Coragem, Medo e as Engrenagens da Vida
Coragem, Medo e as Engrenagens da Vida
O que você vê nesta foto aí? Uma foto famosa, de 1932, onde operários almoçavam e repousavam sobre uma viga de aço no topo de um arranha-céu, nos Estados Unidos.
Bem, o que eu quero dizer com isso? Claro que você já a viu — todo mundo viu e vai ver. Aquilo ali é coragem instintiva. E isso cabe perfeitamente dentro do que eu preciso expor através deste texto que digito. Lendo, você vai poder refletir sobre os pontos a seguir. Eu gosto disso: falar sobre algo e gerar outros assuntos dentro do que está sendo dito.
Esta semana pensei muito. Aliás, pensar é o que eu mais faço e venho fazendo. Pensar demais me atrapalha, mas ajuda em alguns casos.
A Coragem do Homem Fraco
Sobre a coragem: o homem hétero — claro que nem todos — já nasce corajoso em tudo, até no falhar com as suas obrigações. Aqui em casa, o meu progenitor é um "corajoso". Na infância, ele nos privou de muitas coisas. Vivíamos na pobreza, na falta de tudo, porque ele não ia trabalhar; ficava em casa ou no boteco, jogando sinuca e enchendo a cara de pinga. Lembro-me muito bem disso. Depois, ele espancava a minha mãe, que transferia essa agressão para nós. Ela apanhava e descontava nos filhos do homem que lhe batia. Era a forma dela se "vingar", de um certo modo.
O meu progenitor foi um corajoso em ser o homem fraco que era. Não pensou nos filhos pequenos, que precisavam de tudo. A ignorância reinava dentro de casa. Deus nos livrou de todo o mal, apesar da dureza.
A coragem do homem... O homem não tem medo de morrer, por isso desafia todos os perigos e mata, se preciso for, em nome da honra.
Aí, dentro disso, pensando sobre coragem, matar ou morrer, veio-me ao pensamento a famosa foto dos operários num lugar altíssimo, que dá medo só de olhar, e eles lá, tranquilos. Se cair, é só enterrar — talvez pensassem assim.
O Medo da Morte e o Peso de Viver
Quando eu digo para você que gosto de viver, aí vem um estalo. Eu devo gostar de viver por ter medo da morte. Viver é cômodo, não é? Já o morrer... ninguém sabe. Até para quem já morreu, é um mistério. Se eu morrer, será que vou entender a passagem ou vou me atrapalhar todo, seguir por um outro lado, confundindo tudo e sofrendo horrores por não compreender?
Já pensei muito em suicídio, até há pouco tempo pensava. Mas eu não saberia como me suicidar. Enforcamento acho um horror. Uma vez vi um homem que se matou por enforcamento e lembro até hoje da cena: ele dependurado, com a corda no pescoço e aquela língua enorme para fora. Como a nossa língua é grande... Beber veneno acho que não acertaria a dose, iria parar no hospital e poderia ter um problema grave se sobrevivesse, e ainda seria massacrado depois, visto como um fardo. Jogar-me na frente de um caminhão seria injusto, estragaria a vida de alguém que não tem nada a ver com isso, né?
Bom, suicídio seria péssimo. Hoje, deixo que uma doença mortal me agracie. É. Estou dizendo isso porque tenho medo de morrer por não saber lidar com a vida. Viver é o medo de morrer, é querer possuir tanto para enganar a minha própria insignificância.
Penso: se eu ficar por aqui mais anos, quem vai me enterrar quando eu morrer? Não terei filhos, não terei ninguém. Eu sei. Preciso morrer antes da minha mãe. Ela me trouxe, cabe a ela me devolver para a terra.
As Máscaras e as Incertezas
Eu comecei falando sobre coragem, né? Sigamos. Eu não tenho coragem — ou tenho. Talvez a coragem de não ter coragem, mas isso não vem de mim. As pessoas fazem o que bem querem comigo, e eu sou hipersensível quando estou mexido por alguma coisa. Esta semana mesmo eu estava com ideias malucas na cabeça, e quando estou assim, pode esperar: sei que vou abrir a boca e falar só asneiras, coisas desconexas e incoerentes.
Este Eduardo, que de longe pode passar tranquilidade e até inteligência, de perto é um desequilibrado, inseguro e burro pra cacete. Eu sei disso e, por isso, hoje em dia já deixo claro quem sou. Exponho as minhas incertezas em relação a tudo, e quem vê já percebe quem eu sou sem que eu precise dizer. Já sacaram, só de ver a minha insegurança. Em meia hora, uma pessoa inteligente já sacou quem eu sou. Entende?
E você sacou isso quando a gente se conheceu. Você sacou nos outros encontros. Acertei? Pode dizer, sem receios de expor o que pensa de mim. Estou pedindo a tua opinião. Aceito todas as opiniões — expedidas por mim, claro.
Coração de Aço ou Músculo Frágil?
Coragem. É preciso ter um coração de aço para ter coragem? O meu é um músculo frágil. Ser coração demais só enfraquece a nossa capacidade de enfrentar a tudo e a todos. Eu sou só coração, e de um jeito que nem eu mesmo sei entender.
Coragem para seguir — o que vou me esforçando ao máximo para fazer —, coragem para desistir do incapaz e se conformar com a minha sina. Coragem para entender que é assim que a gente fica quando chega a um ponto da vida e vê que é isso mesmo, desde o início. E que nada, por mais sonhador que eu fosse, seria capaz de se transformar naquilo que a gente espera. E, mesmo sabendo que não virá, a gente ainda espera, com toda a coragem, que algo extraordinário aconteça no último minuto do segundo tempo.
A coragem que eu não tenho e que fui obrigado a ter, de algum modo. Coragem de enfrentar, sem saber como, aqueles que também estão munidos de coragens instintivas. A minha coragem de, de repente, fazer um pacto e abdicar dos meus desejos, do que eu tenho, em troca de um fim silencioso, sem dor física, para voltar de onde eu nunca deveria ter saído. Coragem sem ter. Coragem de desistir, sem partir para o radical. Coragem. É preciso ter coragem. Matar ou morrer, sair de cena, ensaiar um jeito justo e honesto de dar por perdido aquilo que não me cabe de modo algum.
Eu nunca tive coragem, não fui instruído a isso. Não me deram a sabedoria da defesa; ao invés disso, disseram que é preciso se curvar. Será? Deixar que os outros tenham razão sem saber do seu ponto de vista, dos seus sentimentos? Deixar que os outros ditem o que bem querem e aceitar isso como única verdade, sem que eles conheçam a sua história, por ignorarem os seus sentimentos? O que vale é o deles.
A dor do outro é refresco.
08/03/2024


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