O Peso da Invisibilidade




             O Peso da Invisibilidade

Hoje é domingo, 3 de maio de 2026. 
Estou aqui para mais um relato da minha vida. Quando começo, nunca sei bem como direcionar o que vou falar; embora tivesse tudo organizado na cabeça antes de iniciar, vou me perdendo ao longo das palavras, relembrando outras coisas. Mas é preciso falar. É preciso conversar consigo mesmo sobre as coisas pequenas e as grandes.
​Há momentos em que precisamos sacudir a vida, fazer as coisas acontecerem — às vezes não por nós, mas por influência de outros que nos instigam. O problema é que, quando você está fadado a conviver com pessoas de espírito pequeno, é porque talvez não tenha saído do lugar onde deveria, permanecendo na mesma posição social. E assim, você se vê obrigado a aguentar quem chega, quem nasce ontem e já se sente superior.
​É duro chegar a uma certa idade e se sujeitar à humilhação de ver alguém vinte ou trinta anos mais jovem te desrespeitar, tratando-o como inferior. E quando você exige o respeito que não está recebendo — algo que você não faz a todo momento, mas só quando não aguenta mais as humilhações —, o mundo parece se voltar contra você. Os outros dão razão a quem te tira o direito, porque, para eles, você não representa nada. Se você tivesse uma função relevante ou fosse visto como alguém "produtivo", seria colocado em um lugar de respeito. Mas, sem isso, você não tem nada. Está jogado à própria sorte, e ninguém te ouve.
​O que eu sei da vida? Sinto que não sei nada. Não tenho uma profissão de prestígio ou um posto que me valorize. Sem esse crédito, sinto que serei desmerecido e pisado a vida toda, pois não tenho voz. Posso ter voz comigo mesmo, em conversas aleatórias onde as pessoas se despem de suas funções, mas, assim que vestem a "capa da obrigação", as desigualdades afloram. Nunca tive nada que me desse prestígio ou me fizesse ser visto como alguém eficiente.
​Muitas vezes, os outros fingem me dar importância, mas, no fundo, sinto que as conversas e insinuações correm pelas minhas costas. O que sou nesta vida? Nada. Não tenho ação, não posso me impor; estou em total desvantagem. Algum tempo atrás, eu achava que viver era simplesmente isso: não se colocar como responsável pelas coisas. Eu queria apenas ser eu mesmo, sem a significância que o ser humano atribui ao outro apenas pela função que ele exerce. Achei que isso fosse um privilégio, mas a vida, vez ou outra, me tira desse conforto para me mostrar que estou sendo humilhado e que ninguém vai me ouvir.
​Se converso com o chefe, por melhor que ele seja, ele sempre me olha com aquele ar de quem quer desconversar. Ele finge dar importância, mas me enxerga como alguém que nem sabe o que está dizendo. Sinto-me um idiota diante dele porque não tenho uma "certificação de ser humano". Ele sabe que eu não a tenho, por isso nossos momentos são breves, cortados por ele, como se dissesse: "Não estou nem aí para você, você não fala coisa com coisa". No inconsciente dele, ouvir-me é perda de tempo; é apenas a conversa de um sobrevivente, de um homem que faz um serviço que qualquer um faria apenas para se manter vivo.
​Dizem que dignidade é ser orientado desde cedo a ter uma ocupação que dê dinheiro e responsabilidade. Sem isso, você não tem voz. Vejo homens que vivem de bicos, mas que guardam um histórico, uma base moral. Eles vendem pulseiras na praça em busca de paz, mas dizem: "Estou aqui, mas sou formado em tal coisa". Eles se armaram antes para serem julgados com respeito. E eu? O que eu sou neste mundo?
​Talvez as pessoas pisem nas outras sem saber quem elas são, mas as vítimas que têm uma "armadura" interna não se ferem. Elas continuam de cabeça erguida. Mas, quando você não tem amparo algum, qualquer ação realista te fere profundamente. Você sabe que, se está sendo pisado, é porque não tem como se defender da invalidação alheia. Você já foi incapacitado, visto como um "qualquer". Diante de uma falha, você é excluído. Sua falha não tem perdão, enquanto a dos outros tem.
​Sempre senti esse tipo de rejeição, desde criança. O sentimento de que eu não era alguém que as pessoas queriam por perto. Acho que carregarei isso até o fim. Como se "desvive" neste mundo? Nem sei o que sonhei nesta madrugada. Estava tão cansado, tão abatido e humilhado por dentro, que não sobrou espaço para a lembrança dos sonhos.

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