Ensaio Sobre o Tempo



                   02 de maio de 2026

Bom dia. Hoje é dia 2 de maio de 2026.
Como começar a falar sobre algo que mexe tanto com a gente? Como iniciar este texto e fazer com que ele pareça uma escrita à mão — orgânica, sentida — e não apenas um desabafo falado e transcrito?
​Ando treinando muito ultimamente. Já faz alguns anos que venho escrevendo à mão, escrevendo de verdade, mais do que antes. Escrevi muitas coisas. Não sei se é porque peguei a prática, mas, de repente, me vejo preenchendo o verso de folhas de papel que trago do trabalho, movido por uma vontade súbita. Li muito sobre escritores que tinham suas manias e necessidades. Veja o caso de Carolina Maria de Jesus. A história dela é fascinante. Antes de ler Quarto de Despejo, pesquisei sobre ela. Fui hipnotizado por aquela figura: uma mulher pobre, humilde e escritora, vivendo na favela do Canindé, em São Paulo.
​Ela catava papelão, morava em um barraco precário e era uma sonhadora. Relatava as dificuldades de criar os filhos e a dureza daquela gente difícil de lidar, mergulhada na miséria. Mas, quando ela ia para o centro da cidade buscar papel, sentia-se em um lugar mágico. Ali ela era feliz. Ela escrevia nos cadernos que achava no lixo, em embalagens de pão — naquelas "bengalas" típicas de São Paulo. Ela escrevia onde podia.
​Mas não era só ela, a mulher humilde. Escritores ricos também precisavam de estímulos curiosos. J.K. Rowling, a autora de Harry Potter, rascunhou seus primeiros capítulos em guardanapos de um café na Escócia, enquanto fugia do frio e enfrentava uma fase de extrema dificuldade com sua filha pequena. São as manias que nós, escritores, temos para nos sentirmos estimulados. Muitas vezes, começamos sem saber o que dizer e, no decorrer das linhas, encontramos o assunto.
​É como a vida. Às vezes ela parece tediosa, mas, no final, ou diante da sensação da morte — como em uma gripe forte que nos faz divagar sobre o fim — tudo ganha uma dimensão profunda, espiritual e sagrada. Parece que só damos valor ao "estar vivo" quando sentimos a fragilidade da carne. Talvez o melhor momento da vida seja esse vislumbre da finitude.
​Mas eu não queria falar apenas de filosofia. Quero falar de alguém especial. Alguém que amo até hoje, com um amor que não acaba. Sinto vontade de chorar agora, porque sinto a presença dessa pessoa que amo há oito anos — completará oito anos agora em julho. Ela se tornou parte de mim.
​Em 2018, quando a conheci, relutei. Tive medo de que ela dissesse "sim", e acabei me apegando ao seu "não". Coloquei-a em um pedestal. Foi bom e triste ao mesmo tempo. Idealizei uma vida para nós dois. Na última segunda-feira, de madrugada, falei sobre isso e não me canso de repetir. Esta semana senti que poderia correr atrás novamente, insistir naquilo que já me foi negado três vezes.
​Respeito. É o que peço e o que dou. Respeito por quem a pessoa é, do jeito que ela é. Ninguém está aqui para prejudicar ninguém, mas vivemos cercados por olhares julgadores, por "gentalhas" que nada fazem além de vigiar a vida alheia. Pergunto-me: será que ele vê em mim alguém significante? Não peço que ele me queira como companheiro, mas ele negou até a minha amizade. Comunicamo-nos por mais de um ano pelo WhatsApp, mas, quando o convidei para conversar pessoalmente, ele não quis. Isso mexe comigo.
​A vida toda as pessoas tentaram me diminuir. Tentaram me tratar como uma "presa fácil" ou um idiota. Mas não deixarei que pisem em mim. Nem pai, nem mãe — que foram os primeiros a não acreditar, os primeiros a ver em mim uma impossibilidade. Se me tornei alguém desacreditado, foi porque eles plantaram essa semente. Ninguém pegou na minha mão para dizer: "você vai conseguir".
​Eu era aquele menino pobre, de imaginação fértil. O menino que fazia maquetes e casinhas de barro, que poderia ter sido arquiteto ou engenheiro, mas via suas construções serem pisoteadas no dia seguinte. O menino que plantava feijões no quintal e que hoje, quase 40 anos depois, ainda se pergunta: será que aqueles feijões ainda estão lá? Eles eram o despertar da minha vocação.
​Aquele menino sou eu. Este homem adulto, quase velho, que ainda se porta como uma criança porque tem medo dos olhares. Medo daqueles que usam o pequeno poder que têm para humilhar os outros. Não falo de poder financeiro, mas do poder de quem pode oprimir e abusa disso. Pessoas que mentem, distorcem e pisam nos vulneráveis para se sentirem superiores.
​Aprendi que, se o mundo não muda, nós temos que mudar. Temos que saber nos impor. Eu sofri muito porque dei poder a essas pessoas; mostrei-me frágil, bobo, simpático demais. Mas a ruindade não escolhe cor ou classe social. Existe maldade tanto no rico quanto no miserável. E quando alguém é ruim, usa de golpes baixos para nos manter no chão.
​Dizem que, com cobra, não se brinca: é preciso pisar na cabeça para que ela não volte a dar o bote. Falo no sentido figurado. É preciso ser firme para que os maus sintam medo, já que não conhecem o respeito. O respeito verdadeiro reconhece o valor do outro, sem intimidação.
​O texto não era para ser sobre isso, mas a emoção me trouxe até aqui. Voltando àquela pessoa: ela se mostra esquiva, perdida, dizendo que a vida não tem sentido. Mas eu ainda tenho esperança. Já vivi quase meio século, e sinto que ainda poderia ter alguns anos de "magia". Quero tentar viver essa sensação, descobrir se vale a pena encontrar alguém que some.
​Ninguém é totalmente feliz. Mesmo quem tem todo o dinheiro do mundo está preso a um corpo que envelhece, que adoece, que desaba. Estamos todos presos na carne. A diferença é que quem tem menos, talvez, ainda consiga manter algo que o poder muitas vezes corrói:
​A esperança.

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