruins que ele fez comigo, justamente agora que ele está doente.
A recordação física que eu tinha, que era a foto do jornal, eu perdi. O jornal A Comarca faliu e não existe mais na cidade. Uma vez eu fui à biblioteca municipal tentar procurar nos arquivos de dezembro de 1993, mas não encontrei. Eu sou meio atrapalhado para pesquisar essas coisas, então posso não ter procurado direito. Quero voltar lá para procurar de novo a edição do dia 2 de dezembro de 1993 ou dos dias seguintes.
Eu lembrei desse trabalho e dessas passagens da vida, dessas coisas que nos trazem tanta gratificação. São histórias. O que eu for lembrando, vou contando e guardando para a posteridade. É isso.


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