O dia está Abençoado
Ando nessa condição de querer compreender o que virá, como muitos fazem em silêncio, projetando-se no tempo. Há o meu tempo — esse que possuo em abundância — e que não deve me cansar de existir, mas sim ser moldado com o cuidado necessário para conduzir o meu barco rumo ao futuro.
Ontem, ao olhar para tantos feitos, senti-me maravilhado com a trajetória que construí até aqui. Há tanto que vi, tantos personagens que cruzaram o meu caminho — alguns vieram até mim, outros fui eu quem busquei. São inúmeras histórias, fragmentos de vidas que, de algum modo, também me compõem.
Procuro por muitos desses rostos espalhados pelo mundo e entendo que, nesse movimento, ganho e perco. Há pessoas do passado, do presente e até do futuro imaginado. Ainda assim, permaneço aqui. E, por vezes, sinto que me cabe o papel de narrador dessas existências que passaram por mim.
Vivi — e ainda vivo — em uma época surreal. Há cinco anos enfrentamos uma pandemia. Isso já é história. São acontecimentos que seguem acontecendo e que registrei em fotos e textos. Registrar é preservar o instante contra o esquecimento.
Penso, às vezes, no quanto poderia ter guardado mais, se não fosse a raiva que me levava a destruir esses testemunhos em momentos difíceis. Apaguei partes da minha própria história porque elas carregavam dor. Hoje percebo: eram também parte de mim.
Desde então, tenho observado o tempo com mais atenção. Tenho testemunhado pessoas, encontros, despedidas. Muitos dos que vejo hoje talvez se tornem personagens nos meus escritos de amanhã.
Ontem reencontrei uma colega de anos atrás, do trabalho. Sempre que nos vemos, conversamos. Ela é uma pessoa boa — talvez semelhante a mim em certos aspectos. Há quem goste de nós, há quem nos rejeite sem motivo claro. Às vezes, é apenas uma incompatibilidade silenciosa — o famoso “santo não bate”.
E quando não bate, não adianta forçar. Forçar é violentar a natureza das coisas. E toda tentativa de contrariar o que é essencialmente incompatível cobra seu preço — muitas vezes, um preço alto e desastroso.
Sigo, então, observando, registrando e existindo.
29/05/2026
Madrugada


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