Vou contar uma história que parece que foi ontem. Ou talvez não tenha sido ontem. Já faz tempo. Já existe aquela sensação de distância, de tempo vivido. Engraçado como, às vezes, eu olho para trás e penso em coisas que aconteceram há trinta anos, e elas parecem mais próximas do que coisas que aconteceram há dez. Existem lembranças que soam quase surreais, como se simplesmente tivessem acontecido e pronto, sem explicação. E, ainda assim, foram bons momentos. Ou momentos importantes.
Tudo começou nessa época da chegada das redes sociais. Não exatamente no começo delas, porque eu acho que cheguei tarde nisso tudo. Às vezes penso: será que todo mundo começou junto? Com os smartphones aparecendo, a internet entrando nos celulares, lá por volta de 2010?
Eu lembro do primeiro smartphone que vi na vida. Era de um senhor, dono de uma distribuidora onde eu trabalhava. Um celular grande, diferente, e alguém comentou que aquele aparelho tinha internet. Até então, os celulares comuns não tinham nada daquilo — e, se tinham, era algo limitado, escondido, difícil de usar.
Talvez eu esteja até falando coisas erradas, porque, se alguém pesquisar a fundo, vai perceber que muita coisa já existia e eu nem sabia. Inclusive as próprias redes sociais. Eu ouvi falar do Orkut logo no começo. Perguntaram se eu tinha Orkut, se eu tinha uma página lá. Eu perguntei: “O que é isso?”. Achei que fosse “iogurte”, alguma coisa assim. Nem se falava “rede social” naquela época, pelo menos não no meio popular. Mas as pessoas já tinham.
Quando comecei a faculdade de Jornalismo, lembro da minha turma reunida em volta de um computador, olhando fotos numa página. Um rapaz da sala, que parecia ator de Malhação, abriu o perfil dele na biblioteca da faculdade e mostrou aquilo para mim. Era novidade. Era como assistir o futuro chegando.
E eu não tinha computador. Então, quando perguntavam se eu tinha Facebook ou Orkut, minha resposta era sempre: — Não tenho computador.
Acho que essa foi a resposta de muita gente naquele tempo.
Mas existiam as lan houses. Elas começaram a surgir por toda parte. Eu já tinha feito curso de informática no final dos anos 90. Mais de um ano aprendendo a mexer em computador, naquela internet discada, lenta, com páginas que demoravam uma eternidade para abrir.
No final dos anos 2000, em 2008, comprei meu primeiro celular. Até então, eu resistia. Imaginava que ter celular fosse complicado, caro, difícil de manter. Eu sempre enxergava dificuldade em tudo.
E ainda comprei errado.
A pessoa da loja nem para me avisar que o aparelho tinha uma cor considerada “feminina”. Eu achei bonito e levei. Quando cheguei em casa, percebi que todo mundo olhava para o celular como “celular de mulher”. Mas eu nem sabia que podia trocar. Na minha cabeça, comprou, acabou. Não existia voltar atrás.
Fiquei um ano com aquele celular. E toda vez que alguém via, fazia algum comentário.
Depois comprei um celular top para a época: o Motorola Ferrari, o K9. Aquele que tinha o ronco da Ferrari como toque. Nossa… aquilo, para mim, era o auge. Pesquisei tudo antes de comprar. Quando tocava, as pessoas olhavam: — Nossa, que celular é esse?
Só que fiquei pouco tempo com ele. Comprei em agosto, chegou em setembro. Em 26 de dezembro de 2009, foi furtado no trabalho.
Eu ainda estava pagando o aparelho.
E o pior não era nem o dinheiro. Eram as fotos. Os vídeos. As gravações bobas da minha casa simples daquela época. Recordações.
Eu trabalhava numa distribuidora, ganhava pouco e não sabia lidar com dinheiro. Talvez, se soubesse administrar naquela época, muita coisa teria sido diferente. Eu gastava tudo em roupa, livros, tentando parecer bonito, tentando sustentar uma imagem melhor de mim mesmo.
Eu queria ser um rapaz bonito. Queria viver uma sensação.
Estava apaixonado.
Só que eu não tinha carro, não tinha estabilidade, não tinha quase nada. Andava de bicicleta. Mas, ainda assim, acreditava naquela fantasia.
Eu me sentia um lixo muitas vezes.
Hoje, às vezes, ainda me sinto. Mas hoje eu tenho condições de melhorar, de me cuidar, de viver melhor. Naquela época, eu realmente vivia numa precariedade emocional e financeira muito grande.
E, mesmo assim, algumas pessoas me davam apoio.
Tinha um rapaz evangélico que trabalhava comigo. Um menino bom, tranquilo, nove anos mais novo do que eu. Uma vez, me ouviu reclamando da vida e disse: — Você tem um notebook, você escreve, você tem um emprego… você não é um nada.
Aquilo ficou em mim.
Hoje penso nele e me pergunto onde está. Como está. Pessoas assim são raras. Pessoas luz.
Também tinha uma mulher no trabalho. Na época, eu a via como uma senhora. Ela tinha 46 anos — e hoje eu tenho 48. Engraçado pensar nisso. Ela me incentivava muito. Levantava minha autoestima. Parecia enxergar possibilidades em mim que eu mesmo não enxergava.
E eu era rebelde.
Hoje reclamo dos jovens, mas eu também peitava os adultos. Não tinha medo. Hoje tenho até receio de pedir respeito, porque pedir respeito virou quase uma ofensa.
A primeira vez que pedi respeito para um rapaz mais novo, ele acabou comigo nas palavras. A segunda vez foi uma moça do trabalho que mandou eu ir “naquele lugar”. A terceira foi outra pessoa que ainda reclamou de mim para os líderes.
Então fico pensando: Será que essas pessoas também se sentem atacadas? Será que a insegurança delas bate de frente com a minha?
Porque todas elas, no fundo, também pareciam inseguras.
E eu também sempre fui.
Voltando ao assunto da tecnologia…
Em 2012, entrei no Facebook. O Orkut já estava morrendo. Eu tinha tentado usar antes, mas não entendia direito aquilo. Minha irmã usava. Minhas sobrinhas jogavam Fazendinha. Existia um único computador na casa delas e todo mundo dividia.
Minha primeira internet foi em 2009. Um modem da Vivo que mal funcionava onde eu morava. Eu precisava deixar o aparelho pendurado no alto para pegar sinal. Pagava mais de cem reais por mês para uma internet horrível, enquanto ganhava pouco mais de quatrocentos reais.
Mesmo assim, aquilo parecia mágico.
O YouTube começava a crescer. Eu baixava músicas no Ares, no 4shared. Ficava horas procurando canções antigas. Quando encontrava, parecia um tesouro.
E eu sonhava ouvindo música.
Sonhava com quem eu poderia me tornar.
Hoje, olhando para trás, vejo que minha vida melhorou muito. Moro no meu apartamento, pago minhas contas, tenho minhas coisas. Vivo bem dentro da minha realidade.
Claro que envelheci.
Os cabelos estão caindo. Talvez eu fique calvo. A pele mudou. O rosto mudou. Hoje sou um homem de 48 anos. Naquela época eu tinha 32 e ainda era um rapaz tentando descobrir a própria vida.
Lembro de uma vez em que eu estava sentado no sofá da casa dos meus pais, completamente perdido em pensamentos. Minha mãe olhou para mim e começou a chorar.
Até hoje acho que ela percebeu ali todo o peso da situação. Talvez tenha pensado: “O que vai ser deles?”
Talvez ela tenha sentido culpa. Talvez tenha sentido tristeza por perceber que os filhos não tinham chegado onde poderiam chegar.
Mas eu também estava tentando.
Antes dos 40, eu consegui mudar muita coisa. Comprei meu apartamento. Comprei motos à vista. Aprendi a lidar com dinheiro. Hoje vivo dentro da minha realidade e não sinto necessidade de provar nada para ninguém.
Não preciso de tênis de mil reais. Não preciso viver de aparência.
O básico me serve.
A vida me ensinou.
E foi nessa época do Facebook que conheci uma moça chamada Tami Oliver.
Ela nunca mostrava o rosto. A primeira foto de perfil dela era apenas uma boca, um beijo. Acho que ela me adicionou porque eu colocava “escritor” no perfil.
Começamos a conversar sobre escrita. Falávamos pelo Skype. Ela gostava dos meus contos, mesmo sendo textos mal escritos, cheios de erros.
Ela criou uma história chamada Corpo Fênix e me chamou para escrever junto.
Mas não deu certo.
Ela gostava de uma estética mais pesada, mais rock, metal. Eu queria algo diferente. Comecei a querer mudar a história dela, colocar sobrenomes nos personagens, interferir demais. E a ideia original era dela.
Discutimos.
Depois fizemos as pazes. Ela disse que, quando o livro ficasse pronto, me enviaria um exemplar.
Nunca enviou.
Ela morreu antes.
E aquilo ficou parado no tempo.
Naquela época conheci muitas pessoas pela internet. Escritores do Rio, do Sul, gente de todo lugar. O Facebook virou um universo inteiro para mim.
Eu postava muita coisa. Muita besteira também. Expondo minha vida simples sem perceber.
Hoje olho algumas dessas postagens e sinto vergonha.
Mas era a minha vida.
Só que eu não sinto saudade daquele tempo.
Não posso sentir.
Porque toda vez que eu mergulhava no passado, eu me sentia morto. Como se estivesse vivendo preso dentro de uma morte em vida.
Eu olhava fotos antigas e começava: “Aquelas manhãs frias…” “Aquele lugar…” “Aquele tempo…”
E vinha o medo de perder tudo. O medo de que um dia meus pais morressem, que aquela rotina acabasse, que tudo desaparecesse.
Até que, no ano passado, eu cansei disso.
Decidi parar de viver preso ao passado.
Entendi que preciso viver o agora.
O passado acabou. Não volta mais.
Eu não sou mais aquele homem de 32 anos tentando descobrir a vida. Não adianta querer vestir roupas jovens e fingir que o tempo não passou. Nem dinheiro, nem cirurgia fariam alguém voltar de verdade.
Então hoje eu tento viver o presente.
Ser real.
Pé no chão.
Sem recorrer o tempo todo às lembranças.
Porque as redes sociais mudaram, as pessoas mudaram, o Facebook mudou, o mundo mudou.
Nada daquilo volta.
E foi justamente por isso que achei engraçado quando uma pessoa me adicionou recentemente no Facebook… e me cutucou.
Sim. A função “cutucar” ainda existe.
Quando vi aquilo, pensei: “Meu Deus… isso ainda existe?”
Naquela época, cutucar alguém significava querer conversar, puxar assunto, criar expectativa.
Hoje não.
Hoje eu não quero mais perder tempo criando fantasias sobre desconhecidos. Não quero achar que uma conversa virtual vai mudar minha vida.
Não vai.
A vida é isso aqui. Agora.
O que passou, passou.
Eu sou esse homem de hoje.
Sou o hoje.
E é isso.
16/05/2026


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