Veneza Morreu

                      Veneza Morreu

  As televisões do mundo anunciavam a mais triste notícia: a morte de Veneza

Sim, Veneza morreu — ou melhor, submergiu de vez. Nada pôde ser feito, já que há anos a cidade vinha enfrentando o aumento do nível das águas, que subiam pouco a pouco, inundando tudo.

Veneza submergiu da noite para o dia, e nem as pontas das torres de seus monumentos em estilo gótico eram mais vistas. O mar a engolira. Aquela maravilhosa cidade agora estava no fundo das águas esverdeadas… sepultada, intacta. E, se quisessem voltar a Veneza, teriam que se equipar com escafandros. Imaginem Casanova, um escafandrista, correndo atrás de mulheres também escafandristas pelas vielas e palácios dessa cidade flutuante que submergiu de vez.

É… Veneza morreu — ou talvez tenha passado para outro lugar. Quem sabe tenha se deixado afundar pelas águas do Adriático.

Chorei quando não mais vi Veneza. Cadê a bela cidade? Suas gôndolas sinistras, charmosas e majestosas? Seus prédios históricos de tantos séculos?

Ouvi uma canção ao longe. Vi pássaros sobrevoando a Piazza San Marco. Vi apresentações de circo, peças de teatro, o baile de máscaras que tanto fascinava.

Se fosse para fazer um pedido, eu pediria que Veneza emergisse do fundo das águas do Adriático. Se isso não acontecer… ah, Veneza, por quê? Por que se deixou inundar até sumir, desistindo assim, depois de encantar o mundo por séculos e séculos? Desilusão… será?

Eu, em algumas vezes, já pensei em suicídio. E a primeira coisa que me veio à cabeça foi ingerir uma dose cavalar de veneno. Morrer… ou me deixar afundar no mar.

Penso que Veneza se cansou de tudo e se entregou, deixando-se afundar até desaparecer — tudo por causa do bicho homem. Esses mesmos que tanto demonstravam amor por ela, por seus encantos milenares, eram também os que colaboravam para sua destruição ao devastar o planeta onde ela existia.

Os mesmos homens que sorriram ao desfrutá-la, com todo seu poder e ganância, estavam destruindo-a sem nenhuma compaixão.

Veneza queria ser diferente. Não poluir, ser gentil com o meio ambiente. Mas, com o passar dos anos, aqueles que desfilavam por ela estavam matando o planeta — assassinando-o a sangue-frio, sem perceber o prejuízo causado à mãe natureza.

Veneza sofria, porque também era mãe. E padecia com os maus-tratos do homem.

Eles entravam em suas majestosas gôndolas com suas belas mulheres, abraçados, como casais românticos. Mas não havia nada de romântico na forma como tratavam o planeta Terra.

Declaravam amor a Veneza, mas esse amor era apenas desejo. Não era o amor que salva vidas, que ensina, que protege, que constrói. Não era o amor que move montanhas, que planta e colhe, que estende a paz. Não era o amor que transforma o ser humano em algo melhor.

Era um amor vazio.

E assim, deixaram que Veneza afundasse antes mesmo do mundo desmoronar.

A bela cidade flutuante não suportou tanta hipocrisia e foi, de vez, para o fundo do mar. Não a salvaram a tempo. Deixaram-na sumir.

Agora, Veneza é prisioneira das águas. Está lá, distante, invisível aos olhos daqueles que só queriam usufruí-la — e que ainda dizem amá-la, mesmo que agora precisem mergulhar para visitá-la.

Procurei Veneza — a cidade que sempre amei explorar. Sempre foi um amor velado. Tantas vezes a abracei, consumi tudo que havia nela de mais romântico. Andei em suas gôndolas de braços dados com alguém, ouvindo a doce canção de um gondoleiro.

Veneza me fez amar de formas diferentes. Amei aquela cidade e uma pessoa de carne e osso ao mesmo tempo. E, com ambos, encontrei uma felicidade plena.

Essa cidade, que um dia me fez desistir do suicídio, agora estava submersa.

Ah, Veneza… que tristeza vê-la assim. Entregue à submersão, enquanto o mundo aqui em cima arde em combustão.

Quem sabe você não tomou a decisão certa?

Como naquele poema… aquele que se joga da torre tentando alcançar a lua. Talvez você, não suportando mais a pressão, tenha seguido o que seu coração pediu.

Veneza, que de tanta riqueza se deixou afundar, agora resplandece com todo seu charme e fausto no fundo do mar — onde foi morar definitivamente.

Veneza morreu.

E o meu coração doeu.

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