Telefone residencial, antena parabólica

     Mais uma história do passado. 
    Em 1996, foi instalado um telefone residencial em casa. Naquela época, não era qualquer família de classe média baixa que tinha uma linha telefônica. Então, aquilo foi algo importante para nós. Em casa já existia uma antena parabólica, e podíamos assistir aos canais com imagem nítida, viva, colorida, numa televisão de 20 polegadas. Para nós, aquilo era tudo.
Dentro daquela casa, assistindo Globo, SBT, Record, Band, Manchete, todas as emissoras com imagem limpa, a gente sentia orgulho, porque tínhamos antena parabólica e telefone residencial em meados dos anos 90. Nossa vida não era exatamente miserável; ela era desleixada pelo nosso genitor, um homem que, quando queria, fazia as coisas acontecerem. Mas, se ele tivesse se esforçado desde o início das nossas vidas, se tivesse agarrado a responsabilidade com vontade, propósito e motivação, talvez tudo tivesse sido diferente.
Um homem casado, com filhos, deveria pensar: “Vou me esforçar, vou dar uma vida digna para minha família, uma casa bonita, conforto, estabilidade, mostrar aos meus filhos o valor do trabalho.” Mas ele nunca teve essa postura. Vivia como alguém sem ambição, sem direção, como se nada realmente importasse. E nem era uma filosofia de vida; ele nem sabia o que era filosofia. Era ignorância mesmo. Um homem vindo dos cafundós da Bahia, criado de qualquer jeito, que nunca buscou estudar, melhorar ou crescer.
Ele dizia que “desbravou a vida”, que trabalhou muito, que sofreu, mas, conforme fui crescendo e entendendo o mundo, comecei a perceber que o discurso dele não combinava com a realidade. Porque, se tivesse sido tudo aquilo que ele dizia, nossa vida teria sido melhor. Teríamos tido uma casa bonita, roupas boas, viagens, cultura dentro de casa, ensinamentos, estabilidade. Talvez até uma televisão quando éramos pequenos. Mas ele não trabalhava direito, não se esforçava, não assumia a responsabilidade.
Muitas das falhas emocionais que carregamos depois vieram justamente dessa falta de estrutura familiar. Ele dizia que a escola tinha que educar os filhos. Quando brigávamos ou falávamos algum palavrão, ele dizia: “Ué, sua professora não está te ensinando?” Como se educação viesse apenas da escola. Mas educação começa dentro de casa, no exemplo dos pais. Isso é típico de pessoas ignorantes que acreditam que educar os filhos é obrigação dos professores.
Nossa infância foi difícil. Meu pai era alcoólatra e ausente. Minha mãe, sobrecarregada pela vida dura, acabou se tornando uma mulher rígida, severa e emocionalmente complicada. Às vezes era carinhosa, mas em muitos momentos explodia por qualquer coisa. A gente apanhava muito. Hoje entendo que ela também estava adoecida emocionalmente, presa numa vida amarga.
Quando me tornei adulto, percebi o quanto minhas reações emocionais tinham origem no ambiente em que cresci. Só que naquela época eu nem sabia que existiam profissionais capazes de ajudar psicologicamente alguém. E, mesmo que soubéssemos, não havia dinheiro para isso.
Lembro também de um episódio que me marcou profundamente. Eu queria muito um cachorrinho. Ganhei um, pequeno, ainda filhote. Mas um dia ele fez xixi dentro de casa. Na noite seguinte, minha mãe mandou eu, ela e minha irmã abandonarmos o cachorro num terreno baldio. Eu chorava sem querer deixar o animal ali sozinho. Era só um filhotinho. Até hoje sinto remorso quando lembro disso.
Mas, apesar de tudo, tivemos alguns momentos de progresso. Quando eu já era adolescente, comecei a trabalhar. Minha mãe também trabalhava. Nosso genitor estava em São Paulo. Algumas melhorias começaram a surgir. Foi nessa época que tivemos a antena parabólica e, depois, um telefone residencial. Minha mãe saiu do emprego, recebeu um acerto, e conseguimos instalar a linha telefônica em casa.
Aquilo virou um acontecimento. Os vizinhos não tinham telefone, e nós tínhamos. Quando o aparelho tocava, todo mundo corria para atender. Era algo importante. Eu ligava muito para as rádios da cidade — Rádio Clube, Rádio Cultura — para pedir músicas. Oferecia canções para colegas da escola, mandava mensagens, participava das promoções.
Era emocionante quando a linha finalmente chamava depois de tantas tentativas ocupadas. O coração acelerava esperando o radialista atender. Às vezes eles pediam para aguardar na linha enquanto os comerciais passavam. Depois entrava ao vivo, aquela voz do locutor conversando com a gente, perguntando qual música queríamos ouvir. Era mágico.
Ganhei CDs, ingressos, brindes. Lembro de ter ganho discos da Whitney Houston, CDs de artistas dos anos 90, ingressos para eventos e exposições. Uma vez ganhei uma consulta com uma taróloga num shopping. Peguei minha bicicleta e atravessei a cidade inteira para ir até lá. Entrei naquela tenda cheia de incensos e cartas de tarô. Ela falou algumas coisas sobre meu futuro que ficaram na minha cabeça. E, curiosamente, naquele mesmo ano de 2003, muitas coisas boas realmente começaram a acontecer na minha vida.
Também lembro de um Dia dos Namorados em que enviei uma poesia para a rádio. Houve um sorteio entre os ouvintes, e minha poesia foi uma das escolhidas. Acho que ganhei um CD, embora hoje eu nem lembre exatamente qual foi o prêmio. O importante era a sensação de participar daquilo tudo.
São lembranças muito vivas.
Mas, sinceramente, não sinto saudade daquela época. Eu gosto do presente. Gosto da tecnologia, dos celulares, dos streamings, das redes sociais. Acho que nunca fui tão feliz quanto de 2012 para cá, e hoje mais ainda. As pessoas reclamam muito do presente, falam que o celular faz mal, que a tecnologia afastou as pessoas. Mas eu vejo diferente. Acho que estamos vivendo uma das melhores fases da humanidade em termos de acesso, informação e possibilidades.
Daqui vinte anos, muita gente vai olhar para 2026 e dizer: “Nossa, como aquela época era boa.” Vão sentir saudade das músicas, das séries, dos aplicativos, da internet, exatamente como as pessoas hoje romantizam os anos 90. O ser humano tem essa mania de reclamar do presente e só valorizar quando passa.
Eu não quero viver assim. Quero gostar do tempo em que estou vivendo agora.
E é bom lembrar dessas histórias. Não para sofrer, mas para registrar. Hoje eu consigo falar, escrever, transformar memórias em texto, em imagem, guardar tudo no meu blog. Tenho cartas antigas, relatos, lembranças transcritas. Faço isso porque sinto que essas memórias merecem existir organizadas em algum lugar.
No fim, são relatos reais da minha vida. Histórias simples, difíceis às vezes, mas que ajudam a entender quem eu fui e quem me tornei.

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