Eu cresci.
E como cresci.
Não sei dizer se vivi como deveria, mas fui colocando em mim aquilo que mais fazia sentido. Um crescimento quase secreto, silencioso, onde fui construindo, aos poucos, um entendimento próprio — possível, suportável, meu.
Foi uma longa jornada.
Um caminho que, na maior parte do tempo, eu não sabia exatamente qual era. Ainda assim, segui firme, sustentado por essa espera que é tão necessária no trajeto humano.
Houve um tempo em que eu estava propenso, aberto, mas sem saber como enxergar. Sem alcançar aquele real que só se revela quando algo dentro da gente amadurece.
Porque crescemos por fora — e isso é visível, rápido.
Mas o de dentro… o de dentro é lento. Às vezes cômodo, às vezes silencioso demais.
E talvez ele não queira enxergar como os outros enxergam.
Porque não somos os outros.
Quem sabe ele espere um outro ângulo.
Um olhar que consiga perceber o todo — de todos os lados possíveis.
E então fica a pergunta:
Como é crescer… e ainda não saber?
Eu cresci no meu tempo.
De forma demorada, particular, dentro da minha própria mente — confiando em mim, mesmo sem garantias.
E hoje, aqui, me reconheço nesse crescimento.
Talvez esteja colhendo o que plantei em mim.
Talvez ainda esteja aprendendo a confiar nesse caminho que é só meu.
Gosto desse jeito como as coisas vão se formando.
Desse movimento de me tornar aquilo que preciso ser, dentro dessa minha imensidão de continuar.
Porque, às vezes, eu erro.
Às vezes me perco de novo dentro desse processo de aprender a andar com a minha própria sabedoria.
Eu era o que sou.
E sou, também, aquilo que ainda não era — talvez por descuido.
De um infinito deixado inteiro, eu sigo.
Caminho dentro daquilo que sou hoje.
E me pergunto: que dia é hoje?
Ontem senti algo estranho — um esquecimento.
Como se eu não pertencesse ao tempo.
Esse tempo inventado por alguém que chegou antes, que precisou organizar tudo: dividir, nomear, dar forma ao contínuo.
E, por um instante, eu me esqueci disso.
Esqueci o calendário. Esqueci as horas.
E pensei: será que eu estou mesmo dentro disso?
Quis permanecer assim.
Ficar nesse estado sem medida, sem contagem.
Até onde fosse possível sentir.
Até onde eu pudesse enxergar algum novo propósito para voltar a entender… ou lembrar do que já soube um dia e, com o tempo, esqueci.
Hoje…
O que dizer de hoje?
O tempo está ameno. É outono.
E isso nos alivia — diferente do calor, que pesa, que cansa.
Seguimos pelos mesmos caminhos, pelos mesmos lugares.
Repetimos trajetos, quase sem perceber.
E há uma espera.
Dentro dela, caminhamos como se estivéssemos vestindo uma armadura.
Algo que nos protege — e também nos prende.
Nosso corpo.
Uma espécie de jaula silenciosa.
Somos, de certo modo, prisioneiros do tempo.
E dessas formas que habitamos.
Até o dia…
Até o dia em que talvez ganhemos asas.
E então possamos nos libertar.
Voar.
Ir para um lugar que ainda não sabemos qual é —
mas que, de alguma forma, sentimos que existe.
05/05/2026 — tarde.
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