Pairado no Ar
4 até quando.
Minha cabeça está em outra dimensão — e talvez eu queira isso, que fique assim, do jeito que está. Eu preciso que seja assim. Pelo menos por agora.
Deve ser bom para mim… ou não. Vai saber.
Fico pairado, tentando me organizar, tentando me transformar em outro. Mas, por enquanto, preciso continuar sendo esse de agora — o que levantou hoje às oito da manhã com a estranha vontade de ir até uma funerária escolher o próprio caixão, as coroas de flores, a roupa com que será coberto quando chegar a hora de se deitar nele.
Quando me deitarem ali — porque serei um morto pesado, duro —, como será esse processo? Como colocam um corpo dentro de um caixão? Nunca vi. Nunca procurei ver. Talvez queira ver agora. Talvez precise entender como se dá esse gesto tão mórbido.
Imagino algo quase mecânico. O corpo sobre uma mesa, o caixão mais baixo ao lado, e então o encaixe, o ajuste final. Como se fosse o empacotamento de algo qualquer. Acho que já vi algo parecido em um seriado americano que passava no SBT — “A Sete Palmos”. Mas não me lembro direito. E aqui no Brasil deve ser diferente. Cada lugar tem seu ritual, sua forma de lidar com o fim.
Quando digo que estou pairado, é disso que falo.
Como se estivesse suspenso entre a Terra e o resto do universo. Solto. Um corpo sem gravidade, à deriva entre a lua e as estrelas, como nos filmes de ficção científica.
E, nesse estado, algo em mim oscila.
Meu humor varia.
Uma hora estou triste.
Noutra, com raiva, irritado.
Depois, simplesmente indiferente — blasé.
E então recomeça.
Talvez seja o início de algo — depressão, quem sabe. Ou um estado cíclico, ciclotímico. Já passei por algo parecido lá pelos meus vinte anos. Não sei ao certo.
Agora, neste momento em que escrevo, estou relativamente bem. Dentro de uma rotina simples, pensando no que fazer quando chegar em casa. Mas não sei como serão os próximos dias.
Pode ser que eu tenha que atravessar um pouco desse caos.
Porque antes… estava tudo calmo demais.
E naquele silêncio, eu sentia um nada.
Agora, sinto um tudo misturado dentro desse mesmo nada.
E não sei no que isso vai dar.
No que isso vai se transformar.
Resta esperar.
04/05/2026
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