Talvez eu esteja como em um daqueles filmes de Federico Fellini, vivendo situações bizarras, quase como alucinações, tentando entender o óbvio. Sei que o cinema de Fellini não é exatamente isso que estou dizendo — falo sem ser especialista ou cinéfilo. Esse tipo de compreensão exige tempo, dedicação, algo de quem teve o privilégio de se aproximar da sabedoria, de estudar e tentar entender essa coisa estranha que é a vida: a falta de sentido, o desânimo que às vezes nos abate, e até o pensamento em alguma loucura, um desatino.

Talvez essa sensação — que nem é tão presente agora — venha das inquietações de Franz Kafka. Ou, indo além, de uma Virginia Woolf, ou ainda da dor de existir que encontramos em Clarice Lispector.

Em certos momentos, eu simplesmente não sei o que é isso. Já pensei em procurar um especialista, mas não tenho recursos financeiros para esse tipo de cuidado com uma emoção que, às vezes, parece descontrolada. E o que me resta? A arte — essa minha forma meio doida e subjetiva de contornar tudo isso — e seguir sendo, até quando der.

Hoje é domingo e, antes mesmo do dia começar, eu sentia um prazer que me confundia inteiro. Domingo de manhã tem algo de êxtase. Mas o que esperar de mais um dia? O que posso fazer para que algo aconteça, algo que me dê a satisfação de estar existindo? Procurar pessoas? Amigos, como muitos grandes artistas tiveram — e ainda têm? Eu não tenho. Nunca tive talento para cultivar relações que pudessem me sustentar, ao menos com algum apoio moral.

Talvez, no fundo, eu não queira me responsabilizar por aquilo com que não sei lidar. Cultivar pessoas exige responsabilidade, atenção, dedicação — quase como cuidar de um filho. Quando buscamos apoio no outro, é preciso também ter condições emocionais e financeiras para sustentar esses vínculos. Caso contrário, acabamos em um mundo solitário, tentando encontrar dentro de nós mesmos uma forma particular de existir, sem precisar recorrer a ninguém.




 

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