Ontem Pensei que te Vi.



Ontem pensei que te vi.
E não foi só ver — foi reconhecer. Ou achar que reconheci. Porque existe uma diferença sutil entre enxergar alguém e reencontrar uma história inteira comprimida num segundo de descuido.
Eu estava descendo a rua de moto, como quem não espera nada além do vento no rosto e do caminho até em casa. A cidade seguia no seu ritmo automático: gente passando, portas meio abertas, um fim de tarde qualquer tentando parecer importante. E então, numa esquina dessas que não prometem nada, olhei à direita.
Por acaso.
E foi aí que você apareceu.
Ou melhor — foi aí que a ideia de você apareceu. Porque era um rapaz qualquer, desses que a gente cruza e esquece. Boné hip hop, barba bem feita, óculos de grau, camiseta ajustada, calça de sarja bege. Um conjunto tão específico que não devia significar nada… mas significou tudo.
Porque, por um instante, aquele corpo vestia a sua ausência.
Engraçado como a memória não guarda pessoas — guarda detalhes. A cor da calça, por exemplo. Vinho. Eu não lembro exatamente do dia em que te conheci, nem da música que tocava, nem do que foi dito com precisão. Mas lembro da calça vinho. Lembro porque não era descuido. Era escolha. Era intenção.
E intenção, você sabe, nunca é inocente.
A gente se veste para ser visto. Para provocar leitura. Para ocupar um espaço no olhar do outro. E você sabia disso. Talvez ainda saiba. Talvez ainda ande por aí, em alguma outra rua, compondo versões de si mesmo para desconhecidos que, como eu, podem te confundir com alguém que já foram.
Segui alguns metros depois de te ver — ou de ver aquele quase você — mas algo ficou mal resolvido. Não era curiosidade simples. Era uma espécie de dívida com o passado. Como se eu precisasse confirmar que o mundo ainda obedece a uma lógica mínima, que as pessoas não reaparecem assim, sem aviso, dobrando esquinas.
Voltei.
E essa é sempre a parte mais perigosa: voltar.
Porque voltar nunca é sobre o lugar. É sobre o que a gente espera encontrar ali. E quase nunca encontra.
Passei de novo pela mesma rua. Procurei o boné, a barba, os óculos, a camiseta, a calça bege — procurei você dentro de um outro. E não era. Claro que não era. Nunca é.
Mas também não sei dizer com tanta convicção assim.
Porque existe um tipo de presença que não depende do corpo certo. Às vezes basta um gesto, uma silhueta, uma combinação improvável de traços — e pronto, lá está você de novo, ocupando alguém que não tem nada a ver com isso.
Segui caminho.
Mas levei comigo aquela dúvida pequena e insistente: e se fosse?
E se, por um desses caprichos discretos da vida, você tivesse passado por mim sem saber? E se eu tivesse te reencontrado sem coragem de reconhecer? Ou pior — e se eu só precisei de um estranho qualquer para admitir que ainda te procuro nas esquinas mais improváveis?
No fim, talvez não importe.
Porque ontem eu pensei que te vi.
E isso, de algum jeito, já foi te ver de novo.

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