A Menina do Cabelo Vermelho
“A Menina do Cabelo Vermelho”
Oi, Eliene.
Tudo bem?
Agora, para você, talvez esteja tudo em paz.
Quem não está bem são os que ficaram: seus pais, seus filhos, irmãos, amigos, conhecidos… todos tentando entender como alguém tão cheia de vida pôde partir assim, tão cedo.
Mas essa é a lei da vida.
A lei do que chega e, um dia, precisa ir embora.
E você se foi.
Não sei se por descuido do destino ou porque já estava escrito que o seu tempo aqui seria breve. Gosto de acreditar que tudo possui um tempo certo neste mundo. O seu apenas terminou cedo demais — e talvez por isso a notícia tenha nos abalado tanto.
Ninguém espera que uma pessoa jovem vá embora assim.
Se pudéssemos escolher, ficaríamos. Todos ficaríamos. Até não poder mais. Porque, apesar de tudo, ainda é bom estar aqui.
Conheci você em 2018, quando comecei a trabalhar naquela empresa. Você havia entrado um pouco antes de mim. Eu te via pelos corredores e nada sabia sobre a sua vida. Para mim, você era apenas “a menina do cabelo vermelho”.
Eu imaginava que tivesse uns vinte e poucos anos. Seu jeito tinha algo de menina ainda: reservada, misteriosa, séria. Lembro de uma vez em que o gerente comentou, durante uma entrevista na sala:
— Ela é a menina que não ri.
E então você sorriu.
Foi a primeira vez que percebi que havia alguma delicadeza escondida por trás daquele silêncio.
Naquela época eu ainda não conhecia sua história. Não sabia da mulher que havia deixado sua terra, vindo para outra cidade com dois filhos e a coragem de recomeçar. Aos poucos fui entendendo quem você era.
Você era uma mãe guerreira.
Daquelas mulheres que enfrentam a vida sem fazer barulho, apenas seguindo em frente porque precisam dar o melhor para os filhos.
E trabalhava como poucas pessoas trabalham.
Eu via sua eficiência todos os dias. Enquanto eu me enrolava no serviço, lento do meu jeito, você frequentemente me ajudava sem reclamar. Tinha uma paciência absurda. Sempre fazia o revezamento do almoço comigo. Às vezes almoçávamos na mesma mesa, antes da pandemia mudar o mundo e afastar as pessoas umas das outras.
Você me emprestava suas faquinhas quando eu precisava. Nunca vi você responder atravessado ou fazer cara feia. Era tranquila. Simplesmente tranquila.
Foi no segundo turno que passei a te conhecer de verdade.
A madrugada acabava com a gente. Parecíamos zumbis — nós mesmos dizíamos isso. O dia era diferente. No segundo turno você parecia mais viva. Tinha suas amizades, suas coleguinhas, ria mais. Existia uma leveza maior em você.
Lembro da primeira vez que te vi.
Era uma madrugada de domingo. Estávamos sentados nos bancos do lado de fora do refeitório: eu, você e a Dani. Você permanecia quieta, observando. E eu, naquela noite, estava destruído por dentro, amaldiçoando a vida, o trabalho, tudo. Queria desaparecer.
Você só olhava.
A gente ainda nem se conhecia.
E, mesmo assim, lembro de ter pensado comigo mesmo:
“Será que algum dia vou conversar com a menina do cabelo vermelho?”
Conversei.
E guardo até hoje uma lembrança simples, mas boa, de quando pegamos o mesmo ônibus. Eu normalmente ia em outra linha, mas naquele dia precisava passar pelo centro para buscar minha moto na concessionária. Peguei o ônibus que você pegava.
Fomos conversando durante o caminho.
Na verdade, eu falando mais do que você — porque você falava pouco. Era o seu jeito.
Mas aquilo bastava.
Havia sinceridade em você.
Depois veio a mudança de turno novamente. Falaram em voltar para a madrugada. Eu disse que não voltaria. Você também não queria. Ainda tentei convencer você por causa do adicional noturno, dizendo que ajudaria financeiramente.
Mas você recusou.
E estava certa.
Você parecia feliz trabalhando de dia.
O líder te deixou na mesma função, e você fazia aquilo numa velocidade impressionante. As tampas passavam sem parar e você conseguia pegar, rebarbar e embalar tudo com uma rapidez absurda.
Às vezes penso na crueldade dessas rotinas. Na pressão colocada sobre pessoas simples, pobres assalariados tentando sobreviver. Quem está acima quase nunca quer saber se estamos cansados, tristes ou quebrados por dentro. Querem apenas produção.
E você seguia firme.
Porque tinha filhos. Porque tinha responsabilidades. Porque precisava continuar.
E eu admirava isso em você.
Por isso foi tão difícil acreditar quando soube da sua morte.
Você fazia academia havia anos. Tinha o corpo bonito, forte, saudável. Parecia alguém cheia de vida. Não parecia possível que pudesse partir daquele jeito.
E então veio a Covid.
Lembro quando tudo começou, no início de 2020. O gerente reuniu todo mundo no fim do turno para falar sobre a pandemia que estava chegando. Ninguém entendia direito o que estava por vir.
Quem imaginaria?
Você se tornou mais uma vítima daquela onda terrível que atravessou o mundo destruindo famílias inteiras.
E todos nós continuamos sujeitos.
Na manhã em que soube da sua morte, acordei angustiado. Uma angústia estranha, pesada, sem explicação. Horas depois vi o storie da Dani no Facebook.
E era você.
Naquele instante não consegui acreditar. Pensei que talvez fosse engano.
“Como assim ela morreu?”
Mas era verdade.
E doeu perceber isso.
Porque eu havia pensado em procurar você novamente. Pensei em resgatar nossa amizade. Eu tinha acabado de comprar um apartamento perto de onde você morava. Seríamos vizinhos.
Talvez nos encontrássemos por acaso.
Talvez voltássemos a conversar.
Mas a vida não espera nossas vontades atrasadas.
A gente nunca deveria deixar para depois aquilo que sente. Nunca deveria ignorar quem nos toca de alguma forma, como se fôssemos eternos.
Não somos.
Uma hora a gente vai. E não existe volta.
Por isso deveríamos cultivar mais a consideração pelas pessoas enquanto elas ainda estão aqui.
E agora você não está mais.
Voltou para sua terra para ser sepultada. Partiu deixando filhos, família, amigos e saudade.
Mas passou pela vida de muita gente deixando algo raro: uma marca boa.
E eu nunca vou esquecer da menina do cabelo vermelho.


Comentários
Postar um comentário