Aquela Chance
Aquela Chance
Até hoje eu não sei seu nome. Não me interessei em saber, de primeira. Era só o que os meus olhos desejosos viam naquela tarde de verão, de chuva torrencial. Eu estava indo para a faculdade. Tinha que chover logo naquele dia, e eu pegar o ônibus, e justamente naquele ônibus encontrar alguém que também estaria ali — por algum capricho dos deuses — para que nós dois nos cruzássemos e talvez vivêssemos uma noite, ou outros dias… quem sabe.
Mas não posso contar já de início. Primeiro preciso dizer como aconteceu.
Eu tinha vinte e oito anos, embora parecesse ter vinte, dezenove. Novinho, quase chegando aos trinta. Estava no começo da faculdade de jornalismo, cheio de fascínio por tudo que envolvia ler jornal, se informar, escrever — por hobby, por alma. Sonhava um dia me tornar um grande escritor. De lá para cá já se passaram quase dez anos. Tranquei o curso naquele mesmo primeiro semestre, por desânimo. Não me tornei o grande escritor, nem publiquei nada. Mas tudo bem. O escritor pode existir até depois de morto — essa é a vantagem. Talvez, um dia, algo aconteça com tudo isso que insisto em escrever, por necessidade de espírito.
A vida é cheia dessas surpresas.
Mas vamos lá, antes que eu enrole demais. O conto pode ser curto, porque os acontecimentos foram curtos. Não há muito o que dizer além do que foi… e do que poderia ter sido. Até hoje me penitencio pela burrice. Deixei escapar alguém que encheria os olhos de muitos — e os meus encheram. Era pra mim. Tenho certeza disso. Mas deixei passar, por medo, por falta de tempo.
Estávamos nos entrosando. Com uns dez minutos a mais nós teríamos chegado a um acordo. Tinha que ser rápido, porque nossos corpos chamavam um pelo outro. Nossos olhos se olhavam fundo. Nossas bocas pediam… ah, como pediam.
Estava chovendo forte. Peguei o ônibus, e assim que chegou ao centro, parou perto do calçadão. Foi quando entrou aquele único passageiro. O ônibus estava quase vazio — só eu e mais uns três. Eu, sentado lá no fundo, como se estivesse no sofá da minha sala. Havia um rapaz feio, meio “mano”, e duas outras pessoas mais à frente. Nada me chamava atenção, até ele entrar.
Um menino branquinho, com jeito de rico, meio louro, muito bonito. Impressionante. Alto, magro, jovem — calculei uns vinte anos. Ele perguntou o preço da passagem, disse não ser da cidade. Passou na roleta e logo puxou conversa com a senhora negra que estava ali. Foi aí que percebi seu jeito: falante, expressivo, sem pudores. Aquele tipo de gay que não quer esconder nada. Conversa, gesticula, se abre. Era exatamente assim.
E quando olhou discretamente para mim, senti o impacto.
O ônibus entrou no terminal, onde todos teríamos que descer para pegar outro. A chuva era forte, ventava, fazia frio. A cobertura do terminal não servia pra nada — chuva de vento molha tudo. Era fim de tarde, quase noite, e o clima parecia cenário de filme romântico em dia errado. Era semana de carnaval, e por perto uma escola de samba ensaiava; o som da batucada ecoava no ar úmido.
Descemos. Ele sentou ao meu lado no banco, entre mim e a senhora negra. O ônibus dela chegou, e então ficamos só eu e ele — por três minutos que pareceram eternos e pequenos ao mesmo tempo.
Ele veio pra perto, desejoso. Eu percebi. E, claro, eu também estava desejoso. Sua beleza faria qualquer um ceder sem pensar duas vezes. Conversamos rápido: falei da faculdade, ele falou que era jornalista recém-formado, estava na cidade por causa de uma matéria sobre um supermercado que seria inaugurado. E falávamos próximos demais, pernas encostadas, respiração quente. Minhas pupilas… as dele… tudo era vontade.
Mas quando a gente quer tempo, o tempo corre. E quando não quer, ele não passa. Nosso tempo correu.
Os nossos ônibus chegaram. Um atrás do outro. Me deu vontade de gritar. Era como se o destino tivesse esperado a gente se aproximar para então cortar o barato, nos separar sem dó.
Olhei para ele, decepcionado. Ele me olhou do mesmo jeito. Foi quando pegou na minha mão e desejou boa sorte. Eu desejei de volta. Não perguntei seu nome. Ele não perguntou o meu. Talvez os dois tivessem medo. Talvez fosse o lugar, as circunstâncias. Talvez fosse só azar.
Entramos nos ônibus. Eu sem olhar para trás. Sem vontade nenhuma de ir. Estava arruinado. Queria chorar. Quase desci correndo para ir até ele e confessar tudo — que queria uma noite mágica com ele, ali, com chuva, com frio, com batucada distante, com o romantismo involuntário daquele encontro improvável.
Quase fiz isso… mas não fiz.
Segui meu caminho, pensando nele o trajeto inteiro. Um menino lindo, porte de rico, educado, um sonho para qualquer apaixonado. Um presente que caiu no meu colo e que eu deixei escorrer por entre os dedos.
Seu nome? Não sei. Posso imaginar muitos que combinariam com ele, mas nenhum encaixa. Ele era só ele. Sem nome. Eu, idem, para ele.
Já vão fazer dez anos que isso aconteceu. Hoje resolvi registrar esse encontro delicioso que não virou história — porque faltou coragem para ser feliz.


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