Memórias do Bairro Recôndito

​           Memórias do Bairro Recôndito

Mais uma história, um passado de que, de repente, me lembrei. 

Já faz alguns dias que sinto a necessidade de contar sobre esse tempo, mais especificamente em 1989. 

Nós já estávamos morando em um bairro afastado, uma região que não era totalmente rural, mas bem distante do centro da cidade. De repente, surgiu ali a figura de uma mulher, já na casa dos seus 40 anos. Ela era uma espécie de revolucionária do povo, uma petista de esquerda convicta. Naquela época, já defendia o governo Lula e lutava pelas causas sociais. Ela participava de uma ONG sediada na Bélgica, na Europa, e atuava como uma representante deles aqui no Brasil — embora eu nunca tenha perguntado diretamente a essa senhora sobre os detalhes dessa estrutura. Ela infelizmente faleceu há dois anos.

​Naquele tempo, nós a víamos circulando por todos os lados, visitando casas e ajudando pessoas carentes a bordo de uma mobilete. Ela própria não tinha uma situação financeira abastada; era uma mulher pobre, que levava uma vida simples e normal, mas que se dedicava inteiramente a amparar o povo. Talvez ela buscasse se realizar por meio daquele trabalho. Ela tentou entrar para a política institucional, chegou a se candidatar, mas não venceu. Uma pena, porque os moradores do nosso bairro poderiam ter apostado nela; aquela população teria força suficiente para elegê-la vereadora, mas isso não aconteceu. Acabou sendo conhecida apenas como a "prefeita do bairro".

​Apesar disso, ela idealizou muitos projetos. Mantinha um centro comunitário onde acolhia mulheres carentes, ensinando-as a fazer artesanato, e corria atrás de tudo o que a comunidade precisava. Como nós éramos adolescentes, frequentávamos a associação comunitária constantemente. Todos os jovens das redondezas iam para lá; aquele espaço era como se fosse a nossa segunda casa. Não saíamos de lá. Era o Centro Comunitário da Rosa Bacanelli. Esse era o nome dela: Rosa Bacanelli.

​Vivemos aquela vida humilde e simples. Lembro-me de uma época em que uma perua de uma igreja — ou de uma instituição semelhante — trazia uma sopa comunitária para distribuir no bairro. Mesmo nós, que não passávamos por aquela privação extrema e tínhamos o que comer em casa, íamos buscar a sopa porque gostávamos muito dela. Minha mãe pedia, e nós levávamos uma panela ou um caldeirão para buscar. Comíamos em casa; era aquela sopa saborosa, parecida com a que serviam nas escolas.

​Nós vivíamos naquele mundo sem prestar atenção em divisões ou classes sociais. Sabíamos, claro, que os moradores do bairro de cima tinham uma condição melhor. Víamos que as casas deles eram boas, as ruas eram asfaltadas, os jovens já estavam se formando e os pais tinham bons empregos. Enquanto isso, no nosso setor, éramos todos pessoas muito humildes, sem acesso a boas ocupações. Olhando para trás hoje, eu classifico aquela realidade — sem exageros, mas como uma analogia válida — de forma semelhante ao conceito de Quarto de Despejo, do livro de Carolina Maria de Jesus. Era como se vivêssemos em um lugar onde as pessoas careciam de instrução ou preparo para conseguir um emprego melhor e subir socialmente. Todos os que compartilhavam da mesma condição pareciam se amontoar ali, porque sentiam que aquele era o seu lugar legítimo. As mulheres trabalhavam como empregadas domésticas; os homens eram porteiros, faxineiros, pedreiros, ajudantes de serviços gerais ou atendentes. Eram esses os papéis reservados àqueles moradores. Os poucos que conseguiam estudar e melhorar de situação mudavam-se dali. Tínhamos uns vizinhos, por exemplo, em que a esposa era professora e o marido, embora semianalfabeto, era um homem muito esforçado. Sendo um casal jovem, conseguiram juntar dinheiro e, assim que puderam, compraram uma casa em um bairro de classe média alta próximo e se mudaram. Quem não tinha essa mesma condição permanecia no bairro, pois ali os impostos e o custo de vida eram acessíveis. O bairro ficava em uma baixada, nos fundos da cidade. Era como se estivéssemos nos escondendo de uma sociedade que julga e discrimina; ali dentro, sentíamo-nos protegidos dos olhares alheios. Quando precisávamos sair dali para ir a outros cantos da cidade, era como se estivéssemos saindo de uma toca, divididos pelo medo de que as pessoas desconfiassem da nossa origem. Havia essa preocupação constante: tentávamos nos arrumar ao máximo e vestir uma roupa boa para evitar que alguém nos olhasse com desdém e nos apontasse como moradores daquele lugar.

​O Cinema, o Teatro e o Contato com o Exterior

​Voltando à associação comunitária, sob o comando da Rosa Bacanelli — que na época ainda era uma mulher jovem —, aquele espaço se tornou o nosso universo. Ela ganhou uma televisão e um videocassete e, nos finais de semana, alugava fitas de filmes que eram grandes lançamentos na época. Assistimos ali a Lua de Cristal e Super Xuxa contra o Baixo Astral, além dos filmes dos Trapalhões e daquela produção estrelada pelo Faustão e pelo Sérgio Mallandro (Inspetor Faustão e o Mallandro). Também assistíamos a produções estrangeiras, como Convenção das Bruxas — lembro-me bem da história do menino e de sua avó doente em um hotel —, além de clássicos do terror como os filmes de Freddy Krueger e Sexta-Feira 13. Ela buscava essas novidades na locadora e, nos dias de folga, todos nós nos espremíamos na sala da televisão, assistindo juntos e nos assustando com as cenas.

​Foi também por meio da associação que passamos a ter contato com pessoas vindas da Bélgica. A primeira estrangeira que conhecemos foi uma moça chamada Marie, um amor de pessoa. Ela falava francês e estava começando a arriscar as primeiras palavras em português; compreendia tudo muito rápido, pois os belgas são muito inteligentes. Depois dela, veio um casal: Paul e Claudia. Nós os chamávamos de Paulo e Cláudia. Eles já dominavam bem o nosso idioma. O Paulo era extremamente simpático e animado, agia de um jeito muito parecido com o nosso, como se fosse um brasileiro. Ele tinha uma Vespa branca e ia sempre ao centro comunitário, conversava com a gente e nos levava para passear.

​Graças a esse intercâmbio, começamos a frequentar teatros na cidade para assistir a espetáculos e, eventualmente, montamos a nossa própria peça. A Rosa Bacanelli estruturou o texto — não sei exatamente de onde ela tirou a inspiração, mas fez a adaptação. A peça se chamava Flora Encantada ou Natureza Viva, algo assim, e abordava a preservação do meio ambiente. Nós a encenamos na escola do bairro e eu participei do elenco fazendo o papel de um ipê. É curioso lembrar que cada um de nós confeccionava a própria fantasia. A minha consistia em um saco de estopa — que representava o tronco da árvore — no qual fixei algumas borboletas artificiais (nem sei se ipês atraem borboletas, inventei na hora), além de carregar algumas folhas nas mãos e usar uma máscara. Usei a máscara principalmente porque eu tinha o "riso frouxo"; dava risada por qualquer bobagem e precisava esconder o rosto para não estragar a cena. Outro colega interpretava um segundo ipê. Lembro-me também de personagens como o jacaré, a onça — que era a protagonista — e a antagonista, interpretada por uma colega que atuava muito bem. Até hoje guardo na memória o meu diálogo principal. Minha fala era:

​— Calma, Dona Onça, tenha fé. Um dia tudo isso vai terminar.

​E a Dona Onça respondia:

​— Talvez esse dia chegue, mas eu não estarei viva para ver.

​Eu tinha apenas duas falas na peça, e essa é a única de que me recordo. Nós chegamos a nos apresentar na escola do bairro, mas a produção começou a circular por outras localidades. Em uma dessas ocasiões, eu não estava em casa e acabei perdendo a apresentação, o que fez com que a Rosa Bacanelli me substituísse. Lembro-me de ter ido assistir à peça em um bairro vizinho, levando a minha fantasia na esperança de participar. No entanto, como a moça que havia assumido o papel tinha esquecido a roupa dela em casa, entregaram a minha fantasia para ela e não me permitiram atuar. Fiquei profundamente magoado na época; deu-me uma vontade imensa de chorar, mas tive que aceitar a decisão.

​Paralelamente, continuávamos indo assistir a outras peças. Lembro-me de ter ido ao teatro do bairro São João para ver a montagem de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Curiosamente, esse mesmo teatro, que passou muito tempo fechado, foi recentemente reformado e reaberto por iniciativa de um rapaz que é diretor teatral e filho de uma antiga colega de trabalho da empresa onde estou hoje. É gratificante ver aquele espaço da minha adolescência ativo novamente.

​Durante aquele período no centro comunitário, ficávamos maravilhados com a chegada dos europeus e de seus filhos. Eram crianças pequenas, loiras, de olhos azuis; uma realidade completamente diferente da nossa. Nós, brasileiros, de pele morena e traços miscigenados, ficávamos encantados com aquela estética que associávamos à riqueza. Hoje, aquelas crianças já devem estar na casa dos 30 anos. A Claudia, inclusive, engravidou enquanto estava no Brasil, mas decidiu retornar à Bélgica para dar à luz — o oposto do que um brasileiro faria na mesma situação. O menino nasceu em 1992 e recebeu o nome de Thomas. Eles ainda voltaram ao Brasil com o bebê e permaneceram conosco até o início de 1993, quando retornaram em definitivo para a Europa. Eles pertenciam a essa ONG, tinham uma excelente estrutura financeira em seu país de origem e realizavam esse trabalho voluntário de missão, que acabou por levá-los até o nosso bairro. Depois deles, vieram voluntários de outros países, como Alemanha e Holanda, para fazer intercâmbio. Para nós, conviver com eles era algo extraordinário.

​Anos mais tarde, em 1997, quando eu já estava com 19 anos, o Paulo e outro casal de belgas voltaram ao Brasil para nos rever. Eles foram até a minha casa. Como a última vez em que tínhamos nos visto havia sido em 1993, quatro anos antes, eu havia mudado muito; já era um homem. Lembro-me de o Paulo olhar para mim, surpreso, e dizer: "Nossa, como você cresceu! Você está muito bem, está bonitão". Ele me elogiou e eu fiquei um tanto tímido. Havia uma atração natural pela diferença cultural e física entre nós. Quando eu tinha aquela idade, eu era, de fato, um rapaz bonito. Não que eu seja um homem feio hoje; estou apenas mais envelhecido. Naquela época, contudo, eu era muito simples e ingênuo. Se eu tivesse tido uma orientação, se alguém tivesse me ensinado a cultivar a vaidade e a me cuidar melhor, eu poderia ter sido ainda mais atraente. Mesmo na minha simplicidade, eu chamava a atenção. As pessoas me elogiavam, chamavam-me de "gatão" e "bonitão", mas eu não dava muita importância porque não acreditava muito naquilo. Faltava-me a atitude ou a postura de quem se reconhece belo; eu era muito reservado e focado no meu desejo de ser escritor. Inclusive, nesse reencontro, o Paulo me perguntou sobre os meus projetos e ficou genuinamente feliz quando lhe contei que estava escrevendo um livro.

​A Rádio Popular, Promessas e a Realidade da Ignorância

​A Rosa Bacanelli era mesmo uma figura singular. Certa vez, por conta de um problema grave de saúde, ela fez a promessa de que, se fosse curada, andaria descalça durante um ano inteiro. E ela cumpriu. Caminhava por todos os cantos da cidade sem sapatos, enfrentando inclusive o asfalto quente. Nós a questionávamos sobre como conseguia suportar e o risco de contrair uma infecção, e ela nos explicava que carregava um par de sapatos na bolsa apenas para os momentos em que precisava entrar em locais que exigiam calçado, como as agências bancárias. Fora isso, andava sempre descalça.

​Antes desse período, ela também idealizou uma rádio comunitária no bairro. Instalou um alto-falante que transmitia para a nossa região e arredores. Lembro-me de irmos até um bairro mais distante para testar o alcance do sinal; de longe, dependendo do vento, era possível ouvir a transmissão em meio aos chiados. Chamava-se Rádio Popular e ia ao ar diariamente às 17 horas. A Rosa trazia notícias locais, oportunidades de emprego, debatia problemas sociais e tocava músicas. Eu costumava levar os meus próprios discos de vinil de casa para que fossem executados na programação. Eles contrataram uma jovem do bairro, a Valéria — nossa amiga de infância e colega de igreja —, para ser a apresentadora oficial. Ela e os irmãos frequentavam muito a associação. A Valéria dizia orgulhosa que recebia o seu salário em dólares, pois o pagamento vinha diretamente da ONG belga que financiava o projeto.

​Quando a Valéria mudou-se do bairro, um menino assumiu o microfone da rádio. Esse rapaz era extremamente comunicativo e tinha uma veia natural para a comédia. Com o tempo, ele se profissionalizou, tornou-se radialista e hoje comanda um podcast de grande alcance, sendo uma figura muito conhecida na cidade. Ele possui milhares de seguidores nas redes sociais e tem trânsito com figuras importantes de Araçatuba, incluindo o reitor da faculdade local. Chegou a participar de quadros de humor em canais de televisão aberta, como a Record. O mais notável é que, em todas as suas entrevistas e aparições públicas, ele faz questão de enaltecer o bairro de onde veio. Ele exalta aquela comunidade como uma forma de provar que ali também existem pessoas de valor e que a pobreza do lugar não define a dignidade de quem nele reside. Hoje em dia, a infraestrutura daquela região melhorou bastante, mas o estigma e o preconceito permanecem ativos, principalmente devido à sua localização geográfica periférica. Quem dispõe de melhores condições financeiras opta por não morar lá, e eu compreendo perfeitamente essa escolha.

​O Peso do Passado e o Renascimento no Presente

​Eu nasci e cresci naquele cenário, testemunhando o lento progresso do lugar e o afastamento gradual das pessoas que conheci. Hoje, não moro mais lá e não alimento o desejo de voltar. Para ser sincero, não guardo boas memórias daquele território; na verdade, passei grande parte da minha vida tentando apagar esse passado. Embora nos anos 90 e 2000 eu ainda olhasse para aquela época da associação comunitária com algum carinho, hoje o meu desejo é deletar essas lembranças. Elas não me fazem bem. Foram tempos difíceis, marcados pela escassez e pela dureza de habitar aquela casa e aquele bairro.

​Recordo-me de uma conversa que tive com a Rosa Bacanelli quando eu tinha cerca de 18 anos. Estávamos relembrando o início das atividades da associação e ela comentou, em um tom que me pareceu um tanto desdenhoso: "O povo lá era todo muito pobre, não tinham televisão em casa, não tinham acesso a nada. Nós precisávamos colocar uma TV lá para que eles pudessem assistir a filmes". Aquilo me chamou a atenção, pois, enquanto nós guardávamos aquela experiência como algo mágico e especial, para eles tratava-se apenas de uma ação de caridade voltada a "ajudar os carentes" — embora a própria Rosa fosse uma mulher de hábitos muito simples e integrasse aquela mesma realidade.

​Atualmente, essas memórias perderam o valor sentimental para mim. Só as resgato agora porque entendo que verbalizar e expor esses fatos funciona como um desabafo necessário para organizar o meu passado. Viver ali era carregar o peso do preconceito. Lembro-me do medo e da resistência que eu sentia ao entregar currículos; muitas vezes, os processos seletivos não avançavam devido ao endereço impresso no papel. Quando me perguntavam onde eu morava, a vergonha era tanta que eu chegava a ser ríspido com as pessoas para evitar responder. Eu sentia que, se revelasse a minha origem, perderia o meu valor enquanto ser humano. Eu sentia compaixão pela realidade dos meus pais, mas hoje entendo que eles permanecem lá por falta de condições financeiras para sair. A nossa antiga casa tornou-se um imóvel confortável e estruturado, mas a localização me desperta sensações ruins. No ano passado, precisei passar quase uma semana lá porque a minha cadela adoeceu e a minha motocicleta apresentou um defeito que me obrigou a deixá-la na concessionária. Todas as noites em que dormi naquela casa, acordei com um profundo mal-estar psicológico. O bairro parece sufocado em uma baixada, como se estivéssemos enterrados e esquecidos.

​A minha verdadeira felicidade está no presente, no apartamento que conquistei com o meu próprio esforço e trabalho. O meu atual bairro possui uma localização privilegiada: estamos próximos ao centro, de universidades e do hospital da Unimed. Hoje, quando me perguntam onde resido, respondo com altivez e faço questão de declarar o nome do bairro antes mesmo que terminem a pergunta, pois sei que o tratamento social é completamente diferente. Tenho a segurança de que, se um dia eu perder o meu emprego atual, a minha localização facilitará a recolocação imediata no mercado de trabalho. É a partir deste lar que pretendo construir o meu futuro. Meu plano é continuar economizando para, mais adiante, adquirir um apartamento com elevador em um dos prédios verticais da vizinhança, garantindo conforto para quando a idade avançar. O meu renascimento e as minhas memórias felizes começam aqui.

​Reflexões sobre a Ignorância Familiar e os Erros do Passado

​Olhando para a minha infância e adolescência, percebo que cresci sem orientações básicas sobre a vida, em um ambiente familiar dominado pela falta de instrução. Meu genitor era um homem rude e ignorante; minha mãe, embora uma mulher muito bondosa, também era extremamente humilde e incapaz de nos explicar as dinâmicas do mundo. Curiosamente, muitos dos nossos vizinhos, apesar de enfrentarem uma pobreza ainda maior que a nossa, demonstravam uma mentalidade mais esclarecida, sabiam se expressar e se portar melhor. A verdadeira ignorância habitava a nossa casa.

​Por falta de conhecimento prático e discernimento, cometemos muitos erros e passamos por situações dolorosas. Uma das minhas maiores tristezas foi a perda do nosso primeiro cachorro, o Matoso, em 1991. Minha tia havia ganhado três filhotes na época em que a novela Vamp estava no ar — as fêmeas se chamavam Vamp e Natasha, e o macho era o Matoso, que eu pedi para mim. Meu genitor chegou a construir uma casinha de madeira para ele, mas nós não sabíamos como cuidar adequadamente de um animal de estimação. Ele acabou saindo para a rua, envolveu-se em uma briga ou sofreu um acidente e retornou gravemente ferido. O bicho definhou e morreu aos seis meses de idade sem que pudéssemos fazer nada, pois não tínhamos dinheiro para levá-lo a um veterinário ou comprar medicamentos. Faltou-nos a capacidade de compreender como resolver aquela situação.

​Outra lembrança que me causa profundo arrependimento e dor no coração era a forma como eu maltratava os sapos que apareciam no quintal. Na minha total falta de instrução, eu acreditava que os sapos eram criaturas peçonhentas, malignas e perigosas, capazes de transmitir doenças através da urina. Movido pelo medo, eu os atacava e os matava. Peço perdão a Deus todos os dias por essa crueldade da infância e da adolescência. Eu não tinha consciência do que estava fazendo. O mesmo ocorria com as cobras; hoje sei que são animais da natureza e que o correto é recolhê-las com segurança em um saco para devolvê-las ao seu habitat, mas a ignorância nos levava a matá-las. Meu genitor, até pouco tempo atrás, mantinha o hábito cruel de jogar sal nas costas dos sapos. Quando percebi a maldade do ato — que o sal desidrata o anfíbio e destrói suas vias respiratórias —, passei a confrontá-lo. Lembro-me de correr para jogar água no animal para salvá-lo do sofrimento. Com o tempo, mudei completamente a minha postura: tornei-me amigo dos sapos, deixava que circulassem pelo quintal e colocava vasilhas com água para que pudessem se refrescar nos dias de calor. Minha cadela até brincava com um deles. No entanto, o remorso pelos animais que eliminei no passado ainda me acompanha. Penso na dor que causei a seres indefesos que tinham sua função biológica de controlar insetos na natureza. Peço sinceramente que Deus e a própria natureza me perdoem; eu era apenas um jovem sem instrução, e ninguém em minha casa se dava ao trabalho de nos ensinar o que era certo.

​A Submissão e o Silêncio da Madrugada

​Dentro do nosso lar, temas essenciais como a sexualidade jamais foram abordados. O pouco que aprendi sobre o assunto veio das palestras escolares sobre a prevenção da AIDS, uma vez que a epidemia estava no topo dos debates públicos daquela transição de década. As autoridades de saúde visitavam as escolas da periferia para tentar nos conscientizar, sabendo que a falta de informação nos bairros vulneráveis agravava a proliferação da doença. Em casa, o silêncio era absoluto.

​Felizmente, apesar de toda a limitação intelectual dos meus pais, crescemos como pessoas honestas, trabalhadoras e de bom caráter. Eles nos transmitiram valores sólidos de respeito ao próximo e boa educação. Éramos jovens de boa aparência, comunicativos e criados na igreja, o que nos dava uma postura polida. Por conta disso, as pessoas muitas vezes não nos associavam diretamente ao estereótipo negativo do bairro; nossa imagem física e nossa fala educada quebravam o preconceito imediato que as aparências mais desprivilegiadas sofriam.

​Por outro lado, a própria limitação dos meus pais gerou em nós uma postura de excessiva submissão e covardia diante do mundo. Eles nos ensinaram a sermos tão passivos que acabávamos nos diminuindo perante os outros. Quando éramos ofendidos ou humilhados, não sabíamos como argumentar ou nos defender; simplesmente nos calávamos e engolíamos o ressentimento. Eles acreditavam que a obediência cega e a submissão absoluta seriam escudos contra os perigos do mundo, mas isso apenas nos deixou vulneráveis e à mercê da vontade alheia.

​Agora, são quase 5 horas da madrugada. Escrevo este relato no conforto da minha sala de estar, enquanto aproveito o silêncio para lavar algumas roupas e organizar a minha rotina. Uma chuva fina e mansa cai lá fora, amenizando o calor e trazendo um clima agradável. Amanhã enfrentarei novamente a rotina e o caos do ambiente corporativo. É o meu trabalho, a engrenagem da vida. Entendo perfeitamente que mesmo os profissionais que atuam nos escritórios mais sofisticados do mundo passam por problemas semelhantes, lidando com prazos, estresse e colegas de convivência difícil. Esse teatro de conflitos humanos repete-se em todos os setores da sociedade. A diferença é que hoje encontro-me em um refúgio que construí com as minhas próprias mãos. Estar aqui, produzindo os meus textos, as minhas músicas e resgatando essas crônicas do passado, é o que confere um significado real à minha existência.

Comentários

Postagens mais visitadas