Oi, hoje é 16 de maio de 2050.
Sim, talvez eu não esteja mais naquele ano de agora. Estou com 72 anos. Estou completamente mudado fisicamente, e isso, no início, foi muito assustador. Com o tempo fui me acostumando ao meu rosto envelhecido e, ao olhar as fotos do passado, de quando eu tinha 47 anos, vejo que eu era um menino. Um garoto.
Muito engraçado isso, porque naquela época eu me achava super velho, como também me achei aos 30. Com o tempo, a gente vai percebendo o quanto tudo abaixo de certa idade ainda é juventude.
Estou suspenso no ar — literalmente. Ando com dificuldade. Há dez anos realizei a compra da minha casa, da qual gosto muito. Ela é supermoderna, toda adaptável. Comprei um carro há cinco anos, e aquela moto XRE 190 já não está comigo há muito tempo, claro. Fiquei com ela até os meus 58 anos. Depois decidi vendê-la e passar a usar Uber — que agora nem se chama mais assim. Hoje dizem “car motor passageiro”.
A cidade é outra. E vazia. Não vazia de gente, mas de presença. Depois que veio essa tecnologia de viajar para o virtual, a gente anda pelas ruas e vê seres humanos vagando como zumbis, com olhares perdidos na paisagem e aquele ponto luminoso na testa, conectado a todas as ferramentas tecnológicas possíveis.
Se alguém passa mal, rapidamente o serviço de saúde aparece e a pessoa já é carregada dali. Todo o histórico médico fica no dispositivo implantado e é acionado automaticamente em casos graves.
Eu olho para tudo isso e penso em como era antes. Há 25 anos eu tirava muitas fotos da cidade. De tudo, na verdade: lugares, ruas, pessoas, detalhes esquecidos. Filmava também. E sigo até hoje com essa mania, essa potência que se tornou tirar uma foto e poder revelá-la no passado, mesclando com o futuro.
Criaram um dispositivo capaz de reconstruir imagens antigas a partir das milhões de fotografias compartilhadas ao longo das décadas. E eu lembro de ter escrito, anos atrás, sobre fotógrafos amadores e profissionais que enchiam galerias infinitas com fotos aparentemente sem importância. Fotos perdidas, lançadas ao acaso, sem que os autores soubessem que estavam ajudando a reconstruir o próprio tempo.
Eu deixei tudo na nuvem. Permiti. E o resultado foram camadas e mais camadas de memória. Hoje consigo caminhar por imagens antigas quase como quem anda fisicamente nelas. Vejo pessoas surgindo nos cantos das fotografias, reconheço rostos daquela época. Muitos já não existem mais. Outros envelheceram comigo.
Estou bem na minha condição social. Sou um senhor idoso com o mesmo ar de menino que sempre tive — e acho que sempre terei.
A morte me rondou por anos a fio, com surgimentos de enfermidades, exames, medos e sintomas. E ainda estou aqui. Firme. Até a dermatite continua comigo, como uma velha conhecida que decidiu nunca ir embora.
Consegui publicar meus escritos. Mudei completamente a forma de fazer literatura, tornando tudo muito meu, muito próximo do meu estilo. Talvez nem seja literatura no sentido clássico. Talvez seja só um homem relatando o tempo enquanto ele passa.
Isso tudo é para daqui a alguns anos. Estou adiantando possibilidades. Coisas que talvez aconteçam. Ou que poderão acontecer. Falo de 2050 como quem envia uma carta para si mesmo no futuro.
E pensando bem, quem sabe? Hoje já vemos tanta coisa que parecia impossível. Essas inteligências artificiais, os vídeos criados a partir de histórias, os rostos inventados, as memórias simuladas… Eu mesmo fiz tantos roteiros, tantas historinhas. Sempre gostei disso: contar histórias simples, meio melancólicas, às vezes engraçadas, e transformá-las em imagens. Acho que isso ainda vai me divertir muito.
Tenho humor para escrever. Tenho gosto pelos contos. Tenho essa necessidade de imaginar o amanhã como quem desenha uma cidade numa folha de caderno.
Talvez 2050 seja exatamente isso: um exagero futurístico criado por alguém de 2026 tentando entender o próprio tempo. Porque parece que tudo demorava décadas para mudar, e agora as coisas acontecem de um dia para o outro.
É a vida. É o tempo.
Vou relatando por aqui. Continuarei escrevendo. E daqui a alguns anos vou reler tudo isso, tentando descobrir se o homem que imaginou 2050 chegou perto de acertar o futuro — ou apenas escreveu, sem perceber, sobre o medo e a esperança de envelhecer.

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