Tempo


Descubro meus passos indo assim, como tenho que ir: no devagar do meu tempo. Hoje, no último momento, algo novo se abriu — o último dia do mês se abriu. O ano começou, parece que ontem mesmo, mas, ao mesmo tempo, parece que já faz muito tempo. Veja como são as coisas: esse paradoxo do tempo. De repente, ele parece veloz, e ainda assim caminha a passos lentos — e a gente, tomado por toda essa ansiedade.
O tempo não passa; somos nós que passamos, numa pressa de fazer mais e mais, que acaba nos cansando com tantos acúmulos, sem nos dar o tempo necessário — o nosso tempo de absorção.
E eu sigo caminhando no meu tempo, muitas vezes sem conseguir realizar as minhas coisas, que têm sido tantas — muitas mesmo. Não consigo concluí-las, por mais que pense estar me organizando para realizar esses feitos. Estou procurando vários meios, olhando de diferentes formas, tentando encontrar um caminho contínuo. Agora, tateando, procuro me apoiar em alguma frase do presente que faça sentido e sustente o meu passo neste momento — algo que, ao mesmo tempo, me parece até cômodo.
Hoje está talvez melhor do que ontem. Ontem, beirei novamente aquele desespero. Senti que precisava sacudir, fazer sentir por todos os poros. Tive vontade de gritar — gritar porque senti que acordei para o real da minha existência. Quando a gente se dá conta de que, por mais que se esforce, ainda continuamos à deriva, pendendo de um lado para o outro.
Ontem eu pendia. Não tinha dormido direito, então estive suspenso no ar, pisando em ovos, com os nervos sensíveis demais. Eu estava insuficiente — e, quando isso acontece, ficamos vulneráveis a tudo: aos olhares, aos comportamentos, que passam a ser interpretados de forma distorcida. Às vezes, nem é sobre a gente. Um adulto vulnerável volta a ser aquela criança que foi desprotegida, sensibilizada por tudo.
Um adulto frágil precisa fazer muito para saber lidar e sair disso, porque, afinal, ele se armou de tantos saberes — e já sabe, de alguma forma, como enfrentar esses momentos reversos. Um adulto triste é mais triste que uma criança, pois ele precisa desfazer essa tristeza. Querendo ou não, terá que se conformar.
Se for alguém de nobre espírito, vai sair disso sem precisar machucar ninguém. Um outro, talvez, para se sentir melhor, acaba ferindo alguém, tentando curar alguma frustração que o colocou na contramão de si mesmo.
Um adulto solto por aí vai ter que sorrir, não desistir, porque a vida lhe ensinou que o mundo continua girando, apesar de todos os problemas. É preciso saber lidar, é preciso resolver.
Amanhã é sempre um novo dia. É tudo de novo.
30/04/2026, tarde.

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