A Cidade ao Contrário
A Cidade ao Contrário
Gosto de contos.
Sempre achei o conto uma forma curiosa de narrar a vida: breve, direta, com um desfecho que, mesmo quando chega, parece que poderia continuar. É como a vida da gente — acontece, segue, e às vezes termina quando ainda havia tanto para viver.
Talvez por isso, em momentos difíceis, alguém que está partindo sinta que não viveu o suficiente. Como se a história não devesse acabar ali.
Mas isso é só um pensamento.
Agora mesmo, enquanto falo, escuto um barulho. Não é de hoje — é antigo, recorrente. Às vezes parece uma furadeira, alguém trabalhando com madeira, fazendo algo contínuo, insistente. Mas não faz sentido. Nunca vi ninguém fazendo isso por aqui, e, considerando a altura, seria improvável… e também inconveniente.
Enfim.
Volto ao conto.
O nome: A Cidade ao Contrário. Ou talvez A Cidade Dupla. Ainda não sei.
A ideia surgiu depois de ver uma reportagem sobre prédios com fachadas bonitas, mas que por dentro não são o que parecem — apenas estruturas técnicas, cheias de fios, máquinas e sistemas escondidos. Aquilo me fez pensar: e se tudo tivesse dois lados? Não só por dentro e por fora, mas frente e verso, como uma folha de papel.
Assim nasceu a cidade.
Não sei onde ela fica. Pode ser no Brasil, pode ser em qualquer lugar do mundo. É pequena, quase uma vila, escondida. Mas quando alguém chega até ela, percebe que há algo estranho.
De longe, parece normal.
De perto… não.
A cidade parece fina, quase sem espessura, como se fosse feita de papel. E quando você a atravessa — quando olha “do outro lado” — tudo muda. Não completamente. Mas o suficiente para causar desconforto.
Foi assim que uma pessoa chegou ali.
Não importa quem. Não sabemos se era homem ou mulher, jovem ou velho. Era apenas alguém dirigindo um carro que começou a dar problema.
Entrou na cidade procurando ajuda. Uma borracharia, talvez.
E então começou a perceber.
As pessoas não eram… únicas.
O primeiro atendimento foi de um senhor. Um homem mais velho, aparentemente comum. Mas quando ele se virou… era outro. Um jovem, talvez de vinte anos, no mesmo corpo.
Não era troca. Não era ilusão momentânea. Era simultâneo.
Como se cada pessoa tivesse dois lados reais.
Um cachorro passou. De um lado, escuro. Do outro, claro.
Um gato: metade preto, metade branco — mas não misturado, separado em lados distintos.
Uma criança corria descalça, despenteada… virou-se, e era outra: arrumada, limpa, quase irreconhecível.
Uma senhora, ao girar o corpo, tornava-se uma jovem.
Tudo ali era assim.
Frente e verso.
Duas versões coexistindo no mesmo corpo.
A pessoa que dirigia começou a duvidar de si. Pensou se havia ingerido algo, se estava sonhando, se aquilo era algum tipo de alucinação. Mas não. Tudo era concreto demais para ser sonho.
E não eram só as pessoas.
As casas também tinham dois lados. A mesma casa — mas diferente dependendo do ângulo.
A prefeitura, o bar, o posto de gasolina — tudo mudava ao ser visto por outro lado.
Até o tempo parecia duplicado: de um lado era dia, do outro noite. Chovia e fazia sol ao mesmo tempo.
Era um mundo sobreposto.
Um só… e dois.
A pessoa parou num bar. Pediu algo. Observou.
No balcão, o atendente era um. Ao virar, outro completamente diferente.
Os clientes, o ambiente, tudo seguia essa lógica impossível.
E ainda assim… ninguém parecia estranhar.
Só quem vinha de fora.
Havia medo, sim. Mas também fascínio.
Uma sensação de estar vendo algo que talvez não devesse ser visto.
Depois de algum tempo, o carro foi consertado.
Era hora de ir embora.
Mas havia um problema.
Não havia saída.
As ruas levavam a outras ruas. A cidade se estendia além do esperado. Pequena por fora, infinita por dentro. O que parecia uma vila virou estrada, depois rodovia, depois um percurso sem fim.
Sem placas. Sem direção.
Só continuidade.
A pessoa dirigiu por quilômetros. Dez. Cinquenta. Cem.
E a cidade continuava.
Repetindo-se. Transformando-se. Sempre dupla. Sempre a mesma e outra ao mesmo tempo.
Tentou voltar.
Não conseguiu.
Porque ali, voltar não existia.
Voltar era um luxo.
E nem todos têm esse privilégio.
Fim


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