O Convés do Apagão
O Convés do Apagão: Uma Conversa na Proa da Fábrica
Por Eduardo
Bom, eu sou aquele tipo de pessoa que gosta muito de conversar, principalmente quando o objetivo é bater um papo para filosofar sobre as coisas. Para mim, isso é algo que me faz sentir vivo — e sei que muita gente partilha desse mesmo sentimento. Na última sexta-feira, lá no trabalho, quando faltavam cerca de duas horas e meia para encerrar o nosso turno, houve uma queda de energia que durou até a hora de ir embora.
Ficou um verdadeiro breu. Nós só conseguíamos nos ver por causa do uniforme: a camiseta branca e a touca que usamos, já que se trata de uma empresa do setor alimentício. Aproveitei o momento de escuridão para ir ao banheiro. Lá dentro, completamente às escuras, pensei em como faria para não errar o alvo no vaso sanitário. Acabei me guiando pelo som da água e deu tudo certo. Quando eu estava saindo, outro colega entrava, mas não consegui distinguir quem era na penumbra. Logo em seguida, ao avançar um pouco mais, alguém me chamou: "Oi, Eduardo".
Não reconheci a voz de imediato; aliás, quase a confundi com a de outro funcionário. Olhei para trás e, ao me aproximar para enxergar melhor, percebi que era um colega com quem sempre converso, as vezes, no estacionamento, na hora de ir embora, já duas vezes no sábado, quando o horário de saída é as 18:00 hs.
Ele é um rapaz fantástico, muito gente boa, do tipo com quem a conversa flui fácil,
sem que a gente perceba o tempo passar.
O mais curioso é que, sempre que há um apagão na fábrica e as máquinas param, eu me lembro imediatamente do filme Titanic. No longa, logo após o impacto com o iceberg, tudo estagna. Fica aquele silêncio quase oco, enquanto as pessoas brincam com os pedaços de gelo no convés, sem terem noção de que o casco foi perfurado e o navio vai afundar. O silêncio repentino das máquinas me traz exatamente essa mesma sensação de suspensão no tempo.
Como os banheiros ficam na parte externa por normas da empresa, paramos ali mesmo, encostados à grade de uma passarela de metal. A noite estava com aquele clima típico de outono. Olhávamos para fora e víamos as luzes das casas vizinhas todas acesas; o breu era só nosso. Ali ficamos, feito dois marinheiros no convés, observando os outros colegas se reunirem lá dentro enquanto tentávamos adivinhar quem passava pelo formato dos uniformes brancos.
É um enorme prazer conversar com ele. Embora tenha formação em Engenharia Mecânica, ele nunca exerceu a profissão e guardou o diploma na gaveta. É casado, tem quatro filhos — duas das quais já são adultas e formadas —, mas mantém um espírito tão jovem que parece ter trinta anos. Temos a mesma alma de menino. Enquanto conversávamos, um jovem de 22 anos se aproximou, mas, ao contrário de nós, ele parecia ter nascido com alma de velho. É alguém rígido, que tenta se impor a todo momento para esconder suas fragilidades, bem diferente da leveza que estávamos vivenciando.
Deixando os contrastes de lado, a nossa conversa continuou firme por quase uma hora no escuro. Falamos sobre empregos passados, sexualidade, amor e afeto. O diálogo foi tão fluido que brinquei, dizendo que parecia o nosso próprio podcast, onde nos entrevistávamos mutuamente. No meio do apagão da fábrica, aquela ligação humana iluminou a noite. Encontrar pessoas assim, tão genuínas e humanas, é um verdadeiro prato cheio de sensações positivas que nos afasta de qualquer negatividade.
14/05/2026
Noite


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