Estou sozinho — e vejo um monte de gente sozinha jurando que não está. Mas o que é estar só, afinal? Estar só é não se sentir, mesmo existindo no meio de bilhões de seres vivos.
Eu estou. Porque tenho comigo aquilo que me faz pleno. Rodeado de mim mesmo. Mas houve um tempo em que me esqueci em função de outro ser, e então me vi perdido, sozinho no mundo, justamente quando saí do meu próprio mundo.
Nos meus olhos estava estampado o abandono.
Eu não estava em mim.
Era um corpo desabitado, sem alma, apenas vegetando por aí.
Quando me deixei inspirar demais por alguém, abandonei a mim mesmo vagando pelos cantos, perdido, completamente perdido de mim.
E o mundo, o que é?
Talvez seja apenas teoria. Tenho a minha: nós todos somos uma bola solta no espaço, como bolhas de sabão. A esfera é o princípio de tudo. Ela está em tudo. Somos a bola e jamais sairemos dela. Estamos dentro de uma bola, viemos de outra bola.
Muita gente gosta da bola da vez, do agora. O mundo continua gestando seres vivos até o fim.
E no fim… são duas bolas: dois olhos se fechando.
Duas esferas deixando de enxergar.
Então vem o breu. O nada. O não mais sentir.
O mundo para de girar para aquele ser que já não vai mais amar a bola da vez.
Tudo segue girando, transformando o que existe até este exato momento, mexendo no que carrego aqui dentro, nesse meu conformar de existir.
Tenho olhos que ainda enxergam o meu mundo de agora, enquanto me vejo vivo, imaginando esse nosso tudo que transforma tudo o que vive — e continua vivendo.
Por enquanto, sigo buscando uma maneira.
Nessa minha condição real, quem sou eu por aqui? Por que preciso tanto desse complemento? Quero minha estação, quero desistir, quero fugir dentro desse meu próprio existir.
Que sensação é essa que me doma por inteiro?
Algo em mim vai partindo aos poucos. Estou cada vez mais esfacelado, multifacetado, apenas cumprindo aquilo que me foi imposto.
Agora refaço todas as minhas paradas, uma por uma, em ordem de chegada.
Então olho para o mais alto.
Agora vejo a Lua — essa bola gigante iluminando outra bola.
A Lua, satélite suspenso no vazio, enorme esfera refletida no céu.
Uma bola iluminando outra bola.
E talvez exista uma bola capaz de salvar ou corromper a humanidade: a mesma que abre as portas da vida e desperta a ganância dos homens.
22/05/2026
Noite


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