O Desabafo

                         ​O Desabafo
      
​É mais um desabafo aqui.
​E isso foi na segunda-feira, sobre o dia 8 de junho agora. Eu levantei às seis horas da manhã para ir ao supermercado comprar umas coisas para comer, pois já estava faltando aqui na despensa. Eu tinha que ir contra a minha vontade, porque me dá uma preguiça e eu não gosto de sair. Antes, eu deixava tudo para a minha mãe fazer, pois saí de casa já muito velho. E eu ainda nem cheguei na metade do tempo em que estou morando sozinho; aliás, são só três anos.
​Eu ainda não aprendi a resolver as minhas coisas de forma totalmente solitária. Aliás, eu consigo administrar minha vida sim: pago as minhas contas, tenho meu trabalho, uma rotina normal, igual acontecia na casa dos meus pais. Porém, o problema é lavar a roupa, fazer comida, ir ao supermercado e fazer compras. Essas tarefas que uma mulher, mãe e dona de casa faz se tornam difíceis para nós hoje em dia, homens solteiros — um homem solteiro igual a mim. É por isso que os homens casam, eles não ficam sem uma mulher, porque deve ser mais para isso mesmo, para resolver essas coisas. Não vou dizer que todos fazem isso ou que todas conseguem. Tem mulher que está com um homem e não consegue fazer nada, não sabe cuidar de uma casa. Mas acho que, na maioria das vezes, o ser humano, seja homem ou mulher, quando sai da casa dos pais, quando fica adulto e casa, é porque as pessoas se apoiam umas nas outras em tudo, tanto na questão sentimental quanto na vida prática.
​E isso mexe comigo também. Na questão de cuidar de uma casa, saber fazer as minhas coisas, tudo bem, eu vou aprendendo e tenho que aprender, é uma obrigação. Mas o problema está também na família, algo que eu nunca vou ter. Eu sou parte de uma família, mas eu não vou constituir a minha própria. Eu não vou casar nunca, não vou ter filhos, porque eu não sei nada, não tenho uma vida social boa nem uma condição social adequada. Eu não posso; pobre não pode ter filhos, essa é a realidade. E eu também não quero, porque, mesmo que eu tivesse dinheiro, acho que não saberia cuidar de um filho, não saberia dar amor. Ter filhos só por ter, acho que eu não saberia. Talvez soubesse brincar com ele, sorrir e tudo mais, mas, na hora do compromisso sério, eu não saberia.
​Falo isso porque, com os animais, eu brincava e tudo, mas na hora em que eles precisavam de um remédio ou de algum cuidado específico, eu não sabia agir. Alguns animais morreram por negligência, por falta de saber as coisas. Imagina uma pessoa, imagina um casal, um pai e uma mãe que tenham filhos e não saibam cuidar. De repente acontece alguma coisa e, por não saberem, esse filho desenvolve algum problema de saúde. Já vimos muitos casos assim, tanto em famílias ricas quanto em famílias pobres, de crianças que tiveram algum problema de saúde não diagnosticado antes e que estão aí sofrendo.
​Estou aqui com uma sensação tal que às vezes me engano com as coisas e vou caindo nessas armadilhas do dia a dia, achando que vou viver uma vida boa, e sinto que ela está boa. Eu sinto que vivo uma vida boa, mas não é bem isso. Isso não se chama vida. Chamar de vida envolve todo um conceito tradicional, não é? E o que é o tradicional para mim? É aquela estrutura de antigamente: pai, mãe e filhos. É claro que, ao longo dos tempos, seja em famílias de classe média ou de outras situações financeiras, as famílias não estavam ali totalmente unidas. Os pais se separavam, mas logo já estavam com outros; o ser humano é assim. O ser humano sai de uma relação e vai para outra porque não consegue ficar sozinho, porque não consegue se resolver sozinho.
​E nós, que estamos sozinhos — e eu que estou sozinho mesmo, porque sinto que estou só na vida —, não temos ninguém. Eu não tenho amigos. Quer dizer, tenho conhecidos, mas amigos, pessoas iguais a mim, não tenho. Não posso contar com ninguém e não posso administrar isso. Eu até tentei cultivar uma amizade, mas vejo que as pessoas são falsas, aproveitadoras, aproximam-se da gente por algum interesse e querem nos ferrar. Eu não teria estrutura emocional para suportar esses tipos de baques e de traições. Então, fico na minha, sozinho.
​Acho que desde criança, quando a minha mãe me impedia de ter amigos, de conviver com pessoas, e falava mal dos outros — dizendo que todo mundo era ruim e traiçoeiro —, de uma certa forma ela estava certa, embora nem todo mundo seja assim. Mas eu fiquei desse jeito: desconfio de todo mundo. Vivi algumas rasteiras, pequenas rasteiras que não foram nada, mas que serviram para eu tomar muito cuidado com o ser humano.
​Ontem, quando saí e fui ao centro resolver algumas coisas e fazer compras, encontrei um senhor numa banca de revistas — uma banca que funciona como um sebo, onde um conhecido meu vende livros usados. De início, eu e esse senhor conversamos muito. Ele é um senhor muito simpático e agradável. Conversamos bastante ali na calçada, ao lado da banca. Ele conversou comigo como se já fôssemos velhos conhecidos, e eu até brinquei, dizendo que aquilo era um reencontro, não um encontro, porque a nossa química bateu na hora. Conversamos bastante e ele falou da vida dele, dos feitos dele, de tudo. O problema é que ele me chamava de "senhor" o tempo todo. E eu, um homem de 48 anos, sendo chamado de "senhor" por um homem de 78! Ele me chamava de "senhor", e eu o chamava de "você", porque pensava: ele pode me chamar de "senhor" porque eu ainda sou novo e não vou me ofender, mas e se eu chamá-lo de "senhor"? Será que ele vai gostar? Será que não vai se ofender? Então, para mim, ser chamado de "senhor" naquele momento estava tudo bem, mas chamá-lo assim, não. Acho que não. Aliás, eu faço isso: chamo os homens mais velhos de "você" porque tenho receio de chamá-los de "senhor" e eles não gostarem. Quando eu era criança e chamava esses homens de "senhor", eles não gostavam e diziam: "O Senhor está no céu". Vai que eles se ofendem por achar que eu não sou tão jovem assim para chamá-los de "senhor".
​Eu conversava com este senhor na banca do rapaz, o meu conhecido que tem esse sebo, onde vende livros e discos de vinil. Inclusive, esses discos eram do pai dele, que já faleceu e a quem eu conheci. Eu ia muito ao sebo do pai dele também, e o filho já trabalhava com ele na época. Desde novinho, ele já trabalhava com o pai no sebo. O pai faleceu há uns quatro anos, e ele continua no legado, mantendo a banca de revistas onde vende os livros usados.
​Foi bom conversar com esse senhor, ele falou sobre a vida dele, contou sobre o que gosta de fazer, o que gosta de viver e disse que a vida é ótima. Foi muito bom esse reencontro, como eu disse. Conheci-o pela primeira vez, mas parecia um reencontro, que é o que acontece quando a química bate ao encontrarmos alguém. O problema foi só ele me chamar de "senhor" o tempo todo, mas ok. Aí ele pegou e foi embora, pois precisava ir, e eu continuei conversando com o rapaz, o dono da banca. Fiquei olhando alguns livros. Ele me passou alguns títulos para ver se eu me interessava, mas eram livros que eu já tenho. Aí eu peguei um livro da Clarice Lispector, Clarice na Cabeceira. Eu tenho este livro no Kindle e ainda não o li, ele está lá, mas quando o imaginei físico ali, em bom estado, seminovo, imediatamente o peguei.
​Eu ia comprar só ele, mas o dono da banca veio com outros livros. Perguntei o valor do livro da Clarice, e ele falou 24 reais. Na hora, pensei em levar outro mesmo, porque pensei: "Tenho que gastar aqui, já que conheço o rapaz; não vou ficar batendo papo com ele sem comprar nada, tenho que cooperar e ajudar". Ele veio com outros livros e um me interessou: O Homem Duplicado, do José Saramago. Peguei-o. Os dois livros ficaram em 45 reais. Aí o rapaz quis empurrar mais um livro para inteirar 60 reais. Eu disse que não. Ele sorriu e falou: "Eu entendo, se você não quer...". Eu reiterei: "Não, entenda que só vou levar esses dois mesmo". Fiz isso para ele se tocar de que eu também tenho minhas contas para pagar e não posso ficar comprando coisas assim. Ele entendeu perfeitamente.
​Continuamos conversando. Vi um disco do Michael Jackson que eu nunca tinha visto antes, de quando ele ainda era jovem e estava no início da carreira. Peguei o disco, olhei, tirei uma foto minha com ele ali, fiz uma selfie. Comentei com o rapaz sobre um outro conhecido nosso que faleceu. Uma vez eu estava com esse conhecido no outro sebo, bem na época em que começou aquela fase de baixar músicas na internet. Eu estava no sebo e comecei a tirar fotos das listas de músicas nos discos, e esse rapaz que faleceu me censurou na hora, dizendo que não era para eu fazer aquilo porque os donos do sebo podiam estar olhando, e que havia uma japonesa lá muito sistemática. Ele me disse: "Não faz isso, não fica tirando foto, o cara não gosta". Mas era mentira, ela não ia falar nada; é porque ele era meio assim mesmo. Ele já faleceu, era todo calminho, na dele, mas era muito covarde, sabe? Talvez ele até admitisse que fosse um cara covarde, e era, no bom sentido. Não que não fosse uma pessoa boa, ele era, mas tinha esse lado, essa covardia ou medo. Era muito submisso a tudo. A gente tem que respeitar as coisas e as pessoas, mas também não pode andar encolhido o tempo todo. Nós já vivemos encolhidos quando nos sentimos dependentes de alguma estrutura, mas, na sua vida livre, você vai ficar encolhido diante dos outros, com medo do que vão pensar? Que se dane. Ninguém tem nada a ver com a nossa vida. Tudo bem que eu estava dentro do sebo tirando fotos e talvez não pudesse, mas não cabia a ele me chamar a atenção; o dono é quem deveria falar, se fosse o caso. Se formos pensar que na vida nada pode, então nada pode mesmo. A gente faz as coisas porque vive desafiando o tempo, as situações e a própria vida. É assim que se vive.
​Enquanto eu conversava com o rapaz da banca, apareceu um homem lá falando de morte, de perda, não sei o quê. Eu não entendi bem o que ele estava dizendo; primeiro falou da morte de um filho. Ele estava todo tristonho, e eu o reconheci: era um cara que tinha trabalhado comigo na empresa onde estou agora, mas na época em que era outra firma. Olhei para ele e disse: "Você é o fulano, né?", falando o nome dele e cumprimentando-o. Mas ele foi de uma frieza, sabe? Talvez porque estivesse passando por algum problema ali, comentando sobre o que tinha acontecido com ele, e eu nem prestei atenção direito no relato, pois não sabia da história. Conversei brevemente com ele ali, que continuou conversando com o dono da banca na calçada enquanto o povo passava. Para não sair logo e não parecer feio ou sem educação — não que ele se importasse —, esperei um pouquinho, despedi-me e fui embora.
​Fui ao calçadão, entrei numa loja e comprei um tapete para a sala e almofadas. Eu ia comprar uma almofada grande, mas só havia duas com estampa florida. Um senhor me atendeu, muito simpático. Essa empatia mostra o coração da gente, né? Quando olhamos para alguém e reparamos que aquela pessoa está nos olhando de um jeito acolhedor, parece que reconhecemos a bondade dentro dela. Ela pode ter a vida pessoal dela, mas a gente reconhece certas pessoas. Tem gente que olhamos na cara e vemos alguém mau, falso, irônico; outras, vemos no olhar que são humanas. Este senhor que me atendeu parece ser um homem muito bom e humano. Depois, subi para ver algumas coisas no andar de cima, e uma mocinha que me atendeu também era muito gente boa. Comprei as coisas e perguntei se havia entrega. O senhor disse que tinha um homem que fazia frete, mas cobrava 70 reais. Um absurdo. Eu disse: "Não, deixa que eu me resolvo". Ele respondeu: "Dá para você levar na moto, é só dobrar o tapete e colocar as almofadas dentro da sacola". Deu certo, ele acomodou tudo e eu saí do calçadão andando até a Esperta Motos, a loja onde deixei minha moto para trocar o óleo. Fui sem receio nenhum, apenas carregando a compra.
​Cheguei lá e um rapaz venezuelano que trabalha ali há algum tempo, muito simpático e gente boa, conversou comigo.
Ele me passou o relatório de uma revisão que precisa ser feita na moto, com um valor considerável. Eles nunca tinham feito isso antes. Acho que hoje em dia o mercado está tão competitivo que eles estão se adiantando para vender, mas os funcionários de lá são gente boa. Tem um que conheço desde a outra loja, e agora tem esse venezuelano, que trabalha ali há uns quatro anos, segundo me disse. Ele é muito gente boa, inclusive mencionou que mora para cá, aqui no Umuarama mesmo, no bairro. Passou-me o relatório com o orçamento da revisão. A gente sabe como é: eles passam esse valor fixo, mas depois fica muito mais caro, porque vão querer trocar mais coisas que nem precisam ser trocadas. Vou deixar passar mais um tempo; não vou fazer isso agora, vou deixar para o final do ano, quando pegar o décimo terceiro. Se ele insistir, dou uma desculpa, não sou obrigado.
​Já vou ter que pagar uns dois mil e poucos reais da cobertura dos veículos aqui; já vou ter esse gasto. Estou avaliando o dinheiro da safra agora, caso haja a oportunidade de trabalharmos aos domingos para eu ganhar um extra e cobrir tudo o que comprei até aqui. O ano já está na metade e a gente vai gastando. Para completar, minha mãe me enviou um áudio na semana passada falando que a minha cachorra estava doente, que ela teve gastos e que eu preciso ajudar, porque ela está sozinha ali para comprar as coisas. Não que eu esteja ferrado na vida; eu tenho condições sim, tenho minha vida e sou preparado para isso, mas temos que tomar cuidado com o que gastamos. Eu vivo uma vida humilde, no sentido de viver confortavelmente, muitas vezes melhor do que quando morava com meus pais. Vivo aqui, tranquilo. Mas eu conheço o valor do dinheiro, sei que temos que guardar, preservar e fazer reserva. Tenho o maior medo de ficar sem dinheiro, sabe? Tenho pavor de me tornar um velho no futuro sem economias, sem saber como agir em uma emergência ou se ficar doente e não tiver condições. Tenho um horror a isso, me dá muito medo.
​E olha que a gente faz de tudo para preservar as nossas coisas, enquanto vê pessoas que não fazem isso. Lá na minha casa mesmo, o meu genitor não faz isso. Fica esbanjando o dinheiro dele, gastando. Ele não tem carro, não tem veículo, não gasta com gasolina, não gasta com manutenção de automóvel, não gasta com nada e ganha um salário maior do que o meu. Onde esse homem enfia esse dinheiro? Ele não está guardando, não tem conta em banco, não tem nada. O que ele está fazendo? Está torrando o dinheiro, dando para os outros. Até briguei com a minha mãe e comentei que ele dá as coisas para os outros e ajuda os parentes. Uma vez, uma sobrinha dele falou que ia fazer uma reforma na casa dela, e ele já se prontificou a pagar os materiais e a mão de obra. Deu uma Smart TV para outra sobrinha. Fica pagando passagem para outro sobrinho. Gente, sabe... Eu não queria estender esse assunto neste texto, mas é um desabafo.
​Conversei com a minha mãe agora, no domingo. Ela me disse que esteve doente e precisou tomar uns remédios. Falou também do velho, o meu genitor, dizendo que ele teve um problema nas pernas e não conseguia nem levantar da cama. Fiquei pensando naquilo. Eu não queria ter dó dele — dó ele não precisa que tenham, porque é um homem que não dá o braço a torcer —, mas fiquei com aquela sensação incômoda, pensando que eles vivem como se a vida fosse eterna, como se nada fosse acontecer. Mas, daqui a pouco, em pouco tempo, eles podem Definitionsar e morrer de repente, porque a vida é assim, um estalo, acontece do nada. Ainda mais com gente de idade, que pode adoecer e Definitionsar de uma hora para outra. Ele nunca ficou doente na vida, eu nunca vi, mas pode ser que aconteça de repente. Fiquei com aquele desconforto, pensando nisso, e me deu uma grande tristeza.
​Me deu uma tristeza também saber que fico acreditando que a vida tem possibilidades para mim, mas não tem mais; acabou. Acabou mesmo. Estou igual àqueles homens idosos — eu não sou idoso, sou um rapaz jovem ainda —, mas estou igual àqueles personagens que eu assistia antigamente em filmes e novelas, reclamando do tempo. Estou ficando assim porque não tem mais o que fazer, meu Deus, não tem. O que eu vou fazer? Vou me enganar com coisas que não existem mais, que nunca existiram e que agora não vão passar a existir? Vou me enganar querendo buscar uma amizade com alguém que não existe? O que eu faço?
​Eu não tenho o dinheiro que deveria ter. Será que esses homens que têm dinheiro também passam por essas sensações e por essas angústias? Estou assim: meu cabelo está caindo. Eu não vou ter aquele dinheiro todo, posso até ter, mas para que vou atrás disso? Tantos rapazes da minha idade, ou até com condições financeiras melhores, estão aí carecas. Vou atrás de transplante capilar ou de alguma fórmula para fazer o cabelo crescer? Meu cabelo está todo ralo na frente. Se eu o cortar todo agora, vai dar para ver que está ralo, e quem me olhar notará que estou ficando calvo. Não que a minha vaidade estivesse toda no cabelo; o meu cabelo não é ruim nem bom, é um cabelo meio crespo. Ele era bom quando eu era adolescente. Depois, quando comecei a ficar adulto, fui raspar a cabeça uma vez e, quando cresceu, voltou meio encaracolado. Eu não acreditava nisso, mas é verdade: se você tem um cabelo que não é totalmente liso, quando raspa, ele engrossa mais ainda. Mas eu arrumava o cabelo, passava um creme relaxante, fazia alguns procedimentos e ele era tão grosso e cheio que, com o relaxante, ficava bom, bonito. Eu o penteava e ficava aquele ondulado legal. Nunca fui excessivamente vaidoso com o cabelo, mas dava uma arrumada e ficava bem. Agora ele está ralo, não sei o que faço. Estou velho mesmo. Não que ser calvo seja sinônimo de ser velho — tem rapazes de 20 anos que já são calvos e são novos —, mas sinto como se fosse o fim.
​E o que vou fazer se cada dia parece pior? O que vou buscar no amanhã, sendo que o amanhã parece que vai ser pior? De repente, pego-me pensando que a minha vida vai melhorar. Melhorar o quê? Mais para frente vai ficar pior do que está agora. Fica aquela sensação de nada, absolutamente nada.
​Cheguei no trabalho feito um bobo, feito um tonto. Não tinha serviço. Fico procurando o que fazer aqui e ali, tentando ajudar alguém. Uma coisa de que não estou gostando mais é de ser orientado pelos outros, ser tangido pelos outros, não sei como se diz. E eu estou na fossa. Estou na fossa.
​Estou sozinho. Estou sozinho e não me encontro. Eu estou só. Só. O que eu faço? Morrer parece a solução. Estou pensando em ir à funerária olhar os caixões e já deixar tudo encomendado, porque seguir em frente não vai dar mais. Eu não tenho mais como seguir nesta vida, não tem nada para mim. Não tem mais nada. Não tem mais nada.
​Já estou seguindo, vivendo essa mentira de merda. Chego em casa, não saio, não tenho amigos, não tem ninguém. Não existem amigos para mim. Não existe nada para mim. Nada. Eu estou enferrujado, não vou poder ter nada com ninguém, e eu ainda sou novo para ver tudo isso acabar.
​Acabou. Acabou mesmo!
​Fim!

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