Aquela conhecida chamada Clarisse

Uma vez pedi uma caneta a uma colega de classe.
Não pela utilidade do objeto, mas pelo desejo de guardar uma lembrança de uma moça tão simpática.
Na época, eu mesmo não entendia direito por que queria aquela caneta — já usada, dessas de propaganda de clínicas ou empresas. Ainda assim, havia algo nela que me chamava.
Aproximei-me, sentei na frente da carteira dela, peguei a caneta e disse:
— Dá pra mim essa caneta?
Ela, com toda a sua doçura, respondeu:
— Não posso, meu amor. Só tenho essa. Se eu tivesse outra, eu te dava.
E eu queria aquela caneta. Não pelo objeto em si, mas pelo valor sentimental que, mesmo sem perceber, eu já nutria por ela. Era uma moça jovem, obesa, mas de uma simpatia e alegria de viver sem igual.
Nós nos encontrávamos no trajeto para o trabalho. Íamos de bicicleta. Lembro de uma vez em que fazia muito frio — era 1994, e naquela época parecia esfriar de verdade… ou talvez fosse só porque eu não tinha um agasalho adequado.
Eu estava sem luvas, com as mãos congelando. Ela também estava exposta ao frio, mas não parecia sentir da mesma forma. Seguíamos juntos para mais um dia triste de trabalho, mas, ainda assim, ela mantinha aquela leveza.
A gente se conhecia pouco, mas o suficiente para reconhecer nela aquela simpatia constante.
E naquele dia, na sala de aula, quando pedi a caneta, eu queria algo dela — uma lembrança. Não era necessidade, era afeto.
Sabe qual era o nome dela?
Clarice. Com “s”, como se escreve normalmente. Não com “C”, como Lispector.
Naquela época, eu nem sabia quem era Clarice Lispector. Só conhecia aquela Clarice — ou talvez mais alguma, já nem lembro bem.
Fui descobrir a escritora anos depois, ao ver uma reportagem…
E, de algum modo, aquele nome voltou.
Mas não como literatura.
Como memória.

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