Eu, Carlos & Clarice
Eu, Carlos e Clarice, numa
manhã de Domingo
Naquela manhã, fui à banca comprar o jornal de domingo. Era preciso saber dos acontecimentos, principalmente os da televisão, do meio artístico, cultural e tudo o mais. Voltei para casa pedalando minha bicicleta por aquelas ruas meio desertas.
Eu estava feliz. Tinha o jornal de domingo, com a revistinha sobre o meio artístico, e isso me enchia de esperança de viver um dia que, para muitos, seria monótono — um dia de quem não sai para lugar nenhum, apenas fica em casa, curtindo suas coisas, escrevendo e escrevendo.
As ruas estavam vazias. O povo saíra para outros lugares, e o centro da cidade ficava isolado em um dia desses.
Domingo era um tédio. Mas, mesmo sendo um tédio, eu sabia transformá-lo em um dia bacana, com ideias sensacionais que me levavam a pensar em formas de viver — ainda que fosse apenas na imaginação.
Eu seguia pedalando minha bicicleta, e gostava. Era bom. Com tantos veículos por aí, andar de bicicleta colaborava muito com o meio ambiente — não poluía. E também porque eu não tinha carro. Bicicleta não era opcional, mas eu curtia. Em um dia desses, era ainda melhor: sentir a vida, olhar com mais atenção as coisas que normalmente ignoramos por falta de tempo.
Nisso, o jornal dentro da mochila começou a pulsar.
De início, achei que havia algo dentro. Era o jornal dobrado que se mexia nas minhas costas, como se algo vivo estivesse ali. Parei a bicicleta e tirei a bolsa. Quando a abri, senti algo estranho me invadir.
De dentro saíram um homem e uma mulher.
Eles pareciam — e eram — dois intelectuais.
A mulher tinha a aparência da minha querida escritora Clarice Lispector. O homem, um senhor, era o poeta Carlos Drummond de Andrade.
— No meio do caminho tinha uma pedra — disse ele, assim que olhou para mim.
Clarice completou:
— Perto do coração selvagem.
Não acreditei.
— Não... eu não posso estar vendo isso!
Ela sorriu:
— Sim, pode acreditar, meu jovem.
E Drummond disse:
— Viemos lhe proporcionar um convescote.
— Um convescote?
Rapidamente, Clarice tirou um dicionário do bolso do vestido.
— Um piquenique. Perdoe, rapaz. Somos de outra época e precisamos traduzir certas palavras que hoje não se usam mais.
— Ele sabe — disse Drummond. — O rapaz é culto.
Clarice sorriu. Aquele sorriso de boca vermelha e olhos verdes, enigmáticos, mas de uma doçura evidente.
Eu tinha apenas vinte e cinco anos. Não cheguei a conhecer aqueles dois gênios em vida. Quando nasci, já haviam morrido há muito tempo.
E agora estavam ali, diante de mim.
— Eu sou... — começou Clarice — eu sou quem você ainda não conhece.
— A senhora é Clarice Lispector — respondi.
— A figura pública você conhece. Mas a verdadeira pessoa... ainda não.
Ela acendeu um cigarro.
— Incomoda?
— De modo algum. Pode fumar à vontade.
Drummond entrou na conversa:
— O que você faz, rapaz?
— Eu escrevo ficção... e me arrisco na poesia. Sou fã dos dois. Ver vocês aqui... não pode ser real. Acho que sofri algum acidente...
— Na verdade — interrompeu Clarice — estamos os três aqui. Vamos ao nosso convescote. Lá conversaremos sobre literatura.
De repente, estávamos sobre a relva, diante de uma cesta de vime. Clarice, delicadamente, foi tirando os alimentos e nos servindo.
Uma linda manhã de domingo que eu jamais esqueceria.
Nós três, ali, conversando sobre tudo.
Clarice parecia jovem, assim como Drummond. Vieram jovens — talvez por eu também ser.
Ela estava elegante, como nos tempos áureos. Não era a Clarice do fim da vida, mas uma que eu nunca conhecera — e que agora conhecia um pouco.
Falamos de poesia. Eu mencionei “E agora, José?” e meus encantos pela literatura deles. Falei dos romances que mais me marcaram.
No fim, me presentearam com seus livros.
— Ainda escreverei sobre nós — eu disse.
— Vai escrever — respondeu Clarice, acendendo outro cigarro. — Vai ser um grande escritor.
E completou:
— Seja você. Dê mais tempo à literatura. Entre nela. Porque, se estiver fora, se sentirá como um morto. Só será vivo quando estiver dentro dela. A literatura é morada... é a sua alma.
Logo depois, pediram que eu abrisse o jornal.
Abri.
Eles se despediram.
Clarice pegou a mão de Drummond e deu um passo à frente.
— Boa sorte, rapaz — disse ele.
— Até um dia — disse ela.
E desapareceram dentro da página sobre literatura.
Olhei o jornal.
Lá estavam suas fotos. As mesmas de sempre. Notas sobre suas obras.
E aconteceu o que eu não imaginava — mas, de algum modo, imaginei.
Eu, Carlos e Clarice, numa manhã de domingo.
Valeu pela imaginação.
E eu estive com eles.
Sim… eu estive.



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