Hoje não foi um daqueles dias que dão certo. Foi um dia que já começou errado.

Sabe quando a gente percebe que fez tudo errado justamente tentando acertar? Ontem instalaram redes de proteção nas janelas dos quartos e da cozinha/lavanderia. Era para trazer segurança, amparo, uma sensação de cuidado. Mas criou-se outra coisa: um impossível.
Antes eu me aproximava da janela e via tudo nitidamente, sem obstáculos. Podia pegar o celular, filmar, fotografar a rua, os prédios, a vida acontecendo. Podia inclinar o corpo para fora e enxergar o condomínio inteiro: os apartamentos acima, abaixo, as luzes acesas, os sinais de existência.
Agora não mais.
Eu costumava olhar o apartamento de baixo porque parecia não morar ninguém ali. Dias atrás, vi um gato na janela. Chamei por ele, e ele ficou vidrado em mim. Miou algumas vezes, como se precisasse de atenção, de companhia, de outro ser vivo olhando de volta para ele.
Eu queria dar essa atenção dali de cima.
O gato parecia considerar a possibilidade de pular para minha janela. Talvez estivesse calculando um jeito de escalar a parede. Mas hesitou. Parecia inteligente o suficiente para perceber que ainda não conseguiria.
Mesmo assim, imagino que ele tenha pensado em tentar algum dia.
E agora, quando se deparar com a rede de proteção, talvez sinta a maior das decepções. Talvez pense que eu quis impedir sua chegada. Como se eu tivesse previsto sua visita e tratado de barrar sua entrada antes que ela acontecesse.
Pobre gatinho.
Talvez eu tenha convidado sem perceber, com aquele gesto de atenção. E agora a janela fechada corta essa possibilidade invisível entre nós.
Quem será o dono dele? Homem? Mulher? Quando o condomínio ficou pronto e as pessoas começaram a se mudar, lembro de um rapaz simpático morando ali. Não sei se ainda vive no apartamento, se alugou, se foi embora. Às vezes penso que quem mora ali embaixo é invisível. Nunca vejo ninguém. Apenas o gato.
E eu aqui, olhando minhas janelas cobertas por redes de proteção, tomado por essa sensação triste de aprisionamento.
Como se eu tivesse erguido uma barreira não apenas para o mundo lá fora, mas também para mim mesmo.


07/05/2026

Noite


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