Será que esse ônibus vai passar?
E por que eu ainda estou aqui, na janela do meu apartamento, olhando para a avenida, esperando esse ônibus passar?
Algumas vezes eu fiquei aqui, olhando. Ele passava. Outras vezes, não. E eu ficava naquela angústia, esperando, pensando: será?
E então eu dava por encerrada toda uma era. Porque eu ficava preso naquilo — no passado que eu construí. Um passado feito de recortes, de momentos, de uma história inteira minha, com trilhas sonoras que mudavam com o tempo.
Era como uma série de TV. A cada ano, uma nova temporada. Novos acontecimentos. Novas músicas.
Em 2018, tudo aconteceu. E eu, ouvindo aquelas músicas, me localizava em cada sensação. Em cada emoção.
Quando chegou 2019, era outra fase. Outra trilha.
Depois veio 2020 — e, com ele, a pandemia. Uma catástrofe mundial. Máscaras, isolamento, medo. O mundo inteiro mudando… e tudo sendo inserido dentro da minha história.
E eu pensava: será que o mundo está acabando?
Mas eu continuava ali, firme, preso àquilo que começou em 2018. Aquela história ainda estava viva dentro de mim, mesmo em meio ao caos, à morte, ao medo.
E se tudo acabasse de repente? Eu morreria apegado àquilo? Ou correria até essa pessoa para dizer: “Eu te amo. O mundo vai acabar e eu preciso te dizer isso”?
Naquela época, eu acreditava que ele também me amava. Que ele diria de volta: “Eu também te amo.”
Mas veio 2021… tão quebrado, tão fragmentado. E, ainda assim, eu continuava preso àquela história. Não com a mesma força do início, mas com esperança.
Esperança de construir algo. De comprar um lugar. De chamá-lo para viver comigo. De dizer: “Vamos viver enquanto o mundo ainda existe.”
Havia coragem. Havia sonho.
Até que tudo mudou.
Eu trabalhava com ele. E então saí de lá. Fui dispensado, junto com outras pessoas.
Ele ficou.
E eu pensei: “Agora eu vou me libertar. Isso só existe porque estou aqui.”
Mas não.
No dia em que fui embora, peguei minha moto, entrei na estrada e gritei: “Estou livre!”
Mas, quando cheguei em casa, desabei.
Era como um luto. Como se eu tivesse perdido alguém.
Eu não conseguia dormir. E, quando dormia, sonhava com ele. E acordava com uma angústia enorme.
Eu pensava: isso não pode ser normal.
Nunca senti algo assim antes.
Já me apaixonei outras vezes, mas nada com essa intensidade. E, mesmo sem estar com ele, mesmo sem vivê-lo de fato, ele continuava dentro de mim.
E aqui estou eu, agora, à meia-noite, olhando para a rua… esperando o ônibus dele passar.
Mas o ônibus não passa mais.
Mudaram a rota.
E talvez seja isso: o ciclo acabou.
Mas eu ainda estou aqui, tentando retomá-lo. Tentando trazer de volta algo que talvez nunca tenha sido real — mas que, dentro de mim, ainda parece possível.


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