Madrugada de chuva. Reflexões e o Cotidiano.

Madrugada de Chuva, Reflexões e o Cotidiano

Está chovendo. É uma madrugada de chuva para esfriar e trazer o inverno que está próximo — ele começa no dia 20 de junho. Estou aqui no meu quarto-escritório, olhando através da persiana da janela a chuva caindo na avenida. Não é uma chuva forte, é uma chuva de inverno mesmo; essa chuva boa, gostosa, que traz lembranças de uma época. Tem pessoas que dizem gostar do inverno porque sabem que ele dura pouco. A gente não consegue nem sentir raiva ou desacostumar. Aliás, sentir raiva a gente sente, mas pelo desconforto, não pelo inverno em si ou pela baixa temperatura. É o desconforto de quem vive em uma sociedade de classe média baixa e tem que sair para trabalhar em péssimas condições, em um lugar onde se passa frio. Quando esfria, a gente quer estar bem agasalhado, quentinho, e curtir todas as coisas que a estação oferece. As pessoas privilegiadas conseguem curtir o inverno tranquilas porque têm como se proteger.
​A estação do inverno é romântica, mas também é triste em alguns momentos. Anteontem mesmo eu comentei com uma colega — não por causa do inverno ou de um clima cinza, pois nem estava frio, era apenas uma noite fresca. Conversei com ela, mas talvez o assunto a tenha feito lembrar de uma irmã que faleceu na época em que a conheci. Isso foi recentemente; ela entrou para trabalhar lá na fábrica. A gente se encontrou e ela disse que uma irmã dela já tinha trabalhado ali. Quando perguntei por essa irmã, ela respondeu: "Minha irmã morreu". Ela falou que é uma sensação muito triste, afinal, quando alguém da família morre — ainda mais uma irmã —, o impacto é grande; elas deviam ser muito próximas.
​Na terça-feira, eu ainda estava com a sensação de segunda-feira, dia 8. Não sei por quê, mas na segunda eu levantei feliz, fui ao supermercado e depois ao centro. Conversei com as pessoas, mas senti uma enganação em tudo aquilo. Senti que fui logrado, que me deixei enganar por um sentimento que não sei explicar. Eu estava feliz na segunda e, de repente, achei que aquilo não estava certo, que não era legal eu me sentir feliz daquela forma. Quando conversei com essa colega na terça-feira, nos encontramos novamente no mesmo setor da fábrica. Eu ainda carregava os sintomas do dia anterior e falei para ela sobre os dias cinzas e a tristeza. Só depois me toquei que, talvez, estivesse fazendo-a lembrar da morte da irmã, porque dias cinzas e tristes trazem à tona acontecimentos dolorosos.
​As Preocupações com a Família e a Realidade
​Mas, indo um pouco mais atrás, essa sensação começou no domingo, quando conversei com a minha mãe. Na verdade, ela ligou para mim, pois não nos falávamos havia uma semana. Ela me contou que ficou doente e que o velho — meu genitor — também teve um problema: não conseguia nem levantar da cama porque as pernas estavam fracas. Ele já é um senhor de 76 anos, quase 80, mas é durão e acha que nada vai acontecer com ele. Nunca o vi ficar doente ou ir ao hospital na vida; se ficou, escondeu ou nunca demonstrou sofrimento. Ele diz que é diabético, mas a diabetes dele parece não afetá-lo. Ele faz tantas extravagâncias, dorme tarde, acorda tarde, não tem uma vida saudável e nunca teve os problemas que muitos têm com essa doença. Uma vez comentei com a minha mãe: "Será que ele tem diabetes mesmo?". Aí, certo dia, ouvi ele mesmo comentando com alguém que desconfiava que tivesse, porque fazia muitas extravagâncias e nada o afetava.
​No domingo, quando conversei com a minha mãe — que tem 74 anos —, e pensando nele, com 76, me veio o pensamento de que o fim deles está próximo. Daqui a pouco eles não vão mais estar aqui. Tantos conhecidos da idade deles estão morrendo... Eles continuam lá, mas as coisas podem mudar de um dia para o outro; a saúde pode arruinar de repente, levá-los ao hospital e eles morrerem.
​A gente, que é pobre, não tem os mesmos recursos que os ricos. O rico vai para o hospital, faz uma cirurgia com um médico especialista que ganha muito bem e faz a pessoa continuar viva. Se o médico errar, toma um processo; eles são todos interligados. Agora, a gente que é pobre fica doente, vai para o hospital e é atendido por um médico que muitas vezes não está nem aí, porque o que manda é o dinheiro e as conexões. O médico não é amigo do pobre, não vai lucrar com aquilo e, se tiver que deixar morrer, deixa. Podem ser coisas que daria para salvar, mas alguns não se preocupam, tanto faz como tanto fez. Não significa necessariamente que o médico seja um cara ruim que desmerece os outros, mas, no íntimo dele, aquela pessoa não significa nada.
​Isso não quer dizer que ele não vá se esforçar para manter a pessoa viva. É como quando a gente ouve falar que fulano morreu: se você não o conhecia, sendo rico ou pobre, você não sente nada, a não ser que seja uma tragédia que você presencie. Ouvir falar apenas não desperta sentimento. É claro que este é um exemplo simples diante da complexidade de uma vida; o profissional tem a obrigação de reconhecer o valor de quem está ali e cuidar dos seus pacientes, sejam ricos ou pobres. Mas eu sei que, hoje em dia, a ganância por dinheiro fala mais alto. Já ouvi falar de pessoas que caíram nas mãos de médicos negligentes que não se importavam. Inclusive a minha mãe estava prestes a fazer uma cirurgia e descobriu que o médico responsável havia sido demitido da Santa Casa aqui da cidade por ter cometido dois erros médicos por pura negligência. Minha mãe disse: "Foi Deus, porque já pensou se eu caísse nas mãos dele?".
​A Observação da Janela e os Pequenos Detalhes
​A chuva cai, continua chovendo. Há pouco, vi uma moça passando; acho que ela foi jogar o lixo fora e estava com uma toalha na cabeça. Sendo agora cerca de 4h30 da madrugada, estou aqui no terceiro andar do condomínio onde moro, olhando através da persiana da janela do escritório. A moça foi e voltou. Tive a impressão de que, na hora em que passou, ela olhou para cima. Acho que a luz do meu celular na janela chamou a atenção dela, e ela deve ter pensado: "Tem alguém olhando".
​E sempre tem alguém olhando. Tanto é que, quando saio do condomínio, tenho a mania de olhar para a minha própria janela para conferir se fechei tudo direitinho. Uma vez fui olhar e parecia que tinha alguém lá dentro, me observando.
​Esses dias, acho que anteontem, coloquei uns vasinhos coloridos que comprei no Mercado Livre na janela, onde instalei uma rede de proteção. Minha ideia era colocar flores. Antes, eu tinha comprado dois vasos de plástico aqui, mas eram grandes demais. Então, fui ao Mercado Livre e comprei um kit com 50 vasinhos por 22 BRL, mas não prestei atenção na descrição do tamanho. Quando chegaram, eram miniaturas; eu achei que seriam médios. O problema da gente é esse: não lê a descrição, não presta atenção e depois acha que foi enganado, quando na verdade é pura falta de atenção nossa.
​Mesmo assim, coloquei os vasinhos nas três janelas dos quartos e na da lavanderia/cozinha. Tinha vasinho amarelo, verde, lilás, pink, azul, marrom, branco e vermelho. Até que ficou bonitinho, mas eles não tinham flores, eram só os vasinhos vazios. Como começou a ventar e eles saíam do lugar no peitoril da janela, comecei a colocar Chá Mate dentro deles — as folhas que eu usava e ia jogar fora — para fazer peso e o vento não os desarrumar. Anteontem, acabei tirando todos eles. Antes de tirar, quando eu saía para o serviço — eu trabalho à tarde, entro às 15h30 —, eu olhava da rua para ver se dava para enxergar os vasinhos. Claro que dava para ver aquele monte de vasinhos em miniatura, cada um de uma cor. Pensei que quem olhasse da rua ou de dentro do condomínio ia ver aquilo sem flores e pensar: "Que pobreza, que cafonice". Aí peguei e arranquei todos. Vou ver se compro uns vasos médios com flores de verdade.
​O Trabalho, os Conflitos e a Rotina na Fábrica
​Bom, mudei de assunto completamente, não é? Um conhecido com quem eu conversava pelo WhatsApp dizia que curtia os meus "textões". Ele falava que, dentro de um único assunto, eu abordava vários outros temas. Eu sou assim mesmo: falo de uma coisa, puxo outra e, às vezes, volto ao assunto inicial — como agora, olhando a chuva caindo e o inverno se aproximando.
​Tenho algumas camisetas para lavar e preciso organizar este apartamento, porque a minha mãe talvez venha aqui no sábado. Vou conversar com a minha irmã mais nova para trazê-la. No ano passado, foi a minha irmã mais velha que a trouxe aqui pela primeira vez; agora será a mais nova. Sábado eu não vou trabalhar porque compensamos o próximo feriado. Na sexta-feira, vamos entrar às 12h30 e trabalhar até as 18h, que é o horário de sábado. Preciso organizar tudo para que no sábado esteja em ordem. Quero ir ao mercado na sexta-feira e no centro comprar mais algumas coisas, e no sábado de manhã voltar ao supermercado para finalizar as compras antes de receber a minha mãe. Mas dá uma preguiça fazer tanta coisa... Parece que não vou conseguir dar conta de nada. Um apartamento tão pequeno, tão fácil de arrumar e organizar, e eu acabo perdendo muito tempo assistindo a coisas na televisão.
​Ontem no trabalho não foi ruim, mas antes do meu horário de janta — por volta das 20h — começaram a surgir problemas. Um produto estourou na máquina; é uma empresa alimentícia, então sujou tudo e tive que parar para limpar. Isso aconteceu três vezes. O problema estava na forma como um funcionário encaixotava o produto antes de passar na máquina que fita as caixas. Dependendo de como o produto é colocado, a caixa fica estufada. São sachês grandes de extrato de tomate, de 1,007 kg, e vão oito em cada caixa. A caixa sempre fica um pouco estufada, mas nunca tinha dado esse problema de rasgar na faquinha que corta a fita.
​Descobri que esse rapaz estava colocando os sachês na vertical em vez de colocá-los na horizontal (dispostos em três, seis e mais dois), que é a forma correta para comportá-los sem que forcem a lâmina da fitadeira. Estavam ele e outro rapaz na linha. Eu avisei o outro rapaz, que começou a colocar do jeito certo, mas esse homem continuou fazendo errado.
​Ele é um homem de 40 e poucos anos que já tinha trabalhado ali. Pediu as contas, foi para outro lugar, não deu certo e voltou para a produção há cerca de dois meses. Ele não tem um pingo de consideração pelos colegas; reclama de tudo e fala mal dos outros. Se alguém erra, ele diz que a pessoa errou porque quis. Esses dias, uma menina nova estava trabalhando com a gente e não estava conseguindo acompanhar o ritmo. Ele começou a julgá-la, dizendo que ela não fazia porque não queria. Eu chamei a atenção dele, disse para não ser maldoso, pois a moça estava apenas pegando o jeito do serviço. Mas, na cabeça e no coração dele, ele acha que todo mundo age por má-vontade.
​No entanto, ele mesmo faz tudo errado: vai ao banheiro e demora, faz descaso do serviço... Ele voltou para a empresa porque o mercado de trabalho deve estar difícil para ele. Ele é obeso e tem uma postura muito arrogante. Mesmo avisado de que o sachê poderia rasgar e sujar tudo de novo, ele não quis saber e continuou fazendo do seu jeito. Ele não dá o braço a torcer, não cede e não respeita os outros; achei um comportamento horrível. Já soube de muitas histórias sobre ele, inclusive contadas por ele mesmo: vive pedindo dinheiro emprestado para os outros e para agiotas, está com a vida toda encrencada financeiramente e diz que nem dorme direito por causa das dívidas. Houve uma época em que ele ia trabalhar com um perfume horrível que me dava dor de cabeça. Depois, quando passou a trabalhar em outro turno e a receber adicional noturno, acho que conseguiu um dinheiro e comprou um perfume melhor; a gente sentia um cheiro bom quando ele chegava perto. Agora que está endividado de novo, voltou a usar aquele perfume horrível. Ele acha que está abafando, que o importante é estar perfumado, mas exagera na quantidade — e usar tanto perfume forte em uma empresa alimentícia é complicado.
​Maturidade, Energia e o Tempo que Passa
​Devido a essa confusão dos sachês estourados e à sujeira que se formou, o tempo passou e eu, que sou o último a jantar dos quatro funcionários do setor, acabei saindo tarde. Primeiro vai o rapaz mais novo, depois esse homem irresponsável, depois o outro senhor que me ajuda, e por fim vou eu. Eu já não almoço nada para ir trabalhar e ainda sou o último a jantar. Ontem, quando cheguei ao refeitório, já passava das 20h e as moças já tinham recolhido tudo; a janta havia acabado e eu fiquei sem comer.
​Apesar disso, não fiquei abalado. Pelo contrário, trabalhei super bem, estava energizado, feliz e espiritualmente bem comigo mesmo. Ajudei outro colega — um rapaz mais novo que só estava cometendo erros. Ele chega todo dia atrasado porque fica jogando jogos online, como o "jogo do tigrinho", e está viciado nisso. Ele não deve dormir direito e não tem energia para reagir às tarefas. O líder o colocou em uma função e só deu errado porque o moleque estava totalmente sem foco e sem energia. O líder, de forma irresponsável, sabe disso e insiste em colocá-lo lá.
​O setor está cheio de funcionários intolerantes, revoltados e nervosos sem motivo — pessoas que se irritam porque queriam estar no bem-bom. Não vou dizer que eu nunca fico nervoso; eu fico quando vejo que as coisas não saem do jeito certo. Tenho paciência, mas quando percebo que não há cooperação, eu também me manifesto, grito e expresso que não estou legal, porque não posso aceitar aquilo como normal. Eu sou capricorniano, e o capricorniano vai até onde pode, mas quando vê que não há respeito ou empatia, a revolta aparece. Enquanto na empresa as pessoas precisam se desdobrar em dez para fazer o serviço, eu fico sozinho e consigo realizar mil coisas de forma organizada. O líder finge que não vê ou realmente não repara.
​Apesar de tudo, estou feliz com o que faço. Não quero trabalhar com pessoas que me acham incapaz ou que acham que não vou dar conta, mesmo me conhecendo. Já perdi a ilusão; prefiro ficar na minha. Eu me sinto feliz fazendo as minhas coisas e sabendo que sou útil. Talvez os líderes já tenham entendido isso e por isso me deixam no meu canto fazendo o meu trabalho. Eu estava muito infeliz no outro setor, onde sofria humilhações de uma menina de 20 anos. Ela tinha uma energia pesada e ruim, ficava fuzilando a gente com o olhar e enchendo o saco; só a presença dela já causava mal-estar. Muita gente reclamava disso. Graças a Deus eu saí de lá, foi um livramento divino. Não foram os líderes que me tiraram, foi Deus mesmo, que viu que no dia em que explodi por não aguentar mais tanta humilhação, era o momento de sair. Para mim, aquela moça não significa nada, é uma coitada; dar atenção a ela seria como chutar cachorro morto. Mas aquele ambiente me incomodava. A mudança foi uma forma de me tirar de uma situação que parecia tornar todos os meus dias infelizes. Agora estou bem. Ontem, mesmo sem jantar e com todos os imprevistos, eu estava com uma energia muito boa e forte. Consegui fazer o meu serviço e o dos outros sem reclamar ou xingar.
​Lá também tem um venezuelano que é muito esquentado e bruto. Temos apenas uma paleteira elétrica para todo mundo usar. Na hora de pegar a paleteira da mão da gente, ele puxa com tudo, e na hora de devolver, solta de qualquer jeito. Não sei se ele toma remédios ou se é reflexo da vida difícil que leva como imigrante. E ele não é o único; tem outro cara lá que age da mesma forma. Mesmo com toda essa falta de educação dele, eu continuei bem comigo mesmo ontem. Estou bem.
​O que me incomoda um pouco, na verdade, é o frio, o clima e as incertezas sobre o futuro — para onde vou e o que vai ser de mim. Fico pensando se daqui a pouco não terei mais os meus pais. Enquanto escrevo isso, vejo um rapaz passando agora na rua, provavelmente indo para o trabalho. São quase 5h da madrugada e ele está sem guarda-chuva, sem nada.
​O meu questionamento real é saber que a vida está passando rápido, que estou envelhecendo e que as têmporas do meu cabelo já estão brancas. Aquele senhor com quem conversei na banca de jornais me chamava de "senhor" o tempo todo. No final, quando ele perguntou a minha idade e eu disse que tinha 48 anos, ele comentou: "E você ainda tem cabelo, olha eu que não tenho nada". Ele era calvo. Fiquei refletindo se ele me achou com mais idade. Eu estava de óculos escuros porque não tinha dormido direito e, talvez por causa dos cabelos brancos nas laterais, ele tenha pensado que eu tinha quase 60 anos. Mas uma pessoa de quase 60 anos tem outra forma de se expressar e outra estrutura física. Será que ele não percebeu que sou um rapaz jovem? Não sei, são suposições.
​Lembro que há 15 anos, em 2008, conheci uma mulher em uma empresa. Ela era branca, loira, bonita, de olhos azuis. Ela me recebeu muito bem e, na minha cabeça, julguei que ela já tivesse uns 60 anos. Depois fui saber que ela tinha apenas 48. Fiquei pensando: "Nossa, apenas 48 anos com aparência de 60". Será que as pessoas me veem hoje e acham que eu tenho 60 anos? Por mais que eu tenha um estilo mais despojado, de "molecão" — porque sei que meu espírito, meu jeito de agir e o brilho dos meus olhos ainda trazem a ingenuidade de uma criança ou de um adolescente —, fica essa dúvida. Meu corpo e comportamento não são de um homem velho.
​Mas chega de conversa, vou encerrar por aqui porque o texto já está muito longo. A chuva continua caindo nesta madrugada de 11 de junho de 2026. Até mais.

Comentários

Postagens mais visitadas