O Tempo como em Nós
O Relato
Hoje eu nunca sei como começo na escrita.
Eu escrevo de um jeito e, às vezes, acho que ficou bom e sigo assim.
Mas o que eu vou falar agora é algo que eu já previa que aconteceria, para a gente ver certas coisas dentro da casa da nossa própria família: uma falta de respeito com a vida.
De repente, você se depara com uma pessoa — no caso, o meu genitor. Como eu disse, eu nunca o vi indo para o hospital, nunca ouvi falar que ele ficou internado ou que teve algum problema grave de saúde; apenas o diabetes que ele dizia que tinha, que tem.
E assim ele levou a vida dele, do jeito dele, da forma que ele acha que deve, na ignorância. Um homem de setenta e poucos anos que, quando descobriu que tinha diabetes, tinha acho que sessenta anos por aí, já próximo dos sessenta. E, durante esses anos, o homem nunca passou a se cuidar, nunca mudou os seus hábitos. A única coisa que eu o vi comer lá em casa era salada, verduras, coisas que eu pensava... Mas o estilo de vida dele, a forma de descansar e fazer alguma atividade física, eu não via. Era um jeito todo desregulado de levar a vida: dormir às 2 horas da manhã e acordar às 10 horas da manhã, ou até meio-dia, ficando na cama.
Eu, vendo tudo aquilo, pensava: "Como pode, não é?". Aquilo ali me revoltava, porque eu estava vivendo naquela casa e vendo esse homem que nunca pegou no pesado, nunca gostou de trabalhar, nunca levou a vida a sério, e ainda dizia que trabalhou tanto, contando as histórias dele, que sofreu e não sei o quê. Como ele sofreu, sendo que a gente não tinha nada dentro de casa? A gente passava por necessidades porque ele não ia trabalhar. Nós não tínhamos nada dentro de casa; muita coisa que eu não sei na vida foi por não ter tido em casa. E o pouco que ele trabalhou... porque a gente trabalha a vida toda. Tem até gente já aposentada, pessoas que continuam trabalhando. Pessoas que estão aí com 70 anos trabalhando, porque não dá para viver de salário de aposentado, esse salário mínimo com o qual muitas pessoas pobres se aposentam, ou salário de empresa, dependendo da situação financeira da pessoa.
E ele vivia naquela vida, fazendo do jeito dele, reclamando, e a gente, tudo pequeno ali, quatro filhos. Vivíamos de qualquer jeito, não tendo uma roupa boa para sair, não podendo ir aos lugares porque não tínhamos vestimenta. Eu, quando fiquei adolescente, não tinha uma roupa, não tinha nada. Eu não vivi a minha adolescência porque não fui aquele menino vaidoso, aquele mocinho que já se vestia bem e teria uma boa aparência. Eu não tive isso porque não me cuidava, eu não sabia me cuidar. Eu não tinha um pai que se preocupasse comigo, que pensasse assim: "Não, ele está se formando, vai ser um homem e precisa andar bem arrumado, vai ser um cidadão, daqui a pouco vai ter que se impor". Mas não, ele não estava nem aí para mim. Não estava nem aí, mesmo eu sendo um filho homem. Eu fiquei esquecido por ele, fiquei ignorado por ele.
A única coisa que ele queria é que eu arrumasse um emprego para pagar as contas da casa, para entrar com dinheiro e ele se eximir da responsabilidade, porque a raiva dele era essa. Ele não queria dar dinheiro nenhum dentro de casa, sendo que era da obrigação do homem, até o fim da vida dele; mesmo estando em casa, ele tem que arcar com as despesas. É do homem ter que fazer a compra da casa, pagar as contas, mas ele nunca fez isso. Quando a minha mãe começou a trabalhar mesmo, ela pagava as contas e eu ajudava a pagar, porque também comecei a trabalhar em seguida. Com 15 anos, comecei a trabalhar na Fundação Mirim aqui da cidade. E ele ficou tranquilo lá em São Paulo, onde falava que trabalhava — mas devia ficar mais parado do que trabalhando. Vivia pegando dinheiro emprestado dos sobrinhos dele. É claro que ele pegava emprestado e devia pagar um tanto que era vantagem para esses sobrinhos gananciosos. Não que eles fossem obrigados a emprestar, ninguém é obrigado a nada, mas os olhos cresciam e é claro que eles emprestavam.
Por todos os defeitos que esse meu genitor teve na vida dele, uma boa qualidade que eu posso afirmar, que eu posso defendê-lo com certeza, é que ele sempre foi um homem honesto: ele sempre pagou as contas dele fora de casa. O problema foi com a gente. Tem gente que deve para todo mundo aí na vida, mas preserva a família, gosta da família, cuida da família. Ele já foi o contrário: queria ficar bem lá fora, mas dentro de casa fazia o que queria. Ele não comprava as coisas, deixava a gente passar necessidade e, quando comprava — sendo que era da obrigação dele —, jogava na nossa cara, como se fosse obrigado a fazer algo que era o seu dever. Quer dizer, ele não se achava obrigado àquilo.
E a gente vendo aquilo dentro de casa, numa casa simples, sem coisas que deveriam ter, e vivendo daquele jeito... Eu olhava para um futuro incerto, eu nem enxergava um futuro. Eu tinha, sim, um sonho, claro. Quando comecei a querer ser um escritor, escrever livros, eu tinha o sonho de me tornar um escritor, ficar rico e viver da minha arte. Era uma ilusão que, ainda bem, chegou a mim para eu não passar por todos aqueles perrengues de uma vida de uma pessoa de classe média baixa, pobre mesmo — não por ser pobre, mas por falta de coragem do pai de família que não queria saber de trabalhar e não estava nem aí para os filhos.
Então a gente cresceu, foi ficando adulto, eu não sabia como ia virar e, certo dia, fui trabalhar de um jeito que pensei: "Vai ser assim porque eu não quero ser igual a ele". Eu pensei: "Vou ter que procurar um emprego bem pesado, bem pauleira mesmo, bem difícil, porque eu quero ser um cara de garra, quero levantar de madrugada, quero correr atrás das minhas obrigações, quero ser um homem de força. Quero ser o oposto de tudo o que ele foi, do que ele é". E então, aos 25 anos, quando eu via que a minha vida não estava caminhando... Eu estava perdido na vida, não tinha emprego, não sabia me virar dentro dessa cidade, não tinha alguém que me ajudasse ou me indicasse alguma coisa. Estava totalmente perdido, pensando que ia ficar igual a ele, um cara sem coragem. A única diferença é que eu não ia ter filhos, eu não ia casar e não ia prejudicar pessoas que saíssem de mim. Talvez essa seria a minha vantagem sobre ele. Porque ele, sem ser nada na vida, sem ter coragem, fez uma família que ele não podia ter. Não só ele, como muitos homens iguais, que agem por instinto, como bichos, e não estão nem aí pela família, pelos filhos. Os filhos ficam jogados de qualquer jeito, e eles ficam fazendo comparações depois, exaltando os filhos dos outros.
A vida toda ele fez isso: exaltava os sobrinhos dele, exaltava o filho de fulano de tal, e colocava a gente para baixo, me colocava para baixo, me insignificava, ria dos meus sonhos, debochava, defendia os outros. Eu nunca vou esquecer uma vez, a gente era criança e estávamos morando recentemente aqui na cidade, num bairro bem lá naqueles confins, naquele lugar horrível, no fundão. Estava chovendo, aquele dia triste, aquela miséria dentro de casa, aquela simplicidade. Uma sobrinha dele ia casar naquele dia, ia ter uma festa, não sei. A minha mãe pegou e trocou todos nós, talvez tenha colocado aquelas roupinhas simples, que eu não me lembro direito — a gente não tinha roupa boa, mas eu acreditava que aquelas roupas fossem boas. Não eram roupas de casamento, roupa de festa; eram roupinhas normais, casuais, que a gente andava por aí, mas estavam em bom estado e para mim estavam servindo. Eu lembro que ele chegou em casa e viu a gente. Acho que ele já era um homem adulto dos seus 40 anos e reparou que aquilo ali não estava legal, que estava feio, inadequado, e ele ia passar vergonha se levasse a minha mãe com a gente e tudo. Mas vergonha dessas coisas ele sabia reconhecer, não é? Ele chegou e falou que, se a gente fosse, ele não ia. Aí a minha mãe pegou a gente querendo ir, criança, né? Minha mãe nos destrocou, tirou a nossa roupa nova. A gente chorou, queria ir na festa, no aniversário; criança não liga para isso, a gente não entendia dessas coisas. E ele foi. Quando viu que a minha mãe tirou as nossas roupas e nos destrocou, ele pegou, tomou banho, se arrumou e foi. Sozinho. Eu nunca vou esquecer disso. Nunca.
Também teve uma outra vez em que ele estava fazendo o muro lá no fundo de casa. Eu tinha 15 anos, era um adolescente querendo um dinheirinho para comprar alguma coisa e tudo mais. Perguntei se podia ajudá-lo e se ele me pagava alguma coisa. Ele falou que não. Daqui a pouco, quando vejo, o filho do vizinho estava lá ajudando-o. Eu perguntei, e o menino falou que ele ia pagá-lo pela ajuda. Ele preferiu pagar o filho do vizinho a me pagar. Eu tinha que trabalhar de graça para ele, não é? Ele pagou o filho do vizinho. Por que não pagou o seu próprio filho, que precisava de um dinheiro?
Uma vez, nesse mesmo muro que ele estava fazendo do lado de casa — a casa do lado era desse menino que ele chamou para ajudar, que ele pagou —, o vizinho estava morando de aluguel. E aí, quando terminou o muro, ele chegou em mim e falou assim: "Você vai na casa de fulano [que era o proprietário da casa] e fala que eu fiz o muro, que ficou em tanto, que eu murei a parte dele toda e que ele tem que ajudar a pagar". Aí eu peguei e falei que não ia, né? Eu era um menino de 15 anos, como eu iria à casa de um homem falar sobre o muro que meu pai fez e que ele tinha que ajudar a pagar, porque ia valorizar a casa do cara? Eu falei que não, e ele brigou comigo. Discutia comigo, falava que eu não ia ser ninguém, não sei o quê. Ele jogava sempre essas coisas na minha cara. Nunca erguia a minha bola, nunca... Era como se ele tivesse ódio de mim. Eu não tive culpa, eu só nasci assim e sou assim.
Porque a gente é maltratado, não é? Se eu fosse uma pessoa ruim... nem isso, eu acho que os pais têm que saber cuidar dos filhos. Eu acho que se eu fosse um bandido, um marginal, uma porcaria de gente, talvez ele gostasse de mim, tivesse orgulho de mim. Mas como eu sou um cara diferente, isso para ele é uma vergonha. Só que eu nunca pratiquei nada de errado, porque, por medo dele, da minha mãe, de todo mundo em casa, eu nunca pude ser eu — o que eu sou de verdade. Então, eu fui pegando ranço dele, fui pegando raiva, fui pegando ódio, fui alimentando tantos sentimentos ruins por ele. Antigamente, quando eu ainda era adolescente, lembro que achava que ele era um homem rico, um "da hora". Eu olhava para ele e o via como um super-herói, um homem. Ele tinha uma boa aparência, sabe? Não era um homem feio. Era um homem relaxado, mas bonito quando se arrumava. Tinha épocas em que ele relaxava, até porque não tinha dinheiro e não trabalhava. E a gente vê o pai da gente como um herói, não é? Mas ele não me viu como um filho. Ele não me viu com orgulho. Eu, sim, o enxergava como um herói, mas ele não me enxergava como nada.
Depois, quando fui ficando adulto, peguei raiva dele, peguei ódio, todos os sentimentos de rancor. Às vezes eu sentia pena, falava: "Eu não devo sentir raiva, porque isso é ruim, um filho ficar com ódio do pai não pode". Mas ele fazia sentir essa raiva. Ele provocava, parecia que queria que eu ficasse com ódio dele. Acho que ele não queria ser olhado com afeto. Uma vez, lembro que ele foi para São Paulo; isso foi em 2009. Eu já era um homem feito também, não era um menino novo, tinha 31 anos na época. Lembro que ele foi para São Paulo com o pessoal, com os parentes que chegaram em casa. Quando vi que ele entrou no carro e foi, foi como se eu tivesse voltado lá na infância, aos 10 anos, vendo meu pai ir embora de novo e deixando a gente sozinho. Eu lembro disso. Lembro que fiquei triste porque ele foi embora e, por todas as ruindades dele, por todos os incômodos, ainda assim, quando ele saía, a casa ficava vazia. A casa ficava triste. Era como se a gente ficasse desprotegido da figura paterna — como se a figura paterna, apesar de tudo, nos desse proteção. E eu ainda me sentia inseguro. Aí, quando ele voltou, tentei conversar com ele, mas ele não interagia, só respondia secamente. Não falava comigo. Parecia com alguns caras que conheci na vida: você vai conversar e o cara só responde, nunca interage, nunca chega para puxar assunto, sempre respondendo de um jeito que mostra que não quer papo. E ele fez isso comigo. E eu pensando, com toda a saudade que senti... Ele chega e, em vez de falar comigo, continua do mesmo jeito. Aí eu fui deixando de lado. Tiveram muitas brigas, brigas horríveis, brigas de baixaria mesmo, de vizinho escutar. Hoje eu sinto vergonha daquilo, daquelas baixarias, mas eu era jovem também. Fazer o quê, né?
E tanta coisa desagradável aconteceu, e eu falando mal dele para todo mundo, desabafando, xingando-o lá dentro de casa. E ele deixando as coisas todas quebradas, torneiras vazando... Não arrumando aquele banheiro que está igual desde quando ele reformou pela primeira vez. Isso foi em 1999, e está assim até hoje. De 99 para hoje são quantos anos? São quase 27 anos. O banheiro naquela situação, e ele nem para pegar um dinheiro para reformar aquilo. Mas para comprar Smart TV para a sobrinha dele, ele foi lá e comprou. Para ficar pagando reforma na casa de sobrinha, foi lá e ajudou. Para ficar comprando coisas que não vai usar, ele vai lá e compra. Dando dinheiro para os outros em vez de querer ajudar a gente, só para parecer bom. Não porque ele seja bom, mas só para ostentar pose, deixando tanta necessidade dentro de casa, tanta coisa que ele podia estar fazendo usando aquele dinheiro dele. Nem sei se, agora que está doente, se ele guardou esse dinheiro, se tem uma reserva lá para comprar os remédios, não sei.
Tanta coisa difícil na vida. E eu passando por esses perrengues, vendo ele fazer coisas absurdas, subindo em altura. Ele se aposentou e tudo, mas, dentro de casa, ficava fazendo coisas que não podia estar fazendo: subindo em alturas, mexendo com cimento, concreto para fazer as coisas, às vezes não pagando ninguém para ajudar, fazendo sozinho. Subia nas alturas e eu pensando: "Esse homem é diabético, ele pode ter uma vertigem, pode cair". E ele lá, e Deus protegendo, porque a minha mãe poderia sofrer muito vendo ele numa cama se caísse dali. Era Deus que estava ali ajudando para isso não acontecer. Chovendo, e ele subindo em escada molhada, de chinelo, subindo em tábuas molhadas; poderia levar um escorregão e cair, mas não, o homem estava lá subindo naquelas alturas.
E o meu irmão mais novo, que é o queridinho dele, nunca o ajudou. Engraçado que ele sempre defendeu esse meu irmão mais novo, e esse meu irmão mais novo nunca gostou dele, falava que o odiava — odiava por maldade mesmo, porque esse meu pai nunca foi ruim com ele, sempre gostou dele, sempre o tratou bem. Ele devia ser grato a isso, devia ajudá-lo, devia fazer por ele tudo, mas nunca fez, sempre o xingou. Uma vez, quando era mais novo, esse meu irmão frequentava uma igreja e conheceu uns irmãos lá. Tinha um irmão da igreja que ele falava que era o pai dele, que queria que esse irmão fosse o pai dele, mas o pai dele de verdade, que é o nosso pai biológico, ele não queria, colocava defeito. Mas o meu pai nunca foi ruim com ele, sempre o defendeu. É como se ele tivesse alguma coisa pendente na vida, um carma, e por mais que fosse rejeitado por esse filho, tivesse que gostar dele. Esse meu irmão mais novo não é ninguém mesmo: ele trabalha, ninguém sabe para onde vai o dinheiro dele, é um cara desajeitado, debochado com a vida, não quer saber de nada. Graças a Deus não casou e nem teve filhos, porque os filhos iam sofrer. Então, um pai assim é um cara que não quer saber de nada mesmo. Enquanto isso, o meu pai sempre o defendeu, e eu ficava com raiva dentro de casa vendo aquilo, vendo os dois conversando enquanto o outro falava mal, dizia que o odiava e, daqui a pouco, já estava conversando com ele. Uma hipocrisia. Ele sabia disso e, mesmo assim, aceitava, o que me dava raiva. Eu não sou falso assim; se eu falo que não gosto de alguém, eu fico na minha, fecho a cara e não quero papo com a pessoa.
Esse meu pai, esse meu genitor, sempre foi um homem difícil. É um homem difícil, eu não sei até quando vai ser do jeito que é. Eu já estava meio assim, com essa sensação, com esse desconforto. Nesta semana mesmo, no domingo, falei com a minha mãe e ela falou que ele tinha ficado doente, que as pernas dele travaram e tudo. Ela não falou muito; estava dizendo isso porque sabe que, se falar demais, eu não vou lá mesmo. E agora a minha irmã passou um áudio para mim perguntando de tal coisa, eu respondi e perguntei se ela viria aqui no sábado. Ela falou que não dá, porque aconteceram coisas lá na casa da minha mãe, que ela não vai poder vir porque está cuidando desse meu pai, porque ele ficou ruim. Ficou muito mal mesmo. A minha mãe falou só por cima, mas disse que as pernas travaram, ele não conseguia se mexer, fez até xixi na cama. E que foi para o hospital, ficou no pronto-socorro porque não tinha vaga na Santa Casa. Ficou dois dias no pronto-socorro. A diabetes dele estava altíssima. Talvez tenha tido um começo de AVC.
Eu temo que o destino dele possa ser igual ao de um tio nosso que também era diabético, fazia um monte de coisa que não podia e, quando a diabetes veio forte mesmo, ele passou mal, foi para o hospital e morreu. Teve um AVC, não aguentou e morreu. E com esse meu pai pode acontecer a mesma coisa, com a diferença que esse meu tio ainda era mais novo, tinha o quê? Uns 60 e poucos anos. E esse meu pai já está com quase 80. Aí eu perguntei para a minha irmã se ela vinha aqui no meu apartamento no sábado com a minha mãe, e ela falou que não vai dar por causa de tudo isso que aconteceu lá.
Só que isso não me espantou muito, não me chocou, sabe? Eu tenho pena da minha mãe, porque ela é velhinha, idosa. Se acontecer alguma coisa, mesmo se ele morrer, talvez não vá acrescentar em nada, porque ele nunca ajudou em nada na nossa casa, sempre nos impactou negativamente, sempre... Ele estando lá ou não... Mas o problema é ele estar lá na minha casa e, vivendo aquela vida, não ter se preparado para nada, vivendo do jeito dele, não respeitando nada. Seja o que Deus quiser. Eu já estava prevendo isso, que uma hora ia acontecer. Eu falei para a minha mãe várias vezes, eu disse: "Olha, vocês estão aí achando que a vida é eterna, os outros estão morrendo, tudo está acontecendo, é daqui para ali. Vocês estão bem agora, estão se sentindo bem, mas é de uma hora para outra. É de uma hora para outra. Não fiquem pensando que vocês têm vida longa, que a vida de vocês é perfeita, porque não é. Todo mundo pode, de uma hora para outra, estar vivo aqui e, daqui a pouco, passar mal, ir para o hospital e já estar no fim da vida". Falei para ela várias vezes quando fui lá em casa, a gente conversava no domingo. E eu falava isso para ela.
E ele não ouvia, e eu tinha que ver ele tomando cuidado nenhum, fazendo um monte de bagunça lá no quintal de casa, fazendo construções intermináveis, coisas que a gente não devia nem ter feito. As coisas que ele fez vão ficar aí, ó. Alguém vai ter que mexer ali, alguém vai ter que terminar, porque eu não moro mais naquela casa e nem quero voltar para lá. Aquela casa é triste, aquela casa é fria, aquela casa é medonha. Eu não quero aquele lugar. Eu não quero ir para lá.
A minha vida toda eu falava: "Olha, pega esse dinheiro, faz uma reserva, invista na saúde ou em alguma coisa, faça o básico". Nunca teve aquela casa boa, mas pelo menos fizesse uma decoração, uma reforma básica, simples, confortável, como muitas pessoas fazem. Já vi tantos velhinhos por aí que você vai na casa deles e é uma casinha simples, um quintalzinho, às vezes com um gramadinho, com umas cadeiras na varanda, e eles vivem super bem ali. A casa é simples, mas eles têm condições financeiras boas porque juntaram o seu dinheiro. Eles têm o dinheiro deles, têm como gastar numa precisão. Lá em casa já foi o contrário: o velho fazendo coisas absurdas em vez de fazer as coisas necessárias. Cuidar do que é preciso, do que está fazendo falta, mas não; gastando dinheiro à toa, com coisas desnecessárias, inventando de fazer coisas sabendo que já estava com uma idade avançada. Mas não.
Lembro que até quatro ou cinco anos atrás a casa estava simples, tinha uns toldos na janela, tudo simpleszinho, mas era agradável, aquela coisinha simpática. Lembro que eu fazia caminhada no quintal. Comecei a fazer aquela caminhada no quintal porque queria ficar com o corpo bonito. Isso foi em 2021. Eu ali, correndo em volta da casa, colocando meu tênis, o headphone, e ficava uma hora. Estava frio, era numa época dessas, na época de julho. E eu ficava ali andando, fazendo a minha corrida. Parecia que estava surtindo resultado, porque algumas fotos que eu olho da época, vejo que estou com um corpo legal. Todos os dias eu corria em volta da casa. Era aquela tarde fria, sabe? Eu correndo ali em volta da casa, aquele friozinho, e eu correndo enquanto começava a escurecer. Eu tinha que correr durante uma hora, todos os dias, porque queria ficar bonito, queria ficar com um corpo bonito, sabe? E olhando as fotos daquela época, eu estava ficando bem. Realmente meu corpo estava ficando bom, eu estava com uma boa aparência. Eu já estava com 44 anos e bem.
E aí o que o velho pega e faz? Inventa de construir um outro cômodo, sem serventia nenhuma. Porque aquilo ali não teria serventia. Se tivesse dinheiro para acabar ou alguma coisa, sim, mas não tinha. Foi lá e acabou com a caminhada que eu fazia. Eu não tinha mais como correr no quintal. Como eu já tinha arrumado um emprego e estava recebendo seguro-desemprego na época, porque tinha saído de uma empresa, eu tinha todo esse tempo e disposição para fazer isso todo dia de tarde. Fiz isso durante um tempo, só que depois parei. E o velho pegou e foi mexer na estrutura da casa, fazer coisas sem necessidade. Aquela caminhada que eu fazia, eu parei. E depois ele colocou uma estrutura horrível lá no quintal, tirou umas coisas e fez uma coisa pior. Em vez de fazer uma área decente, com umas telhas bonitas, umas muretas, colocar piso no chão, não; ele fez uma bagunça, uma coisa que só iria desvalorizar o imóvel. E eu vendo aquilo, vendo aquela bagunça toda... Ele, em vez de saber estruturar a casa, estava fazendo só bagunça ali dentro. Coisas desnecessárias, coisas sem planejamento, coisas da cabeça dele.
E o dinheiro dele, um dinheiro que ele não sabe administrar, nunca soube. Ele não tem um veículo, não paga manutenção de veículo porque não tem, nunca tirou habilitação na vida, nunca teve um veículo motorizado — um carro, uma moto, nunca teve. Não paga gasolina, manutenção, não paga nada. Ele não compra roupa para ele, nada. E o dinheiro dele vai para onde? Se eu soubesse cuidar desse dinheiro dele, eu estaria super bem de situação, com um bom dinheirão. Mas cadê o dinheiro dele? Cadê o dinheiro desse homem? Com o que é gasto esse dinheiro? Vamos ver se agora que ele está doente se ele guardou esse dinheiro para pagar as contas dele, para pagar o hospital dele, para pagar os planos... Nem plano de saúde ele tem. Tem nada. Nenhum plano de saúde para ele ou para a minha mãe. Se ele tivesse amor pela minha mãe — a mulher que fez a comida dele, lavou a roupa dele, cuidou da casa dele —, ele teria chegado e falado: "Vamos fazer um plano de saúde para nós, nós dois precisamos, já estamos velhos, precisamos". Mas não.
A ruindade dele é tanta, a ignorância dele... Porque gente ignorante é ruim. Mas ele é ruim mesmo, de alma. Porque, se ele fosse bom de coração... Às vezes têm pessoas que são ignorantes, não sabem das coisas, mas têm um bom coração; fazem tudo errado, mas depois voltam atrás, reconhecem os seus erros porque se esclarecem sobre as coisas. E ele não. Ele nunca se esclareceu de nada. Nunca se esclareceu. Porque, para ele, tanto faz quanto fez.
Mas é isso, vamos ver. O que tiver que acontecer, vai acontecer. A vida é isso, né? A vida é o fim mesmo. Uma hora tudo acontece, todo mundo morre. E a gente tem que morrer mesmo, não é? O problema é esse: a gente chegar numa certa idade e ver essas pessoas descuidarem da vida, não terem amor à vida, não fazerem reserva, não comprarem remédios... E ainda deixam o fardo para as outras pessoas. Ainda bem que, se tiver que morrer, que ele morra primeiro que a minha mãe, porque ele tem ela para cuidar dele. Porque se ele ficasse depois dela, se ela morresse primeiro, ele ia ficar jogado, porque eu não ia lá ajudá-lo. Não ia mesmo, e Deus ia perdoar. Então, que ele vá primeiro mesmo. Ele tem que ir primeiro porque tem alguém para cuidar dele. E até nisso ele vai ser beneficiado pela vida. Até nisso, porque vai ter quem cuide dele. Porque se ele ficasse e morresse depois, quem ia cuidar dele? Então até nisso ele vai ter sorte se for.
Pelo que a minha irmã falou no áudio lá, não sei... O fim para ele chegou. E a gente tem que estar conformado com isso. Eu não sei se um dia vou chorar por isso, ou se vou ficar inquieto, se não vou conseguir dormir direito, eu não sei. Eu não sei. Eu só sei que a gente tem que estar preparado. Tanta gente morrendo nesta vida, pessoas perdendo pai, mãe, e tudo mais, e estão aí. Eu nunca passei por isso, vai ser a primeira vez, e estou preparado para isso. A gente vai lá, enterra e... pronto. É isso!


Comentários
Postar um comentário